Entenda o caos que gerou bate-boca na largada da Fórmula E na Suíça

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Quem acompanha Fórmula E viu no último sábado, na etapa de Berna, na Suíça, uma tremenda confusão na largada que causou uma bandeira vermelha. A interrupção teve direito a pilotos batendo boca com comissários da FIA com a transmissão mostrando e tudo mais.

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A bagunça aconteceu com um acidente envolvendo pelo menos oito carros bloqueou completamente a chicane que fica após o ponto de largada. Alguns pilotos, entre eles Lucas di Grassi, António Félix da Costa e Felipe Massa, resolveram utilizar uma passagem por fora da chicane, deixando vários carros para trás. Confira a confusão no começo deste vídeo:

Poucos segundos depois, foi dada pela direção de prova a bandeira vermelha, interrompendo a prova, já que como a pista estava completamente bloqueada, com diversos competidores parados, não existia modo de continuar mesmo que com um safety car.

Quando os pilotos saíram de seus carros, foram informados que seriam reposicionados de acordo com sua colocação no grid de largada, e não nas que eles ocupavam após o acidente. A decisão da direção de prova se deu baseada no Regulamento de Competições da FIA, no capítulo 18 (Interrupção de Corrida ou Treino), item A.b.

“Durante a corrida, todos os automóveis devem imediatamente reduzir a velocidade e seguirem devagar para a linha de bandeira vermelha com conhecimento de que:
– a classificação da corrida será a do final da penúltima volta antes da volta em que o sinal para parar a corrida foi dado”

Alguns pilotos (Felipe Massa no destaque) driblam o bloqueio da pista em Berna ao passarem por fora da chicane na largada (Foto: Sam Bagnall / LAT Images / Fórmula E)

Ou seja, como teoricamente a corrida foi paralisada ainda na primeira volta e não existia uma volta anterior a ela, a ordem da prova volta ao grid de largada. Não é uma regra nova e nem exclusividade da Fórmula E. Como está no Regulamento Geral da FIA para competições, ele está em vigor em todas as categorias sancionadas por ela, inclusive a F1 (e já foi utilizado várias vezes e também gerou confusão no GP do Brasil de 2003).

Mesmo assim, os pilotos que tiveram uma vantagem na largada cancelada não estavam conformados e partiram para cima dos comissários de prova, liderados por Lucas di Grassi, que teria com a manobra por fora da chicane subido da 19ª posição do grid para oitavo. A reclamação, como você pode ver no vídeo abaixo, foi em cima da possibilidade de que o pelotão teria completado a primeira volta antes da bandeira vermelha e por isso eles já estariam na volta 2 e as posições da nova largada deveria ser a do final do primeiro giro.

Obviamente que a primeira volta não foi completada como argumentaram os pilotos. Eles se basearam em uma questão curiosa de como foi formatado o circuito de Berna. Como você pode ver no mapa do traçado abaixo, o ponto de largada não é o mesmo em que se completa a volta. Inclusive, a chicane em que os pilotos bateram são as curvas 12,13 e 14, e não 1, 2 e 3 como seria em um início de volta. Após a chicane, eles passam pelo ponto de cronometragem da volta, em que inclusive é dada a bandeira quadriculada.

Na visão deles, por terem passado por aquele ponto, tecnicamente onde a cronometragem das voltas é feita, eles já teriam aberto uma nova volta. “Nós completamos a primeira volta. Nós passamos pela linha de chegada”, bradou Di Grassi no vídeo acima.

Só que o argumento não faz sentido já que a largada é colocada alguns metros para trás por uma questão de espaço para o grid, e mesmo que as primeiras curvas da corrida sejam na verdade as últimas do traçado, a primeira volta só completada para a direção de prova quando um giro completo da pista é feito pelos pilotos.

Sendo assim, a decisão da FIA não só foi correta, como bastante óbvia.

Traçados da Fórmula E

O que talvez a FIA precise revisitar são os traçados apertados da Fórmula E. Não é a primeira vez em que a categoria visita circuitos com pontos questionáveis quanto aos seus desenhos. Principalmente pelo fato de serem quase que exclusivamente pistas de rua e que não dão muita margem para desenhos que preservem a segurança e que estimulem a competição.

A chicane de Berna era claramente um problema para a largada. Um dos oito pilotos que ficaram presos nesta “primeira curva”, Sam Bird disse após a prova que um acidente com vários carros era previsível.

“Uma das sugestões era de não termos a chicane e apenas passarmos reto para a próxima curva na primeira volta, mas mesmo aquela seria uma curva muito apertada. Já vimos isso antes e corremos nestes circuitos de rua apertados e sinuosos. Não fazemos uma volta de aquecimento para aumentarmos a temperatura dos pneus e dos freios como na maioria das outras categorias. Então, vamos para essas freadas com tudo frio. Pode ser muito, muito complicado e infelizmente, Deus sabe o que aconteceu e nós ficamos presos”, explicou o piloto da Virgin, que terminou em quarto.

Corridas de rua são sempre apertadas e em uma categoria como a Fórmula E em que os toques e esbarrões são normais (e até estimulados), a FIA precisa talvez rever alguns de seus conceitos e exigências para não passar por apuros como o de Berna novamente.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.