Entenda o imbróglio SP x RJ pelo GP do Brasil de F1

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Nos últimos dias, principalmente depois de um anúncio do presidente Jair Bolsonaro de que o GP do Brasil de F1 mudaria para o Rio de Janeiro, uma grande confusão passou a cercar a prova, que desde 1990 é realizada em São Paulo.

Quais são as dificuldades para Interlagos manter o GP do Brasil? Como o Rio de Janeiro pretende construir um novo autódromo? Qual é a real posição da F1 e de seu principal acionista, o Liberty Media? Tudo virou uma enorme discussão.

Resolvemos organizar as coisas para você e explicar como está o cenário que envolve o GP do Brasil de F1 e qual é o horizonte para o futuro da prova.

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O anúncio do presidente da mudança do GP do Brasil

No dia oito de maio, em evento ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, e do governador do estado fluminense, Wilson Witzel, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que o GP do Brasil de F1 estaria de partida de São Paulo para o Rio de Janeiro já no ano que vem, em 2020. A cerimônia serviu para assinatura de um termo de compromisso para a cessão do terreno do exército no bairro de Deodoro para a construção de um novo autódromo para receber a categoria.

A declaração foi confirmada pelo próprio mandatário através de sua conta no Twitter.

O anúncio criou uma celeuma e criou várias dúvidas, claramente com informações que não foram checadas de forma apropriada pelo presidente ou por sua equipe, baseadas apenas em pedaços de notícias que andam circulando nos bastidores e no desejo dos administradores cariocas.

Isso ficou ainda mais claro quando, no dia seguinte, o próprio presidente Bolsonaro admitiu em sua live semanal nas redes sociais que tinha ficado sabendo da informação sobre a mudança da F1 um dia antes do anúncio. “Fiquei sabendo antes de ontem, dia 7 de maio, que estava em negociação a ida da F1 para o Rio de Janeiro. O governador de São Paulo, Dória, o prefeito ficaram chateados, mas eu não tive participação nenhuma disso”, explicou.

Ele ainda voltou a destacar que tem a informação que a F1 sairia do Brasil se não fosse por esse acordo com o Rio de Janeiro e que a organização da categoria irá construir o autódromo da região de Deodoro, zona oeste do Rio.

“A decisão, a iniciativa de ir para lá, pelo que estou sabendo, foi dos próprios organizadores, que iriam sair do Brasil. E palavra dele, tendo em vista que nós ganhamos a eleição, e não foi aquele outro que ficou em segundo lugar, e resolveram manter no Brasil. E resolveram, em um campo de instrução do exército, campo de Camboatá, onde estava sediado o primeiro batalhão de forças especiais, lá no Rio de Janeiro, eles vão construir, uma vez tudo acertado, parece que está caminhando neste sentido, em poucos meses vão construir essa pista de F1, de modo que ano que vem teremos F1 no Brasil.”

Cabem diversas considerações sobre as afirmações do presidente. Para começar, sobre as declarações (duas vezes e em dias distintos) de que o GP do Brasil já seria realizado ano que vem no Rio de Janeiro. É importante destacar que a cidade de São Paulo possui um contrato para sediar a corrida em 2020 e que está cumprindo suas obrigações atuais (vamos falar mais disso). Por isso, para se tirar o evento de Interlagos, a F1 teria que arcar com uma multa que está prevista no acordo.

Segundo, não podemos deixar de destacar a falta de tempo para a construção de novo autódromo, do zero, já para a próxima temporada, tendo ainda em vista que a burocracia estatal para a obra (também vamos falar mais disso) ainda não está encaminhada. Os últimos circuitos construídos para a F1 levaram mais de um ano para serem erguidos. Seis ou sete meses, como disse o presidente, seria um prazo bastante curto.

Além disso, é difícil de acreditar na afirmação (mais uma vez confirmada depois na live) de que a organização da F1 iria sair do Brasil e que eles irão construir o novo autódromo. A F1 não constrói pistas pelo mundo. Ela cobra para ir correr nos lugares.

Histórico de Deodoro

Importante também é estabelecer como está o projeto do novo circuito do Rio de Janeiro. Depois da destruição de Jacarepaguá para a construção no mesmo local do Parque Olímpico para os Jogos de 2016, a prefeitura local tem feito diversas promessas de erguer o novo equipamento para o esporte a motor no terreno do exército na zona oeste.

A primeira versão da ideia nasceu em 2012, que assim como a deste ano também contou com divulgação de desenho de traçado e promessa de receber a F1 em breve. Só que o projeto nunca andou por problemas tanto no terreno (que precisou ser descontaminado por conta do uso para treinamento das forças armadas com artefatos explosivos no local) quanto de verbas para a construção. Desde então, vira e mexe o assunto sobre a construção do autódromo de Deodoro volta à pauta, porém, sem um metro de asfalto nunca ter sido instalado no local.

Desta vez, a prefeitura anunciou um projeto de Parceria Público-Privado em que entraria com o terreno e a iniciativa privada, após uma concorrência pública, ficaria sob responsabilidade de construção do autódromo. O vencedor do edital teria direito de administrar e explorar a praça esportiva durante 35 anos. A PPP da prefeitura prevê um investimento de R$ 697 milhões para a construção, porém, números de bastidores mostram que o custo da obra deve se aproximar dos R$ 800 milhões.

Pré-Projeto do novo Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro (Imagem: Divulgação)

Foi quando surgiu o consórcio Rio Motorsports, que reuniu algumas consultorias internacionais e fechou uma parceira com o escritório do arquiteto alemão Hermann Tilke, responsável pelas pistas da F1 desde o final da década de 90, para projetar o novo circuito e suas instalações. Neste meio tempo, em junho de 2018, a empresa fechou um acordo de intenções com a Dorna, promotora da MotoGP, para realização de uma etapa do Mundial de Motovelocidade no local a ser construído.

De olho na movimentação, a F1 fez uma consulta à prefeitura sobre o novo projeto e o interesse em receber o GP do Brasil, o que incentivou a administração Crivella a caminhar com a ideia. Só que o edital já foi adiado por duas vezes por questões burocráticas encontradas pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro desde novembro de 2018. A expectativa agora é que em junho a concorrência finalmente possa ser realizada, enquanto a Rio Motorsports segue como única interessada, pelo menos em público, de participar.

Ao contrário do que aconteceu em outras oportunidades sobre o projeto de Deodoro, desta vez o escritório de arquitetura de Tilke confirmou ao Projeto Motor seu envolvimento com a criação do circuito e prometeu mais novidades a respeito dentro de algumas semanas.

Existe ainda uma discussão sobre o terreno por se tratar de um resquício de Mata Atlântica do munícipio. Alguns vereados cariocas apresentaram a ideia de transformar o local em uma Área de Preservação Ambiental da Floresta do Camboatá, o que inviabilizaria qualquer construção no local. O projeto já foi aprovado em primeiro turno na Câmara por 30 votos contra 0. Audiências públicas serão realizadas nas próximas semanas para discussão da pauta antes da segunda votação. O prefeito, no entanto, pode vetar a transformação caso ela passe.

Pré-projeto do pitlane do novo autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro (Imagem: Divulgação)

Outra questão que ainda não foi devidamente explicada é que os representantes das instâncias federal, estadual e municipal insistem que todo o investimento na empreitada seria privado (o que é questionável de partida pelo fato do terreno ser público), mas a Rio Motorsports, empresa cuja sede fica nos Estados Unidos, ainda não explicou de onde viria seu financiamento e se ela seria a responsável pelas taxas anuais com a F1 para a realização do GP do Brasil, que pela média de outras etapas do calibre da brasileira giram entre 25 e 30 milhões de euros (entre R$110 e R$ 130 milhões).

O lado de São Paulo

A cidade de São Paulo renovou pela última vez seu contrato para manutenção do GP do Brasil na cidade em 2014. O atual acordo termina apenas após a corrida de 2020. Representantes da Rio Motorsports e da cidade do Rio de Janeiro alegam que o município não tem pago as taxas para sediar a prova, porém, isso estava no acordo assinado na época.

O então chefe da F1, Bernie Ecclestone, aceitou abrir mão das taxas entre 2018 e 20 desde que a cidade reformasse o paddock do autódromo, que era considerado pequeno e ultrapassado para as necessidades da categoria.

As obras foram realizadas em fases, e a maioria financiada com verbas da União, via Ministério do Turismo, com um total de investimento de R$ 160 milhões nos últimos três anos. Primeiro foi construído um novo prédio para o paddock atrás dos boxes. Para a corrida de 2019, os boxes terão instalações completamente novas.

Baseados no cumprimento dos acordos, o prefeito Bruno Covas e o governados João Dória alegam que não existiriam motivos para o GP do Brasil de 2020 não acontecer na cidade. Além disso, eles afirmam que possuem rodadas de conversas com representantes do Liberty Media, informação confirmada pelo Projeto Motor com a empresa que comanda a F1, marcadas para os meses de junho e julho para negociação de um novo contrato que poderia se estender até 2030.

Segundo as autoridades paulistas, o GP do Brasil tem um impacto entre R$ 300 e 450 milhões de reais na economia da cidade e por isso o investimento público no pagamento das taxas faz sentido.

Concessão de Interlagos à iniciativa privada

O futuro do autódromo de Interlagos também anda na pauta nos últimos anos, principalmente depois da eleição do hoje governador João Dória para prefeitura de São Paulo, em 2016. Na campanha, o político prometeu a privatização do circuito.

Desde então, o processo não caminhou porque para a venda em definitivo do equipamento, o Projeto de Intervenção Urbana (PIU) da região do Jurubatuba, zona sul da capital paulista, precisa ser aprovado na Câmara. A discussão vem se arrastando sobre o dispositivo que irá impor as regras ordenamento, reestruturação urbana e utilização dos imóveis da região.

Para Interlagos, o PIU basicamente ditaria o que pode e não pode ser construído dentro do autódromo e para quais fins o equipamento poderia ser utilizado no caso da exploração de novas receitas no caso de um novo proprietário. Ele poderia até inviabilizar a exploração comercial do equipamento diante de um investimento muito grande a ser feito sem a possibilidade de receitas do mesmo porte.

Para acelerar o processo, então, na última semana, a prefeitura resolveu engavetar o projeto de privatização de Interlagos e apresentou à Câmara Municipal o de concessão. A diferença é que no caso da concessão, o governo transfere a um terceiro (normalmente da iniciativa privada) o direito de explorar o ativo estatal por um tempo determinado, deixando a ele também as responsabilidades de administração e manutenção, porém, segue como proprietário e receberá de volta o equipamento ao final do contrato. A privatização é a venda definitiva, sem volta. Assim, a prefeitura acredita que tenha encontrado um caminho mais plausível e que cause mais interesse à iniciativa privada.

Vista aérea de Interlagos

A concessão foi aprovada na Câmara dos Vereadores na última quarta-feira (15/05) e segue agora para sanção do prefeito Bruno Covas. A prefeitura agora precisará criar as regras da concessão (o que poderá ser feito no autódromo, tempo da concessão, modelo da administração e exploração de receitas), realizar audiências públicas e aí realizar a concorrência através de edital para interessados. O vencedor passa a administrar o Complexo de Interlagos, que inclui o kartódromo e todas as outras instalações dentro da área. Importante ainda que no mesmo projeto de lei foi aprovado que o Parque de Interlagos, dentro do autódromo, deve ter acesso público gratuito.

A posição da F1

No meio de tudo isso está a F1 e a empresa que hoje detém seus direitos comerciais, o Liberty Media. O Projeto Motor apurou que a possibilidade de transferência do GP do Brasil para o Rio de Janeiro é vista com simpatia pelos dirigentes da companhia, principalmente pela estratégia de levar a F1 para cidades mais turísticas e criar uma sinergia melhor do evento com o público local e turistas.

Na visão da empresa, ao contrário da capital fluminense, São Paulo não teria o mesmo potencial neste sentido. Por outro lado, também se admite que a tradição do circuito de Interlagos e a importância econômica da cidade paulista são itens que não podem ser esquecidos.

Chase Carey, diretor executivo da FOM

Acima de tudo isso, está claro que o Liberty vê o GP do Brasil como um evento essencial em seu calendário e que não pode ser dispensado sem uma boa negociação, por questões econômicas, de marketing e esportivas. Por isso, mais do que nunca, o fato de existirem duas candidaturas e a chance de poder explorar opções para conseguir o melhor negócio possível é o que mais anima os administradores da F1.

Por isso, CEO da FOM, Chase Carey, vem incentivando as autoridades cariocas com conversas e até mesmo uma carta, que também foi encaminhada para o presidente Bolsonaro, abrindo as portas para uma negociação. O que a empresa mais quer é manter o GP do Brasil e conseguir o melhor negócio possível dentro disso, e a competição entre Rio e São Paulo não poderia vir em melhor hora para isso. Mas, é claro, sem pista não existe corrida, por isso o estudo de viabilidade do projeto de Deodoro será feito de forma minuciosa antes de qualquer decisão.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.