Entenda o que pode mudar na F1 com a aprovação do Brexit

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O dia 24 de junho de 2016 nunca será esquecido pelos britânicos. Naquela sexta-feira, divulgou-se o resultado do referendo que decidiu, com 51,9% dos votos, a saída do Reino Unido da União Europeia.

Mas os desdobramentos do “Brexit” (siglonimização para “Britain” e “exit”, respectivamente “Grã-Bretanha” e “saída” em inglês) ainda são obscuros. Diversos especialistas em economia alertam sobre possíveis quedas nas bolsas de valores e impactos no crescimento do Reino Unido.

Votação pela permanência do Reino Unido na UE foi apertada: o território em azul votou contra, o amarelo a favor (Wikimedia)
Votação pela permanência do Reino Unido na UE foi apertada: o território em azul votou contra, o amarelo a favor (Wikimedia)

Há também um estudo do governo britânico que aponta a possibilidade de um encolhimento da economia nacional entre 3,8 e 7,5% até 2030 – dependendo de como forem as negociações sobre o acesso ao mercado europeu.

Com oito de seus 11 times sediados em território inglês, a F1 deve sofrer um impacto direto. A indústria do esporte a motor emprega mais de 40 mil pessoas no Reino Unido e injeta por volta de £ 9 bilhões por ano na economia britânica. Isso porque a categoria compartilha formação e tecnologia com outras áreas, da indústria automotiva até a bélica.

Com base nisso, o que muda no esporte com a confirmação do referendo? Os times silenciam sobre o assunto, mas os efeitos do Brexit, em curto e longo prazo, devem incidir principalmente na gestão operacional e, dependendo de como a economia europeia se comportar nos próximos anos, inclusive sobre o Pacto da Concórdia. Há também a possibilidade de as equipes debandarem do já famigerado “Motorsport Valley”, no sul da Inglaterra, para os países continentais, tentando economizar gastos com pessoal e logística.

Os fatores são diversos. Por isso, confira abaixo algumas das principais mudanças que podem ser esperadas na F1 nos próximos meses.

Aumento no lucro pós-desvalorização da libra

Bernie Ecclestone, a favor do Brexit, se mostra cético quanto a possíveis impactos negativos do referendo sobre a F1: "Não faz diferença para o esporte"
Bernie Ecclestone, a favor do Brexit, se mostra cético quanto a possíveis impactos negativos do referendo sobre a F1: “Não faz diferença para o esporte”

A trajetória de baixa da libra esterlina vai afetar diretamente o orçamento das equipes de F1. Na última segunda-feira (27), a moeda britânica caiu ao menor valor em 31 anos, perdendo quase 10% em relação ao dólar num único mês.

Para os times sediados no Reino Unido, estas são boas notícias – ao menos em curto prazo. Isso porque a maioria dos pagamentos advindos da FOM (Formula One Management) são cotados em dólar. Portanto, baseando-se no atual preço da moeda britânica, se uma equipe aguarda para esta semana um abono de US$ 10 milhões, o valor convertido para libras será de £ 7,7 mi em vez de £ 6,2 mi, como se daria três meses atrás.

O impulso inicial, porém, pode significar uma vitória de Pirro. A verba a mais terá que compensar o déficit da libra esterlina em relação às principais moedas, incluindo o euro. Isso incide nas despesas relativas a peças e serviços externos: ou seja, qualquer produto que uma equipe britânica quiser adquirir de um fabricante europeu vai custar 10% mais caro. Ao menos na F1 moderna, este cenário é relativamente inédito.

Mudanças no fluxo de pessoal

Visto trabalhista de especialistas britânicos na Europa ficará mais complicado: na foto, James Allison, inglês e diretor técnico da Ferrari
Visto trabalhista de especialistas britânicos na Europa ficará mais complicado: na foto, James Allison, inglês e diretor técnico da Ferrari

Um dos pontos promovidos pelo Partido de Independência do Reino Unido (Ukip, na sigla em inglês) é de que a União Europeia confina a liberdade dos cidadãos britânicos. Ironicamente, porém, há grandes chances de que a confirmação da saída do bloco continental atravanque o status trabalhista de engenheiros e especialistas de outros países na ilha e vice-versa.

Como o quadro de imigração para o Reino Unido vai se desenhar nos próximos anos permanece um mistério, mas a política deve ser mais restritiva que a atual. De acordo com o jornalista esportivo James Allen, advogados trabalhistas têm aconselhado até mesmo que empregados europeus sem situação definida no país entrem com pedido de cidadania britânica para assegurar seus postos.

Em contrapartida, bretões em busca de emprego no continente – Ferrari, Sauber ou Toro Rosso – terão oportunidades mais limitadas. Isso porque a urgência de um visto deve torná-los um candidato menos atraente quando comparado com alguém que tenha em mãos um passaporte europeu.

Relocação de equipes

Sede da Mercedes em Brackley
Sede da Mercedes em Brackley

Na chance de um desastre econômico para o Reino Unido, as equipes podem se ver submetidas a relocarem suas operações. Com nacionalidade alemã, a Mercedes, por exemplo, possui a opção de se mudar para Stuttgart. Já a Renault, atualmente em Enstone, pode ir para Viry-Châtillon, na França.

Este cenário é bem possível. Sediar a equipe na Europa em vez do Reino Unido pode representar no futuro uma economia significativa no frete das equipes, tanto na parte financeira quanto na burocrática, e na contratação de pessoal. Lembre-se que, a partir de agora, as equipes terão documentação de sobra na hora de movimentar mercadorias.

Distanciamento dos países “continentais”

Sem Nurburgring, GP da Alemanha deve ser novamente cortado do calendário em 2017 (McLaren/Divulgação)
Sem Nurburgring, GP da Alemanha deve ser novamente cortado do calendário em 2017 (McLaren/Divulgação)

A saída britânica da União Europeia vai justificar ainda mais a impaciência de Bernie Ecclestone com as associações do Velho Continente. Com a economia europeia em frangalhos e a dificuldade de financiamento estatal aos GPs, a FOM acena uma guinada aos países da Ásia e do Oriente Médio.

Por conta disso, o número de etapas na Europa pode diminuir consideravelmente nos próximos anos. A etapa da Alemanha, por exemplo, é uma das ameaçadas de corte para a temporada que vem.

O que ainda adstringe a F1 à Europa são os contratos de televisão. Boa parte da audiência televisiva do esporte vem do continente e apenas por lá há a possibilidade de fechar acordos bilionários como o da Sky, confirmado três meses atrás.

 

Assista ao DEBATE MOTOR #33: Os carros da F1 ficaram complexos demais?

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Eli Carlos Miranda dos Santos

    Mesmo sendo aficionado por carros e esportes a motor eu não pensei nem por um minuto que o Brexit teria impacto sobre eles.

    Parabéns a equipe do projeto motor que mostrou mais uma vez contemplar o esporte a motor em seu sentido mais amplo.

  • Gustavo Segamarchi

    Caramba, acho que essa atitude do Reino Unido foi um tiro no pé, assim como estão falando os especialistas.

    Análise mais do que recomendada.