Entendeu a confusão da Force India? Nem a F1 soube explicar

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A questão da nova Force India está deixando muita gente coçando a cabeça com dúvidas sobre o que aconteceu. E se você é uma dessas pessoas, fique tranquilo. Nem mesmo chefes das outras equipes conseguiram seguir a história direito e nas próximas semanas muita coisa ainda terá que ser explicada.

Vamos tentar aqui te deixar minimante informado sobre tudo o que sabemos que rolou e as consequências do negócio para você conseguir acompanhar os próximos passos.

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Para começar: a Force India que você conhece acabou. Ela não foi vendida, oficialmente ela simplesmente deixou de existir. Agora, temos um time completamente novo, a Racing Point Force India. Ainda não existe uma explicação oficial sobre a manutenção de parte do antigo nome, porém, tudo leva a crer em dois motivos: como os carros continuam sendo os mesmos, o construtor registrado dos monopostos segue sendo “Force India”. A segunda é o fato de se preferir fazer uma mudança parcial neste meio de temporada, até por conta de identidade visual que está nos uniformes, boxes e etc, para uma alteração definitiva e mais radical para 2019.

O fim da antiga Force India fez com que a FIA tivesse que providenciar e aceitar, mesmo no meio da temporada, uma nova inscrição. Ou seja, temos no GP da Bélgica a estreia de uma nova concorrente na F1. A Racing Point Force India entra na competição com zero pontos no campeonato de construtores. Os tentos conquistados pela antiga Force India foram anulados, assim como sua entrada.

Esteban Ocon, da Racing Point Force India, com o modelo VJM11, em Spa-Francorchamps (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)
Esteban Ocon, da Racing Point Force India, com o modelo VJM11, em Spa-Francorchamps (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)

E como foi dado esse passo? Depois de entrar em administração judicial, no final de semana do GP da Hungria, o time seria comprado por um consórcio formado por diversos investidores. O líder, como foi bastante divulgado, é Lawrence Stroll, pai do piloto Lance Stroll e investidor do setor de moda. Importante dizer que mais do que pai de piloto, o canadense é um grande aficionado por corridas. Para se ter ideia, ele é proprietário do tradicional autódromo de Mont-Tremblant (que já recebeu até corridas da F1 nos anos 60), no Canadá, e tem a maior coleção de Ferraris no mundo.

Junto dele, ainda estão seu parceiro de negócios Silas Chou, o investidor Andre Desmarais, o executivo da Monaco Sports and Management Jonathan Dudman, o executivo do setor de moda John Idol, o investidor do ramo de telecomunicações John McCaw Jr e ainda um investidor do mercado financeiro, Michael de Picciotto. Juntos, no começo de agosto, eles criaram a empresa Racing Point UK Limited.

A primeira ideia era de que essa companhia comprasse a Force India e a vida seguisse normalmente. Só que o time tinha uma série de dívidas, inclusive alguns enroscos com empresas de seu antigo proprietário Vijay Mallya. O indiano até mesmo alegava que a equipe devia U$ 208 milhões para a sua holding Orange India.

Lawrence Stroll e seu filho Stroll, hoje na Williams
Lawrence Stroll e seu filho Stroll, hoje na Williams

Caso a Racing Point simplesmente comprasse a Force India e a tirasse da administração judicial, poderia ter que lidar ainda com algumas dessas questões no futuro. Ou seja, ficou mais seguro, apesar de mais caro, comprar apenas os ativos da antiga equipe e começar vida nova. E quando falamos em ativos, leia-se carros, equipamentos, fábrica e etc.

E por que isso é mais caro? O time desde já perde os direitos aos pagamentos das verbas que a Force India recebia da FOM em 2019. Todo o investimento feito terá que sair do bolso dos novos proprietários. O time corre agora para marcar pontos ainda no atual campeonato para tentar ganhar algum dinheiro em 2019 referente à sua posição no campeonato de construtores.

Se você pensar que temos oito corridas pela frente e a Force India tem um carro competitivo no pelotão intermediário, o time pode perfeitamente evoluir, mesmo que saindo de zero. Isso por que a combalida Williams tem apenas quatro pontos e a Sauber tem 18.

De qualquer maneira, para 2019, a nova Racing Point não terá acesso ao dinheiro da chamada “coluna 1” da FOM, que é uma divisão igualitária para quem participou das últimas duas temporadas. Para você ter ideia, a Haas começou a receber essa verba apenas em 2018, e nunca teve problemas.

A FIA clarificou neste final de semana, porém, que as equipes adversárias autorizaram que em 2018 o time continue recebendo sua parte da verba referente ao ano anterior. Muitos times ainda cobram, no entanto, explicações mais claras sobre como será a posição da nova equipe em 2019, mostrando que apesar da obviedade das regras, a abertura de uma exceção por parte da FIA para uma inscrição de meio de temporada em cima da compra de um outro time gerou muitas dúvidas.

Equipe da Racing Point Force India trabalha nos boxes de Spa-Francorchamps (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)
Equipe da Racing Point Force India trabalha nos boxes de Spa-Francorchamps (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)

O que ainda incomoda e deixa dúvidas?

O regulamento comercial da F1 prevê que para toda esta operação acontecer, todas as outras equipes teriam que dar uma autorização. McLaren, Williams e Renault votaram algumas semanas atrás contra a manutenção das verbas para a Force India, muito por conta do medo de a equipe se tornar um time B da Mercedes e dominar o pelotão intermediário.

Agora, a questão é até maior, já que poderia fazer com que o time continuasse correndo ou não. Essa pressão fez com que os times aceitassem o novo cenário. Além disso, o dinheiro da “coluna 1” que normalmente iria para a Force India, deve ser redistribuído para todas as outras equipes. Queira ou não, mesmo abrindo mão de um dinheiro considerável, o caminho é uma forma da nova administração “comprar” o aceite dos adversários.

Por outro lado, muitas perguntas ainda estão sendo feitas no paddock, principalmente sobre os direitos e deveres a curto prazo desta nova equipe e principalmente sobre uma suposta jurisprudência aberta. Com que base a FIA aceitou uma nova inscrição no meio da temporada? Vamos ter novas exceções à regra no futuro em caso de novos problemas financeiros?

Provavelmente essa discussão pode até ajudar ao Liberty Media a caminhar com o novo acordo comercial da categoria, que ele tanto gostaria de mudar. A F1 ainda segue sob regras sem muito sentido ou justiça esportiva formuladas pela gestão de Bernie Ecclestone e que estão sendo discutidas para um novo pacto, que deve entrar em vigor em 2021.

Otmar Szafnauer, novo chefe da Racing Point Force India na F1 e Andrew Green, diretor técnico (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)
Otmar Szafnauer, novo chefe da Racing Point Force India na F1 e Andrew Green, diretor técnico (Foto: Racing Point Force India/Divulgação)

Como pode ser o futuro?

Algumas mudanças já foram feitas. A principal é que Bob Fernley, chefe de equipe na ausência de Mallya, foi demitido. Otmar Szafnauer, que era chefe de operações, foi alçado ao cargo de chefe de equipe e CEO.

Em seu primeiro GP, em Spa, A Racing Point Force India terá seus mesmos pilotos: Sergio Pérez e Esteban Ocon. Isso pode mudar antes do final da temporada, já que existe uma óbvia abertura para Lance Stroll, hoje na Williams, pegar uma dessas vagas, provavelmente a do francês.

Mudança na questão de patrocínios e identidade visual devem ser anunciadas nos próximos meses ou até mesmo apenas 2019.

 

Force India sobrevive! E agora? | Debate Motor #129

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.