Escândalo CBA x Cacá rompe barreira das pistas: merece investigação pública

6

Nesta última segunda-feira, o automobilismo brasileiro ganhou destaque, mais uma vez, de maneira lastimável. O jornal Folha de S. Paulo, em matéria de Paula Cesarino Costa, fez uma grave denúncia de que comissários da Confederação Brasileira de Automobilismo estariam mancomunados para prejudicar o piloto Cacá Bueno.

É simplesmente mais uma página da história recente de uma entidade falida e sem moral nenhum para seguir comandando e regulamentando o esporte a motor no país. E as pessoas precisam entender que o caso não é apenas uma polêmica entre entidade e piloto, mas sim uma manipulação de resultados, que, segundo a própria conversa, teria custado até títulos.

Na reportagem, a jornalista afirma ter conseguido acesso a mensagens de Whatsapp entre o comissário técnico Clóvis Matsumoto e o auxiliar Ygor Dias, dois dias depois da prova em Ribeirão Preto, em 2015, em que o piloto da Red Bull xingou no rádio os representantes da CBA de “bando de imbecis” por terem errado a volta da bandeira quadriculada.

Veja como teria sido o diálogo, segundo a reportagem:

Dias: “Vamos desclassificar ele por alguma coisa na próxima etapa…”

Matsumoto: “Bom, na minha época o Cacá foi 3 vezes vice pq eu não estava a fim de deixar ele ser campeão! Kkk”

Dias: “Eu presenciei essa época do matsu… E tbm não faz muito que ele não foi campeão por uns pontinhos que tiramos dele…”

O seu embate em Ribeirão Preto com a entidade nacional lhe rendeu uma suspensão de uma rodada dupla, além de uma multa de R$ 50 mil, o que, na época, nós aqui do Projeto Motor consideramos um absurdo e abuso de poder. Ao final da temporada, o pentacampeão acabou ficando com o vice da temporada, o seu quinto, seguido de 2003, 2004, 2005 e 2010.

Em uma entrevista ao site de sua patrocinadora, a Red Bull, o piloto, obviamente, se disse “enojado” pela situação e lembrou de escândalos parecidos que aconteceram em outros esportes, como o do árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que em 2005 admitiu a manipulação de resultados em jogos do Campeonato Brasileiro de futebol.

cacá bueno pista“O que eu vi no passado, no futebol, é um cara que confessou ter manipulado jogos ser investigado, processado e banido do esporte. A gente viu escândalos no vôlei, no tênis, no basquete e eles foram benéficos no longo prazo, apesar do choque inicial. Então, essa é uma oportunidade pra gente limpar o nosso esporte”, declarou.

Cacá sempre foi o piloto mais combativo da Stock Car fora das pistas. Sim, já falou muita besteira, mas nunca se calou ou se omitiu diante dos diversos problemas da categoria, da sua organização e, principalmente, da CBA. E, curiosamente, é um piloto que tem diversos problemas com comissários em seu currículo. Se uma coisa está ligada a outra? Só uma investigação de verdade pode apontar.

As pessoas do automobilismo brasileiro – dirigentes, pilotos e alguns jornalistas que se dizem especializados – parecem que se acostumaram a resolver as “pequenas” polêmicas de forma “interna”, sem muito alarde. Vai para sindicância, STJD… A maneira atrapalhada e questionável de como a CBA tratou alguns dos casos de doping da Stock Car é uma prova disso. E o medo é de que mais uma vez isso aconteça, com tudo caindo no esquecimento no final.

caca bueno 2A entidade emitiu um comunicado sobre o caso afirmando que, “provisória e preventivamente, resolveu afastar os oficiais de pista citados na matéria e abrir inquérito administrativo para apurar supostas irregularidades, além de encaminhar a matéria jornalística para a Procuradoria do STJD do Automobilismo, ante a gravidade do narrado.” Os comissários, para se defender, alegam que tudo não passou de uma brincadeira, “molecagem”.

Negativo. Isso tudo é muito pouco. O caso é sério. Estamos falando, como já foi citado no texto, de uma manipulação de resultados em um esporte profissional, em que existe transmissão de televisão, dinheiro de patrocinadores e de entidades públicas (seja em forma de patrocínios de estatais como também em investimento de prefeituras locais em seus autódromos e provas locais), e muito mais.

Pelo escândalo do apito de 2005, Edílson Pereira de Carvalho não só foi expulso do futebol como condenado na justiça comum a pagar, ao lado do empresário Nagib Fayad, responsável pela ponte entre apostadores e os árbitros corruptos, e da CBF, R$ 160 milhões a título de indenização à sociedade. Será que vamos ter um processo deste na CBA?

O caso merece uma investigação séria na esfera criminal. A simples suspensão de um comissário que admite ter mudado o rumo de um campeonato é pouco. E mais: deve ser o início (mais um) para a reforma geral da CBA, que está tão falida em termos de credibilidade quanto uma Fifa ou CBF.

DEBATE MOTOR #16: equipe recebe Luis Fernando Ramos para analisar pré-temporada da F1:

 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.