Especial 20 anos sem Fangio #1: o amigável sequestro em Cuba

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A semana é de Juan Manuel Fangio. Esquecido pelos fãs que se digladiam para defender entre Ayrton Senna, Michael Schumacher e Alain Prost quem foi o melhor piloto da história da F1, o ás argentino está, ou pelo menos deveria estar, no topo de qualquer ranking da categoria.

Os cinco títulos e as estatísticas proporcionais são categóricos para iterar Fangio como um gênio; o estilo harmoniosamente agressivo e refinado, uma referência; a personalidade afável, uma inspiração. Nesta semana, mais precisamente na sexta-feira (17), completam-se 20 anos que o “maestro”, como é conhecido, nos deixou.

Para fazer uma homenagem digna de sua grandeza, o Projeto Motor preparou um especial com quatro textos, publicados entre terça (14) e sexta, para contar as melhores histórias de sua vida e carreira. A primeira delas é uma das passagens mais bizarras e fascinantes da história do automobilismo: o sequestro em Cuba. Ao servir de holofote para as causas pré-Revolução, Fangio deu uma mostra da figura ímpar que era.

A abordagem

Prédio do Hotel Lincoln, em Havana, onde Fangio foi capturado
Prédio do Hotel Lincoln, em Havana, onde Fangio foi capturado

O dia era 23 de fevereiro de 1958. Por volta das 20h40, horário de Havana, Fangio saiu do elevador do Hotel Lincoln, junto com seu empresário, para ter com alguns amigos que o aguardavam no saguão. Enquanto se dirigia ao ponto de encontro, um homem ornado com jaqueta de couro o abordou pelas costas e declarou, de forma discreta: “Sou do Movimento 26 de Julho. Nós vamos sequestrá-lo”.

Após sentir uma pistola pressionada entre as costelas, o “maestro” entendeu que não se tratava de uma brincadeira, e se deixou ser levado até a fachada do hotel, onde um Plymouth (preto ou verde, há divergências sobre a cor) o aguardava, escoltado por outros dois veículos. Ao todo, nove pessoas, portando pistolas e metralhadoras, participavam da operação.

O cenário

Antes de darmos sequência à história, precisamos contextualizar o nobre leitor: em 58, Cuba se encontrava devastada pelos anos da ditadura Fulgêncio Batista, general que aplicou dois (!) golpes de Estado para assumir o poder do país, um em 1933 e outro em 52, após ser destituído por meio de pleito livre em 45. Já o Movimento 26 de Julho, que pedia pela revolução comunista e ganhava cada vez mais força, era liderado por um impetuoso jovem chamado Fidel Castro. Este, por sua vez, galgava espaço na imprensa internacional, apesar de ter antipatia dos países capitalistas, graças à ajuda de um astuto assistente de propaganda chamado Arnol Rodriguez.

Em 1957, com apoio do governo americano, Batista criou uma corrida de protótipos na capital cubana, em um circuito urbano de 5,21 quilômetros, à beira-mar, na região do Malecon. Com pomposos cachês que chegavam a US$ 7 mil (valor bastante atrativo para a época), mais pagamento de todas as despesas de viagem e hospedagem, o governo conseguiu atrair competidores do mais alto calibre para o páreo, tais quais Fangio, Stirling Moss, Carroll Shelby, Harry Schell, Alfonso de Portago e Phil Hill.

A primeira edição, realizada em fevereiro daquele ano, foi um sucesso: diversas estrelas de Hollywood assistiram de camarote à vitória de Fangio, a bordo do Maserati 300S #2. Nada mais natural que repetir a dose no ano seguinte. Afinal, tratava-se de uma grande propaganda do país e do governo. Só que a situação mudara drasticamente em 58, beirando ao caos. Os simpatizantes do castrismo, mais numerosos e barulhentos, encontravam repressão cada vez mais brutal por parte de Batista. O governo teimou em usar a corrida para mostrar um clima de normalidade ao mundo, quando na verdade mal tinha seus oposicionistas sob controle.

Largada do GP de Cuba de 57, realizado com sucesso na pista à beira-mar de Malecon
Largada do GP de Cuba de 57, realizado com sucesso na pista à beira-mar de Malecon

O plano

Quando Arnol Rodriguez soube que Fangio voltaria para o GP de 58, apurou junto a fontes da imprensa data de chegada e local em que o argentino ficaria hospedado. Esboçou, então, um plano simples e perigoso: sequestrar o maior vencedor do esporte a motor até então, apenas para deixá-lo de fora da prova e provar que não, a ilha não estava sob controle, e o movimento castrista se encontrava mais forte do que nunca.

Faustino Perez, responsável por coordenar as operações lideradas por Fidel Castro, contatou Oscar Lucero Moya, comandante das atividades do 26 de Julho em Havana, para planejar a ação. A ideia original não era abordá-lo no Hotel Lincoln, considerado ponto pouco amistoso, mas sim usá-lo como “QG” para seguir cada passo do piloto desde sua chegada a Havana, em 21 de fevereiro, e “farejar” o momento ideal para a emboscada.

A primeira tentativa foi na saída de uma emissora de televisão, onde Fangio concedera entrevista, mas havia muita gente nas proximidades. Naquela mesma noite, outra possibilidade se abriu enquanto o volante fazia o reconhecimento do traçado, mas o excesso de seguranças no local levou o plano a ser novamente abortado. Com isso, Fangio pôde até participar do classificatório, no domingo anterior à prova, cravando a pole position com a marca de 1min59s2.

A noite do dia 23 seria a chance derradeira. Ao saber que Fangio desceria para jantar fora com amigos, como havia feito em todos os outros dias, os sequestradores não tiveram dúvidas. Manuel Uziel foi o responsável pela abordagem descrita no início do texto, e obteve êxito: sem ser notado por ninguém, levou Fangio até o Plymouth e, de lá, rumo ao cativeiro.

Antes de ser capturado, Fangio teve tempo de participar da classificação e marcar a pole a bordo do Maserati 300S #2
Antes de ser capturado, Fangio teve tempo de participar da classificação e marcar a pole

O aprisionamento

Enquanto trafegavam tentando dar o mínimo de bandeira, os raptores pediam desculpas ao pentacampeão, ressaltando que ninguém iria machucá-lo e tentando explicar os objetivos da  manobra. Prometeram (e deram) tratamento “igual” ao do Hotel Lincoln, com direito a quarto e banheiro individuais, além de comida farta e de primeira qualidade. A única diferença é que, ao invés de uniforme, “mordomos” e “camareiras” portavam armas de fogo. Enquanto era observado, o “maestro” também esquadrinhava o ambiente, enchendo seus algozes com perguntas sobre a situação política do país.

Ao mesmo tempo, lá fora, sequazes de Fulgêncio Batista tentavam desesperadamente – em vão – encontrar pistas do paradeiro do grande astro da corrida, interrogando clientes e funcionários do hotel, além de conhecidos partidários do Movimento 26 de Julho. Em vão: ninguém sabia ou quis revelar qualquer informação. Na imprensa, a repercussão foi a esperada, com manchetes em capas de jornais de vários países, incluindo o Brasil.

A repercussão

Nos Estados Unidos, é claro que a ação foi alvo de uma enxurrada de críticas. Veja o que declarou o jornalista Morris McLemore, do Miami News:

É uma revolução pobre esta, que precisa golpear a liberdade sequestrando um estrangeiro que não tem a menor noção do que está acontecendo. Abordar um homem de bem, que jamais esperaria que alguém lhe fizesse mal em Cuba, e enfiar uma arma em suas costelas é tão corajoso quanto golpear um bebê com uma chave inglesa.

Por aqui, a Gazeta Esportiva classificou o escândalo como uma “palhaçada”.

Na manhã de segunda-feira, Faustino Perez chegou ao cativeiro e teve uma longa conversa com Fangio, explicando detalhadamente os porquês da captura e indicando que ele seria libertado tão logo a corrida terminasse. Complacente com a causa, o piloto passou de vítima a cúmplice, ajudando no planejamento de soltura. Foi dele a ideia de que as negociações ocorressem diretamente com a Embaixada Argentina, para não colocar os  “carrascos” revolucionários em risco.

A prova

Carta de Fangio aos "amigáveis sequestradores" posicionava gênio a favor do movimento
Carta de Fangio aos “amigáveis sequestradores” posicionava gênio a favor do movimento

Do lado de fora, a tensão tomava conta do circuito citadino em Malecon, mas ainda assim os organizadores autorizaram a realização do GP. O classudo Maurice Trintignant assumiu o lugar de Fangio no Maserati #2, e a largada foi dada. O pentacampeão ouvia a narração pelo rádio, e suspirou em lamentação quando, após 12 minutos de bandeira verde, o competidor local Armando Garcia Cifuentes perdeu o controle de sua Ferrari na – vejam só a ironia – curva da Embaixada Americana e acertou um grupo de torcedores aglomerados. A tragédia terminou com sete espectadores mortos e mais de 40 feridos. A prova foi dada como encerrada e Moss, declarado vencedor.

A soltura

Findo o evento, em clima de funeral, chegou a hora de libertar o campeão. Após contatos telefônicos com o embaixador argentino Raul Lynch, ficou combinado que Fangio seria deixado em uma esquina próxima à casa dele. Perto da meia-noite, o “maestro” reviu a liberdade. A jornalistas, declarou:

Eles me deixaram com uma carta destinada ao governo argentino, pedindo desculpas por me usarem para fins políticos. Foi mais uma aventura. Sei que o que os rebeldes fizeram foi por uma boa causa, então eu, como argentino, aceito.

Verba volant, scripta manent. Fangio também havia deixado um bilhete àqueles que chamou de “amáveis sequestradores”. Nele, o ás escreveu:

Esclareço que, durante este amável sequestro, o trato foi completamente familiar, com atenções cordiais e muitos pedidos de desculpas pela situação, alheia à minha pessoa.

A missiva está exposta no “Museo de La Revolución” de Cuba.

Os reflexos

Como todos sabem, a revolução eclodiu e gerou a queda do governo Batista em 59, promovendo Fidel Castro ao poder. O GP de Cuba chegou a ser novamente realizado em 1960, sob o slogan “GP da Liberdade”, tendo nova vitória de Stirling Moss. Quanto a Fangio, este já estava em fim de carreira, passando apenas a regozijar de merecida aposentadoria das pistas.

Mas os destinos das partes ainda se reencontrariam: Fangio recebeu convites para visitar Cuba como “cidadão de honra”, e realmente voltou, em 1981, representando a Mercedes-Benz em um acordo de fornecimento de caminhões ao governo. Lá, reencontrou “velhos amigos”, como Faustino Perez, e também conheceu pessoalmente, pela primeira vez, o próprio Castro, no mesmo Hotel Lincoln onde estava hospedado naquele 23 de fevereiro de 1958.

Nos anos 80, Fangio, então embaixador da Mercedes-Benz, viaja a Cuba para entregar um lote de caminhões ao governo e, enfim, conhece Fidel Castro pessoalmente
Nos anos 80, Fangio, então embaixador da Mercedes-Benz, viaja a Cuba para entregar um lote de caminhões ao governo e, enfim, conhece Fidel Castro pessoalmente

Arnol Rodriguez, promovido a ministro de Comércio Exterior, viajou à Argentina para atividades diplomáticas, entre 82 e 84, e aproveitou para visitar seu antigo captado. No ano de 83, 25º aniversário da chamada “retenção patriótica” (como os governistas de Cuba denominam o rapto), Perez enviou uma carta a Fangio, que termina com a assinatura “de seus amigos sequestradores”.

Em 92, foi a vez de o próprio Fangio enviar condolências pela morte de Faustino, mesmo ano em que convidou Rodriguez para conhecer sua cidade natal, Balcarce, a participar da celebração pelo aniversário de seis anos do museu que homenageia o multicampeão. Arnol retribuiu a cortesia doando uma réplica do troféu do GP de Cuba de 58 ao acervo, aquele que o argentino nunca pôde disputar.

Três primaveras mais tarde, Rodriguez foi um dos últimos a visitar o já doente ex-piloto, que viria a falecer no dia 17 de julho. No funeral do gênio, chamava a atenção uma opípara coroa de flores, expressando as condolências do camarada Fidel Castro.

Leia as outras partes do Especial:
#2 – Até o campeão começou como piloto pagante
#3 – O maior de todos os tempos é argentino
#4 – As 10+ do pentacampeão
#5 – Na Tela com Documentário e entrevista do argentino

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Gustavo Segamarchi

    Parabéns pessoal do Projeto Motor!

    O texto está muito bom, me prendeu na leitura do começo ao fim. A história do PLANO e do APRISIONAMENTO são fantásticas, tem um ar de mistério, investigação. Gostei muito.

    E quem diria, os dois maiores nomes da F1 são Sul-Americanos, Brasil e Argentina: Senna e Fangio.

    Agora, estou aguardando a parte 2.