Especial 20 Anos sem Fangio #2: até o campeão começou como piloto pagante

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Na F1, apelidar um competidor de “piloto pagante” é sinônimo de ofensa. Não é apenas desmerecer a vaga do volante no grid: é atribuir sua posição a um motivo sui generis – dinheiro.

O contraponto neste axioma é que, curiosamente, grandes pilotos ingressaram no esporte graças a um aporte financeiro. Niki Lauda, por exemplo, negociou vários empréstimos para disputar sua primeira temporada completa na F1, em 1972. Já o brasileiro Ayrton Senna, ao ascender à categoria, nunca deixou de estampar no capacete a marca do Banco Nacional, corporação que o apoiou desde as fórmulas inferiores.

Mesmo nos anos 50, há casos de pilotos patrocinados por grandes empresas estatais e de capital privado. O mais expressivo é o de Juan Manuel Fangio. Durante quase toda sua carreira, o pentacampeão, considerado por muitos – incluindo o comitê editorial do Projeto Motor – como o melhor corredor de todos os tempos, esteve conectado financeiramente e politicamente à administração do presidente argentino Juan Domingo Perón (1946-55).

Fangio entre Evita e Juan Perón
Fangio entre Evita e Juan Perón (Divulgação)

Não é o caso de afirmar que a trajetória do Maestro teria sido menos relevante se não fosse pela intervenção de Perón. Seria impreciso demais. Mas é possível afirmar que sua ida à Europa no fim dos anos 1940 – um episódio crucial na biografia de Fangio, já que culmina em sua promoção à F1 – se deva, em grande parte, à política de promoção esportiva encabeçada pelo estadista portenho. Ainda que o pentacampeão sempre tenha insistido de que política e esporte não se misturam.

Como a maioria dos estadistas em meados do século 20, Perón apreciava automobilismo e carros esportivos e acreditava que o sucesso entre as máquinas era um reforço da superioridade nacional. Foi assim que, diferentemente da Europa, onde as equipes de esporte a motor juntavam seus cacos para reorganizar o calendário de GPs, a Argentina se destacava com um fortíssimo circuito. No campeonato denominado “Turismo Carretera”, os volantes portenhos competiam com máquinas muito próximas ao do atual Mundial de Rali (WRC): carros de produção modificados para sobreviver às extensas e íngremes rodovias dos pampas. Várias provas clássicas do endurance local nasceram neste período, como as Mil Milhas Argentinas.

Diante da popularidade do automobilismo no país, Perón resolveu investir numa empreitada ousada: um campeonato mais oneroso e disputado por monopostos – já à época os veículos mais rápidos no esporte a motor. E como o torneio iria ocorrer no inverno europeu, várias estrelas do Velho Mundo, como Luigi Villoresi, Achille Varzi e Jean-Pierre Wimille, foram chamadas para reforçar o páreo. Mas logo isso se mostrou um fracasso para os ímpetos nacionalistas de Juan e Evita. Embora o campeonato tenha sido um sucesso de público, os automobilistas argentinos, correndo num equipamento quase amador, foram massacrados pela oposição estrangeira.

Fangio com uma Maserati independente no GP da França de 1949 (Divulgação)
Fangio com uma Maserati independente no GP da França de 1949 (Divulgação)

Perón decidiu então contra-atacar. Investiu um caminhão de dinheiro numa entidade privada, a ACA (Automóvil Club Argentino), com o objetivo de financiar a ida de pilotos locais à Europa para disputar os tão prestigiados Grandes Eprèuves. Ao menos no discurso, este era um sinal do estadista ao povo de que os portenhos não se contentariam com o jugo estrangeiro.

Pois bem. Vencedor das Mil Milhas e mais um bocado de corridas importantes nos anos 40, Juan Manuel Fangio era o volante mais indicado para representar bem a Argentina no Velho Mundo. Logo em seu primeiro GP oficial, França-1948, o piloto de Balcarce impressionou ao desafiar Villoresi e Wimille num pouco competitivo Gordini T11. No ano seguinte, foi a vez de deixar a oposição boquiaberta: foram cinco vitórias no verão europeu, todos de Maserati independente – e patrocinada por Perón.

Daí para frente, Fangio obteve um contrato de piloto oficial com a Alfa Romeo e o auxílio peronista se restringiu mais à política de discurso. Todavia, a conexão do pentacampeão com o estadista nunca se perdeu. Em setembro de 1955, quando a Revolução Libertadora depôs Perón, seis dias após o tricampeonato de Fangio, o piloto de F1 foi alertado de que não poderia retornar à Argentina.

“Mas eu [Fangio] disse: ‘Estou voltando. Se fiz algo, deixe que me prendam. Não tenho nada a esconder’. Pela primeira vez, minha mala foi vistoriada no aeroporto. Veio então a interdição e a investigação sobre meus empreendimentos automotivos [Fangio foi importador da Mercedes-Benz na Argentina por muitos anos].”

Embora a investigação não tenha achado nenhuma irregularidade, Fangio foi proibido de deixar o país por alguns meses e, somente no ano seguinte, a poucos dias do início da temporada 1956, liberado a assinar com a Ferrari. O Maestro ainda venceu este campeonato e, no ano seguinte, fechou sua série de títulos com a Maserati.

Mas, principalmente no país natal, seu nome nunca perdeu a conexão com Perón. Afinal, o sucesso na Europa e a predileção do presidente portenho coincidem com um controverso e obscuro período da história da Argentina.

Leia as outras partes do Especial:
#1 – O amigável sequestro em Cuba

#3 – O maior de todos os tempos é argentino
#4 – As 10+ do pentacampeão
#5 – Na Tela com Documentário e entrevista do argentino

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Gustavo Segamarchi

    Matéria muito legal. Eu realmente não sabia que até o Fangio era “pagante”. O Niki Lauda eu sabia porque assisti ao filme Rush.

    Nessas duas partes do especial do Fangio, percebi que ele só não era um grande piloto, mas um grande ser humano, também.

    Vamos nos orgulhar, gente! Os dois maiores nomes da F1 são Sul-Americanos: Senna e Fangio.