Especial 20 anos sem Fangio #3: o maior de todos os tempos é argentino

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Qualquer pessoa que é apaixonada por corridas e que entende um pouco da história da categoria já deve ter se visto envolvida em algum tipo de debate sobre qual seria o maior piloto de todos os tempos. O comitê editorial do Projeto Motor colocou a mão neste vespeiro no fim de 2012, ainda como integrantes do hoje extinto site Tazio. Apesar de se tratar de um assunto complexo, com muita margem para discordância, naquela ocasião houve, de forma surpreendente, uma unanimidade: Juan Manuel Fangio na primeira posição. Mas por quê?

Primeiramente, é recomendável que alguns termos desta discussão sejam bem esclarecidos. É impossível determinar com exatidão o melhor piloto da história, porque não há como comparar competidores de épocas tão distintas utilizando critérios objetivos. A F1 de Fangio possuía características técnicas drasticamente diferentes em relação à F1 de Ayrton Senna, por exemplo, o que inclui carros, pistas e a dinâmica das corridas em si. Então, para fazer a análise, resta relativizar os feitos de cada um, ponderando-os dentro do contexto de sua época para assim medir quem foi mais grandioso. E é nisso que Fangio destoa dos demais.

ESPECIAL 20 ANOS SEM FANGIO: O amigável sequestro em Cuba

A começar pelo critério mais simples possível, o estatístico. Em uma primeira olhada, o único feito do Maestro que chama a atenção é o número de títulos, cinco, o segundo maior da história e que permaneceu inalcançável por 44 anos. Contudo, Fangio se destaca em cada um dos itens mais importantes.

O argentino permaneceu na F1 por um período que hoje seria considerado curto, com 51 GPs em seu currículo. Assim, numericamente falando, seus feitos ganham destaque quando analisados de forma proporcional. Fangio marcou a pole position em 56% das corridas que participou, contra 33% de Jim Clark e 40% de Senna. Das corridas, venceu 47%, sendo que Michael Schumacher, a efeito de comparação, tem 29% de aproveitamento. Tudo isso dividindo a pista com ases como Giuseppe Farina, Alberto Ascari, Mike Hawthorn, Jose Froilán Gonzalez e Stirling Moss, recentemente apontado pelo Projeto Motor como o maior não-campeão da história da F1.

Fangio Maserati
Fangio foi campeão cinco vezes por quatro equipes diferentes

Entre 50 e 58, o pentacampeão participou de sete temporadas completas, excetuando 52, quando não correu enquanto se recuperava de um grave acidente, e o último ano, no qual fez apenas duas aparições. Das sete campanhas, obteve cinco títulos e dois vices, sendo que as conquistas se deram por quatro times diferentes: Alfa Romeo, Maserati, Mercedes e Ferrari. É um feito que permanece intocado até então, já que grandes nomes da história nunca chegaram perto: Schumacher, Alain Prost, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e outros foram campeões por dois times diferentes; Senna e Jim Clark por somente um.

Mas, como todos nós sabemos, estatística é um bom indicativo, mas nem sempre acaba expressando com 100% de acurácia valores qualitativos – especialmente em um esporte como o automobilismo, no qual falhas mecânicas ou outros fatores externos influenciam muito no resultado final. A análise, então, precisa ser mais profunda.

Fangio também foi campeão pela Mercedes
Fangio também foi campeão pela Mercedes

O fato de ter sido um “nômade” entre os construtores fez com que o Maestro não construísse nenhum tipo de identificação com algum time em específico, como fez Senna com a McLaren ou Schumacher com a Ferrari. Alguns, como Enzo Ferrari, viam isso como algo negativo, especialmente depois de o argentino ter trocado seu time pela arquirrival Maserati, entre 56 e 57.

Mas Fangio tinha a mentalidade clara de sempre procurar pelo melhor equipamento, algo compreensível considerando sua idade mais avançada (tinha 38 anos em seu primeiro GP). E, para ser justo, é uma mentalidade inerente a pilotos excessivamente competitivos – quem não se lembra de Senna tentando cavar uma vaga na Williams “de outro planeta”, ou, mais recentemente, Fernando Alonso cobiçando Red Bull e Mercedes?

Há quem diga que Fangio só obteve seus feitos impressionantes devido à superioridade de seus carros, embora seja difícil recordar de algum piloto que tenha se destacado sem um equipamento à altura. Mas há quem discorde…

“Os carros pareciam bons porque ele era o melhor piloto! O modo mais barato de se tornar uma equipe de sucesso era contratando Fangio”

Esta opinião, embora não muito aceita pela comunidade do automobilismo, é de autoria de ninguém menos que Stirling Moss. O inglês foi vice-campeão de Fangio por três vezes, e conviveu de perto com o argentino por terem sido companheiros de equipe.

Mais que um rival, Moss era um grande admirador de Fangio
Mais que um rival, Moss era um grande admirador de Fangio

Divergências à parte, uma coisa é ponto pacífico: Fangio tirava extremo proveito do conjunto que dispunha. E, mais do que habilidoso ao volante, o piloto se destacava por sua inteligência acima da média: por muitas vezes, era adepto da prática de “ganhar fazendo o mínimo esforço possível”, muito vista nos primórdios da F1 devido à fragilidade dos equipamentos. Mas, quando precisava, era rápido como ninguém.

Isso foi visto naquela que seria sua última vitória na F1, na Alemanha, em 1957. Fangio perdeu quase um minuto em um pitstop desastrado da Maserati, e voltou à pista com uma larga desvantagem para Hawthorn e Peter Collins. Mesmo assim, o argentino “domou” o Inferno Verde do antigo traçado de Nurburgring, quebrou o recorde da pista repetidamente e assumiu a ponta na penúltima volta, conquistando, assim, o penta. O ato derradeiro do Maestro foi condizente à sua genialidade.

Momentos como esse, aliados a uma elegância ímpar fora da pista, criaram a Fangio uma mística pouco vista na história da categoria. O argentino foi sinônimo de eficiência e classe, não só para o público, mas também para seus próprios colegas de pista. Em seu tempo, o pentacampeão foi uma referência inquestionável, algo que Senna, Schumacher ou Clark, por mais brilhantes que tenham sido, não conseguiram atingir.

ESPECIAL FANGIO: Até o pentacampeão começou como piloto pagante

Sua classe foi vista quando decidiu deixar as disputas na Europa, já que considerava que sua participação na F1 “estava se tornando um trabalho”. Sem a paixão costumaz que o movia, Fangio voltou à Argentina e passou a atuar somente em corridas esporádicas – incluindo a fatídica prova em Cuba, já abordada pelo Projeto Motor. O ato dizia muito sobre Fangio, que, mais do que um obcecado por resultados, era um apaixonado pelo que fazia.

O piloto se foi, mas a mística permaneceu cravada para sempre na história do automobilismo – o que ainda segue forte desde sua morte, há exatos 20 anos. Até mesmo para aqueles que não tiveram o prazer de vê-lo com seus próprios olhos, Fangio inspira não só pela forma com que trabalhava na pista, mas sim pelo modo que via a vida no geral. Um homem que atingiu o céu, mas que ainda assim se mantinha com os pés no chão. Este foi Juan Manuel Fangio.

“Sou grato ao meu carro, porque ele me deu a chance de viajar o mundo, conhecer muita gente e fazer vários amigos. As conquistas na pista são efêmeras, elas passam, mas os amigos duram para sempre”, disse em uma de suas últimas entrevistas

Leia as outras partes do Especial:
#1 – O amigável sequestro em Cuba

#2 – Até o campeão começou como piloto pagante
#4 – As 10+ do pentacampeão
#5 – Na Tela com Documentário e entrevista do argentino

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.