Especial Indy 500 #100 – as assustadoras e marcantes tragédias da prova

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Todo evento centenário como as 500 Milhas de Indianápolis está repleto de histórias. Há as inspiradoras, as cômicas, algumas de prender a respiração e outras, infelizmente, carregadas de tristeza. Os casos desta última categoria são especialmente numerosos quando falamos de uma competição automobilística realizada desde 1911, período em que os padrões de segurança estavam aquém de qualquer parâmetro minimamente aceitável nos dias de hoje.

Setenta e três pessoas faleceram desde que o templário quadrioval localizado na capital de Indiana, Estado do centro-oeste dos Estados Unidos, foi inaugurado, em 1909. É preciso sublinhar o uso do termo “pessoas”, porque não estamos falando necessariamente de pilotos. Espectadores, mecânicos, fiscais, bombeiros e voluntários também entram na conta. Cinquenta e oito dessas fatalidades ocorreram durante algum exercício oficial relacionado às 500 Milhas.

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Tragédias ocorreram por equívocos em procedimentos de segurança, erro humano, falha mecânica ou simplesmente força do acaso. A primeira foi registrada logo na edição inaugural, de 1911: Sam Dickson, mecânico de bordo de Arthur Greiner, foi arremessado do American Simplex conduzido pelo pelo duo a uma distância de seis metros, até se chocar contra uma cerca e morrer na hora. Greiner teve mais sorte, pois caiu diretamente no chão e só quebrou um braço.

Numa época em que mecânicos assistentes reabasteciam e consertavam o carro em movimento, Sam Dickson teve azar de ser o mecânico assistente de Arthur Greiner na edição inaugural das 500 Milhas; Dickson é a primeira vítima fatal da prova
Numa época em que mecânicos assistentes reabasteciam e consertavam o carro em movimento, Sam Dickson teve azar de ser o mecânico assistente de Arthur Greiner na edição inaugural das 500 Milhas; Dickson é a primeira vítima fatal da prova

De lá para cá a prova viveu eras de gradativa evolução em sua segurança, o que consequentemente reduziu a frequência das fatalidades até a de Scott Brayton, em 1996. Logo no ano de estreia da IRL como detentora dos direitos da corrida, o pole position da edição sofreu um acidente fatal na sessão livre da sexta-feira anterior à largada, enquanto testava um chassi reserva da Menards. Aparentemente o pneu traseiro direito perdeu pressão após passar por detritos na reta dos boxes e o levou a perder o controle do Lola-Mercedes no contorno da curva 2. Rodada brusca, choque violentíssimo, cabeça contra o muro, traumatismo craniano, fim.

Surpreendente e chocante, a morte de Brayton é, pelo menos por enquanto, a última a ter as 500 Milhas de Indianápolis como palco. Em 2016, se tudo transcorrer dentro da normalidade, completaremos 20 anos sem que a impiedosa e fascinante prova no templo faça uma nova vítima. Um feito a se comemorar, especialmente em se tratando de um páreo disputado sobre pista oval, muito mais propenso a infelicidades. Isso não significa que se deva arrefecer nas melhorias, tampouco deixar de prestar as merecidas homenagens e reverências aos valentes volantes que se “sacrificaram” em prol de um ente maior: um dos embate entre automóveis mais fascinantes do mundo.

As primeiras

Como quase tudo no esporte a motor da era pré-II Guerra, as 500 Milhas de Indianápolis representavam um campo de experimentalismo quase ingênuo. Tudo era novidade e as mais duras e óbvias lições acabavam por ser aprendidas de modo puramente empírico. Isso inclui os mais variados perigos que a prova circunscrevia.

Arthur Thurman foi o primeiro piloto a falecer durante a corrida, na edição de 1919. Já Bert Shoup, um jovem de 16 anos, morreu atingido letalmente por destroços do carro de Tom Alley e alertou a todos, em 1923, sobre os riscos que espectar a corrida a partir de arquibancadas tão próximas gerava. Bill Spence, falecido na décima volta das 500 Milhas de 1929, após bater forte na saída da curva 2, acabou por representar a primeira colisão fatal registrada em vídeo, em decorrência das gravações do filme mudo Speedway. O trecho não está disponível na internet, mas uma peça com pequenas passagens da produção circula pelo YouTube. Assista e espante-se com o fato de um mecânico trabalhar em cima do tanque de combustível enquanto fuma um cigarro:

Wilber Brink, o azarado vizinho de Indianápolis, em foto tirada poucas semanas antes de ser acertado por um pneu que voou do autódromo
Wilbur Brink, o azarado vizinho de Indianápolis, em foto tirada poucas semanas antes de ser acertado por um pneu que voou do autódromo

Nada, contudo, deve superar o azar de Wilbur Brink, um adolescente de 12 anos que morava com os pais e seis irmãos em uma casa vizinha ao autódromo, e provavelmente nem ligava para automobilismo. Na edição de 1931, o então defensor da coroa Billy Arnold bateu forte contra a parede da curva 4 por conta de uma quebra do eixo traseiro. O ás e seu mecânico escaparam com ferimentos leves, mas uma das rodas voou para fora do circuito e caiu justamente sobre a residência dos Brink, em cima da cabeça do pobre Wilbur.

As edições traumáticas

Determinados anos ficaram marcados como os mais mórbidos já vividos pela Indy 500. O primeiro deles é 1933, o mais mortífero de toda a história: cinco mortes. Bill Denver e o mecânico de bordo Bob Hurst se foram numa volta de instalação para a tomada classificatória. Mark Billman partiu após chocar contra os muros externo e interno, entre as curvas 1 e 2, na 79ª passagem do páreo. Lester Spengler e o assistente Monk Jordan perderam a vida no giro 132, sendo acertados pelo bólido desgovernado de Malcolm Fox. Em 35, somente duas edições após o trauma, quatro novas baixas aconteceram.

Outra edição a ficar negativamente marcada foi a de 1973, vulgarmente conhecida como “72 Horas de Indianápolis”. Além da insistente chuva, que forçou paralisações e adiamentos ao longo de três dias, o páreo ficou manchado pelos passamentos de Art Pollard (treino livre anterior ao pole day, na curva 1) e Swede Savage (batida radicalizada por uma explosão na quarta perna do traçado, já durante as últimas voltas e o dia derradeiro da saga). Para piorar, quando o Eagle-Offenhouser de Savage começou a pegar fogo, um caminhão antichamas se apressou em entrar na pista andando pela contramão dos boxes (algo permitido à época). Armando Teran, membro do corpo de mecânicos de Graham McRae (ironicamente companheiro de Savage), não viu o veículo vindo e atravessou o caminho no exato momento para ser mortalmente atropelado.

Como se não bastasse, Salt Walther ficou com 40% do corpo queimado quando seu carro explodiu em enrosco que envolveu 12 competidores na largada. As pernas chegaram a ficar expostas enquanto o monoposto repousava no asfalto e o piloto dava sinais de inconsciência. Por muita sorte Walther sobreviveu e até tentou retomar a carreira anos mais tarde, mas nunca mais conseguiu levar uma vida normal por conta das sequelas. Ele faleceu em 2012 levando na bagagem um vasto histórico de problemas psicológicos e comportamento social, incluindo algumas passagens pela prisão.

Também entrou para a história o terrível desastre de Gordon Smiley no classificatório para a Indy 500 de 1982, provavelmente uma das batidas mais chocantes de todo o esporte a motor. Acostumado às competições com carros de turismo em circuitos mistos, o jovem texano bateu de frente contra a mureta porque tentou contraesterçar no momento em que seu March saiu de traseira, algo totalmente condenável num oval. O vídeo abaixo fala por si. A descrição de Steve Olvey, diretor do corpo médico da CART à época, completa o cenário exânime e horrorizante.

Enquanto me aproximava do carro, notei alguns pequenos pedaços de uma estranha substância cinza sobre o chão. Quando cheguei, fiquei chocado ao ver que seu capacete havia se desprendido, junto com o topo de seu crânio. Os fragmentos em questão eram parte do seu cérebro.

Nem campeões escaparam

Não existem imunidades ou privilégios, nem mesmo aos grandes campeões. Qualquer um está sujeito a cair nas armadilhas do quadrioval. Floyd Roberts, por exemplo, vencedor em 1938, foi acertado por um atrapalhado Bob Swansou na volta 109 da edição seguinte, enquanto tentava defender a coroa, na entrada da curva 2. O contato alçou seu carro em direção a uma árvore. Morte instantânea.

Carro de Tony Bettenhausen foi arrastado, de cabeça para baixo, por entre o gradil que separava pista do público
Carro de Tony Bettenhausen foi arrastado, de cabeça para baixo, por entre o gradil que separava pista do público

Bill Vukovich, bicampeão da prova, também foi envolvido em acidente causado por outros competidores na corrida de 55, e ele liderava. Seu bólido decolou depois de acertar a parede e capotou violentamente até cair fora do traçado. Outro gigante, Tony Bettenhausen, dono de dois títulos nacionais da AAA nos anos 50, faleceu sarcasticamente testando o bólido do amigo Paul Russo durante os treinos para a Indy 500 de 61. No meio da reta principal um parafuso de fixação se soltou da haste de suporte do radiador e provocou a torção do eixo dianteiro, o que levou Bettenhausen a perder o controle rumo ao muro letal.

Estes dois últimos parágrafos são a prova definitiva de que as 500 Milhas, um dos desafios mais exigentes do automobilismo mundial, cobra um preço altíssimo de quem tenta encará-la, sem distinguir currículo ou grau de experiência. Muitas vezes, infelizmente, o valor da fatura vem a ser a própria vida. Portanto, apesar de estarmos há quase duas décadas sem fatalidades, é importante não perder o respeito pelos riscos que jamais deixarão de estar intrínsecos ao templo.

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 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.