Esqueça o passado: dupla de 2018 é condizente com realidade da Williams

4

Poucas vezes na F1 recente foram vistas tantas críticas públicas a uma equipe do que aconteceu com a Williams em sua escolha de pilotos para a temporada de 2018. Lance Stroll e Sergey Sirotkin, jovens com pouca badalação e muita grana, certamente deixam de cara amarrada muitos dos fãs nostálgicos do time inglês.

A nomeação da dupla causou discórdia sobretudo por dois fatores: 1 – ela impediu o retorno de um personagem carismático, que representaria uma das histórias de superação mais belas da F1 em décadas; 2 – a Williams, patrimônio sagrado da F1, teve de se render a dois garotos pouco expressivos.

Acompanhe o PROJETO MOTOR na redes sociais: Twitter | Facebook | YouTube

Mas agora a poeira baixou e chegou a hora de encarar os fatos: se chocar pelo chamado “apequenamento” da esquadra de Grove, como se fosse algo sem precedentes, é ignorar tudo o que aconteceu com a equipe nas últimas décadas. Além disso, os sinais mostram que a escolha, por mais controversa que seja, é uma alternativa que indica ambição de crescimento para o futuro.

Williams teve ano apagado com a Judd em 88
Williams teve ano apagado com a Judd em 88

O nome “Williams” ainda carrega toda a bagagem de uma iniciativa movida a paixão e sucesso. Trata-se do time que foi uma das grandes potências dos anos 80 e 90, com direito a nove títulos de construtores, sete de pilotos e mais de uma centena de vitórias no bolso.

Porém, até mesmo em sua era de ouro a equipe de Frank Williams passou por perrengues. Em 1988, ficou vulnerável ao perder os motores Honda e ter recorrer aos Judd, xodó das pequenas; no ano seguinte, ficou com Thierry Boutsen e Riccardo Patrese, que, apesar de serem pilotos respeitáveis, representam um claro contraste em relação à formação estelar de dois anos antes, com Nelson Piquet e Nigel Mansell.

LEIA TAMBÉM: Cinco duplas da Williams que estiveram abaixo de seu potencial

Pode-se colocar também na conta a situação do fim dos anos 90, quando desceu de patamar ao perder, praticamente numa tacada só, Adrian Newey e o apoio oficial da Renault.

2003 foi o último ano de uma Williams potente na F1
2003 foi o último ano de uma Williams potente na F1

Ou seja, mesmo em seus dias de glória, a Williams nunca esteve imune a tropeços. Mas perceba a tendência: os momentos de dificuldades se mostraram breves, já que o time, longevo membro do triunvirato da F1 ao lado de Ferrari e McLaren, apresentava alta capacidade de recuperação.

Ficaram sem o motor Honda? Pouco depois, a Renault entrou a bordo. Os franceses saíram? Não tem problema: a chegada da BMW já estava engatilhada.

E foi na parceria com a empresa alemã que a Williams viveu seus últimos dias como uma real potência, com capacidade de disputar um título, apoio de fábrica e boa saúde financeira. Infelizmente para ela, também foi uma época em que era preciso bater de frente com a máquina ferrarista encabeçada por Michael Schumacher. O título ficou perto, mas nunca se tornou realidade.

O GOLPE DURO

As derrotas sucessivas para a Ferrari provocaram grande tensão com a BMW, que, em 2006, se mandou para a Sauber. O ponto é que, ali, a Williams se viu desamparada depois de muito tempo e teve de lidar com uma F1 diferente à qual estava habituada.

Primeiro, todas as demais fabricantes envolvidas com a categoria (Mercedes, Renault, Toyota e Honda), com as quais, em tese, poderia desenvolver relação fértil técnica e financeiramente, estavam comprometidas com suas próprias equipes oficiais – o que impedia a Williams de liderar um projeto de fábrica.

Williams teve de recorrer ao modesto Cosworth em 2006
Williams teve de recorrer ao modesto Cosworth em 2006

Segundo, o jejum de títulos inédito, paralelo às boas fases de Ferrari, McLaren e Renault, deixou a Williams uma opção menos interessante e a fez perder a importância de antigamente. Terceiro, o time precisou se deparar com o fato de que o método de trabalho da F1 havia evoluído, com estafes encorpados e funções mais bem divididas, enquanto que a própria concentrava sua parte técnica sobretudo em Patrick Head e Sam Michael.

A Williams ficou desatualizada e não percebeu. A recuperação, antes mera questão de tempo, estava bem mais difícil. Dali em diante, a equipe ficou definitivamente longe da ponta, pois o atraso técnico e estrutural em relação à concorrência era maior do que jamais havia sido antes.

A partir de 2006, a Williams iniciou uma peregrinação de parceiras, pulando entre Cosworth, Toyota e Renault sem ficar por mais de três anos com nenhuma delas.

Massa foi pole na Áustria em 2014 (Divulgação)
Ano de 2014 deu falsa impressão de ressurgimento da Williams

E os ciclos eram descontinuados em vários aspectos. Por exemplo, o comando administrativo da equipe chegou a passar pelas mãos de Adam Parr, Toto Wolff, Claire Williams; já o técnico contou, em um curto espaço de tempo, com Sam Michael, Mike Coughlan e Pat Symonds. Tal desordem fazia com que os lapsos de competitividade não passassem disso, já que os ciclos tinham de ser frequentemente reiniciados com a troca de chefia. Não havia a pujança suficiente para dar continuidade ao crescimento.

Em 2014, a mudança no regulamento técnico, a nova parceria com a Mercedes e a repaginada visual com a chegada da Martini deram o último suspiro de potência à Williams, com direito a pódios e até a pole position. Mas durou pouco: uma vez que as mais bem estruturadas Red Bull-Renault e Ferrari pegaram a mão da coisa, novamente a equipe inglesa foi delegada ao segundo plano.

Apesar de tudo, a Williams sempre encontrava uma maneira de ter um bom equilíbrio com seus pilotos. Claro, a equipe que se deu ao luxo de dispensar Alain Prost para contratar Ayrton Senna ficou no passado, mas alguns nomes de destaque tiveram passagem recente por Grove.

Williams trouxe Nakajima em troca de motores gratuitos da Toyota
Williams trouxe Nakajima em troca de motores gratuitos da Toyota

Neste período, a Williams apostava em pilotos com experiência (Rubens Barrichello, Felipe Massa), trazia jovens promissores (Nico Rosberg, Nico Hulkenberg, Valtteri Bottas) ou nomes com motivações comerciais (Kazuki Nakajima, Pastor Maldonado e Lance Stroll) para mesclá-los com outros mais fortes.

Assim, a dupla de 2018 está, em tese, abaixo daquilo com que a Williams estava acostumada, já que não há um nome cuja contratação se justifique por motivos unicamente técnicos. Até agora, Stroll se mostrou demasiado cru e inconsistente, apesar de apresentações animadoras em seu ano de estreia (como em Baku ou Monza). Já Sirotkin, por mais que passe longe do calibre de aventureiros como Alex Yoong e Sean Gelael, também não tem como ser considerado um dos maiores talentos de sua geração pelo que já fez até agora.

O QUE DAVA PARA FAZER?

Entretanto, também tem peso na questão a situação do mercado de pilotos e a posição em que a Williams se encontra no meio de tudo isso. Não é tradição que persuade um piloto, e sim estrutura técnica e condições financeiras – coisas que a Williams, por ora, não tem.

Se não Stroll ou Sirotkin, quais seriam suas possíveis opções para 2018? Bem, sabe-se que a Williams colocou uma oferta na mesa de Fernando Alonso, mas esta acabou prontamente rejeitada – altamente compreensível, pois a McLaren tem perspectivas mais animadoras, e Alonso, a esta altura da carreira, não pode se dar ao luxo de se mudar para uma outra equipe do pelotão intermediário e iniciar um novo projeto.

Sergio Pérez e sua leva de patrocinadores também chegaram a ser objeto de desejo, mas a preferência foi da Force India.

Outras alternativas eram apostas mais arriscadas: manter Felipe Massa, que não conta com apoio financeiro, mas poderia conquistar resultados; trazer Pascal Wehrlein e tentar barganhar descontos na compra do motor Mercedes; ou Robert Kubica, que, mesmo com certa verba, causava dúvidas tanto por suas condições físicas quanto pela atrofia técnica de seus sete anos afastado da F1.

CAINDO NA REAL

Kubica chegou a ser opção viável para a Williams
Kubica chegou a ser opção viável para a Williams

Do ponto de vista puramente técnico, nenhuma das opções é 100% adequada às necessidades da Williams. Massa, mesmo com um bom 2017, não se mostrou capaz de render com o mesmo pico e constância de um Alonso, além de sofrer com a já citada falta de grana.

Wehrlein, apesar de passagens com saldo positivo por Manor e Sauber, também pecou pela inconsistência. E a questão financeira não era animadora. Vale lembrar das negociações para a transferência de Valtteri Bottas em 2017: estima-se que a Williams, que tinha alto poder de barganha na ocasião, conseguiu um desconto de € 11 milhões na compra dos motores para ceder o finlandês. Na situação de Wehrlein, em que a Mercedes não se encontra em posição de necessidade imediata, dificilmente a Williams conseguiria economizar valor semelhante caso acolhesse o jovem alemão.

Sobraram, então, Kubica e sua carteira. Ainda no campo da estimativa (até porque os valores exatos são guardados a sete chaves), o polonês levaria consigo cerca de € 9 milhões, além de bagagem, apetite e a capacidade de atrair holofotes.

Sirotkin levou a melhor na base da grana e do desempenho
Sirotkin levou a melhor na base da grana e do desempenho

Mas foi aí que entrou Sirotkin, que, com um aporte financeiro consideravelmente maior (estimado em € 17 milhões), entrou no páreo. Nos testes de Abu Dhabi, portanto, Kubica teria de render massivamente melhor do que o russo para tentar fazer valer a diferença financeira, e não foi o que aconteceu – a impressão deixada por Sirotkin, inclusive, foi mais animadora.

Diante do cenário, a Williams se pôs em modo de limitação de danos. De fato seria arriscado pensar em ignorar os rublos de Sirotkin para apostar em alguém cujo trunfo seria a performance bruta. O contexto geral pesa: há a expectativa de um crescimento grande de Renault e McLaren, o que deixa a disputa no pelotão intermediário ainda mais ferrenha e complicada. Contar com um retorno financeiro com base em uma provável pontuação, sobretudo sem se tratar de um piloto inteiramente adequado, seria algo longe de trazer garantias.

Além disso, a Williams ainda tem de lidar com suas próprias dores de cabeça financeiras, como a queda da premiação por parte da FOM (de € 70 milhões em 2017 para € 63 milhões em 2018), além da saída dos patrocinadores Randstad e Avanade (estimados € 5 milhões) e o fim do desconto nos motores pela liberação de Bottas no ano passado.

PENSANDO NO FUTURO?

Lowe ainda tem muito trabalho pela frente para reerguer a Williams
Lowe ainda tem muito trabalho pela frente para reerguer a Williams

Agora, ao menos, há uma diferença básica em relação aos outros ciclos malsucedidos da Williams: a possibilidade real de planejamento em longo prazo. Quem encabeça as operações é Paddy Lowe, que, além de supervisor técnico, também ocupa posição de acionista da Williams desde que deixou a Mercedes.

Sua primeira prioridade no cargo é colocar a casa em ordem. Assim, ele reforçou o corpo técnico com as chegadas de Dirk de Beer (chefe aerodinâmico, ex-Ferrari), e Antonio Spagnolo, também com passagem por Maranello e especialista em gerenciamento de pneus. E não deve parar por aí: a intenção do time inevitavelmente deve passar por melhorar operações e agilizar no processo de produção/entrega de peças de atualização, algo que já foi alvo da insatisfação de Massa.

E, para isso, as contribuições de Sirotkin e de Stroll (esta estimada em € 30 milhões, o que já ajudou a modernizar o simulador da Williams) certamente terão grande serventia. Afinal, não deixa de ser sensato ter a garantia da verba de dois pilotos pagantes razoáveis em vez de apostar em resultados de nomes que não eram os ideais para a Williams do ponto de vista técnico – como seria Alonso, por exemplo.

Muitos podem questionar as decisões da Williams, mas elas possuem certa lógica e são condizentes com a atual realidade da equipe. Projetos de ciclo mais curto não trouxeram resultado na última década e meia, então fica claro que o plano é fortalecer as estruturas técnicas pensando nas temporadas futuras.

Assim, quando a F1 alterar seu regulamento técnico e, quem sabe, mexer no vespeiro financeiro, a Williams já se encontrará em situação mais fortalecida para ser imediatamente competitiva.

Não há como evitar a estranheza de ver a Williams, nome relacionado a vitórias, recorrendo a dois pilotos de pouca expressão. Porém, ao analisar os pormenores, as escolhas indicam exatamente o oposto do que a primeira impressão pode passar: a Williams enfim está disposta a tomar alguns sacrifícios para voltar a ser grande.

Plantão Motor repercute a escolha da Williams por Sergey Sirotkin:

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Paulo Mamede

    Excelente análise. Resta torcer…

  • Angelito

    Um ponto importante a ser destacado na atual situação da F1 é a falta de uma fornecedora de motores que não esteja comprometida com a própria equipe de fábrica. Falta um “DFV” para a competição ficar melhor balizada. Assim, não apenas a Williams teria uma chance melhor

    • castilho17

      Talvez para 2021 role algo do tipo..
      o desenvolvimento dos motores é muito caro para alguem aterrissar por la agora.. seria de fato interessante.

  • Leandro Farias

    Vou repetir aqui o que eu disse no Debate Motor. Sirotkin subiu mais maduro. Eu havia esquecido de falar que ele tava testando carros mais modernos desde ano passado ou retrasado, o que representa uma clara vantagem pro Stroll.

    Se vier um pagante melhor que o canadense (que ainda julgo insuficiente, apesar de entender a situação) tanto na pista quanto na carteira, já será mais provável bater a Force India. Se voltarem a garantir o 4º lugar, além de garantir um conforto financeiro já começa a reverter esse declínio em uma nova ascensão.