Quatro Rodas

Esta não é a primeira vez que F1 faz um GP em clima de velório

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Jules Bianchi. Por mais que se tente, nenhum outro nome, nenhum outro tema será tão comentado quanto este ao longo do fim de semana do GP da Hungria. O domínio da Mercedes, a briga pelo título entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg, a situação de Ferrari e Williams, nada disso terá a mesma importância nas entrevistas coletivas, eventos e transmissões de televisão.

Nem deveria: afinal, estamos falando da morte de um dos pilotos mais talentosos da nova safra; do primeiro a sofrer um acidente fatal no meio de uma corrida de F1 desde Ayrton Senna, naquele inesquecivelmente mórbido 1º de maio de 1994. Qualquer menção ou homenagem ao francês serão mais do que merecidas.

Durante o funeral, foi possível ter uma mostra de como estará o clima entre os pilotos em Hungaroring. Em volta do catafalco, as lágrimas copiosas de Felipe Massa e Pastor Maldonado, a expressão taciturna de Sebastian Vettel, o olhar perdido de Lewis Hamilton… Ao fim da cerimônia, o velho e triste ritual de ver pilotos carregando o caixão de um colega de profissão. Definitivamente, o ambiente para a etapa magiar será o mais triste dos últimos anos.

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Não será a primeira vez que a F1 passará por isso. No passado, muitos outros GPs aconteceram em clima de velório. A única exceção a essa regra foi o da França de 1955, cancelado depois da hecatombe ocorrida nas 24 Horas de Le Mans do mesmo ano. Fora isso, os competidores tiveram sempre de se acostumar a engolir as lamentações a seco, sentar no carro e correr como se nada tivesse ocorrido. É o lema “o espetáculo não pode parar” sendo levado às últimas consequências.

Um dos exemplos extremos é o do GP da Espanha de 1968. Disputado no fim de semana de 10 a 12 de maio, o evento no circuito permanente de Jarama, que deveria marcar o retorno do país ibérico ao calendário após 14 anos, serviu mais para expurgar as recentes perdas no mundo do automobilismo: o ainda aprendiz Jackie Stewart rompera os ligamentos dos pulsos em um acidente naquela mesma pista, durante prova de F2; Mike Spence falecera após terrível colisão com um Lotus “turbina” na curva 1 de Indianápolis; o bicampeão Jim Clark também se fora vítima de choque fatal contra as árvores de Hockenheim durante o Troféu Germânico de F2. Havia muito a se lamentar na prova vencida por Graham Hill.

Espectadores embasbacados após fatalidade com Cévert no GP dos EUA de 73
Espectadores embasbacados após fatalidade com Cévert no GP dos EUA de 73

Cinco anos depois, os ases tiveram que lidar com uma perda chocante durante o próprio fim de semana do GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen. Em meio à despedida do já tricampeão Stewart, da disputa pelo título de construtores entre Tyrrell e Lotus, e do embate de Emerson Fittipaldi com François Cévert pelo vice-campeonato, o jovem francês foi vítima de um horrível incidente no trecho dos Esses, em meio ao treino matinal do sábado: ele bateu de cabeça para baixo contra os guard-rails e foi decapitado.

Em vez de se aposentar oferecedo um último espetáculo ao público, Stewart abandonou a carreira com uma decisão sábia: abdicou de correr em respeito ao colega. A Tyrrell o acompanhou na decisão e se retirou totalmente da prova, que transcorreu sem qualquer ânimo até a vitória de Ronnie Peterson.

Pilotos largam para GP da Bélgica de 82 um dia após morte de Villeneuve
Pilotos largam para GP da Bélgica de 82 um dia após morte de Villeneuve

Em 1982, o GP da Bélgica foi marcado pela trágica morte de Gilles Villeneuve, ocorrida no final da segunda sessão classificatória em Zolder. Como autorizar a largada naquelas condições? Difícil saber. O fato é que a prova foi realizada, e ainda teve um sopro de emoção no final: Keke Rosberg, que se encaminhava para a primeira vitória na carreira, errou na última volta e perdeu a liderança para John Watson. O pódio foi meramente protocolar, sem sorrisos e muito menos estouro de champanhe.

Passadas quatro estações, também em solo belga, porém no templo de Spa-Francorchamps, o circo da F1 ainda digeria o falecimento do fidalgo Elio de Angelis, detentor de dois triunfos na categoria, em meio ao páreo vencido por Nigel Mansell. O italiano morrera dez dias antes, enquanto participava de um teste privado com a Brabham em Paul Ricard: o aerofólio traseiro caiu sozinho no meio da reta, levando-o a perder o controle em alta velocidade e bater contra o muro. O impacto fez o BT55 pegar fogo e, devido à falta de fiscais para ajudá-lo, De Angelis ficou preso ao bólido e sucumbiu às chamas. Até houve espaço para um tímido festejo no pódio, mas o clima era claramente de luto.

Mansell, Senna e Johansson no pódio de Spa/86: sem motivos para sorrir
Mansell, Senna e Johansson no pódio de Spa/86: sem motivos para sorrir

O GP de Mônaco de 1994 foi o primeiro a ser realizado depois do traumático fim de semana em Ímola, que vitimou Senna e também o austríaco Roland

Homenagem a Senna e Ratzenberger no grid do GP de Mônaco de 94
Homenagem a Senna e Ratzenberger no grid do GP de Mônaco de 94

Ratzenberger. O momento era especialmente emblemático: seria a primeira corrida no Principado sem a presença de seu maior vencedor. Para homenagear os novos mártires, a organização da etapa reservou os dois primeiros postos no grid ao brasileiro e ao austríaco, e os pilotos ainda protagonizaram um minuto de silêncio em volta dos colchetes. A situação ficou ainda pior quando Karl Wendlinger bateu muito forte na saída do túnel, durante um dos treinos, e foi hospitalizado em estado de coma.

Ferrari de luto pelo 11 de setembro no GP da Itália de 2001
Ferrari de luto pelo 11 de setembro no GP da Itália de 2001

Por fim, uma tragédia que nada tinha a ver com o esporte a motor, o famoso “11 de setembro”, deixou um gosto amargo na boca de todos que participaram do GP da Itália de 2001, marcado para a mesma semana. A Ferrari foi ao extremo naquela oportunidade: tirou todos os decalques de patrocínio e inseriu bicos negros na F2001, em sinal de luto. Abalado, o recém-consagrado tetracampeão Michael Schumacher chegou a prever que “algo muito ruim iria acontecer” ao longo do evento, e pediu cautela aos demais volantes. Ele mesmo teve uma atuação bem apagada para seus padrões, e a vitória ficou com Juan Pablo Montoya, sua primeira na F1. Curiosamente, de todo o pelotão era o colombiano quem tinha a carreira ligada mais fortemente ao automobilismo americano.

Debate Motor #5 analisa morte de Bianchi e seus desdobramentos na F1:

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.