Seria a Red Bull a Benetton dos tempos modernos?

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É curioso observar como as coisas podem mudar na F1 em um curto período de tempo. A equipe Red Bull, que muito recentemente enfileirou uma sequência de quatro títulos consecutivos com sua funcionalidade operacional beirando a perfeição, vive em 2015 um momento que poderá mudar de vez seus rumos.

A história da F1 mostra que todo projeto verdadeiramente bem sucedido só o é por uma série de fatores, que, quando bem encaixados, permitem a um determinado time estabelecer novos parâmetros de eficiência. Obviamente, com a Red Bull não foi diferente, e algumas peças deste quebra-cabeças passam por momento de transição.

Os quatro anos de domínio entre 2010 e 2013 se sustentaram em alguns pilares, elencados a seguir não necessariamente em ordem de importância: operação humana impecável, a sinergia com a parceira técnica Renault, um projetista de astúcia ímpar em Adrian Newey e um piloto fora de série, Sebastian Vettel.

Ricciardo fez belas corridas, mas ainda precisa provar que é um piloto de ponta. Foto: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images/
Ricciardo ainda precisa provar que é um piloto de ponta. Foto: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

Destes, Vettel debandou para a Ferrari e deixou o time nas mãos de Daniel Ricciardo, um piloto que fez campanha brilhante em 2014, inclusive superando o alemão. No entanto, só a consistência ao longo dos próximos anos provará se o sorridente australiano é mesmo um piloto de ponta, ou se a temporada passada foi um ponto fora da curva. Já Newey é figura cada vez menos presente nas funções em Milton Keynes, tendo anunciado também na temporada passada que se afastaria do dia a dia do time.

Porém, a ruptura mais controversa e comentada é com a fornecedora de motores e parceira técnica Renault. A relação, que vinha às mil maravilhas com os títulos movidos pelos propulsores V8, foi colocada à prova desde a introdução das unidades de potência híbridas V6 turbo, em 2014. Nas primeiras corridas de 2015, quando se esperava um salto de qualidade desde Viry-Châtillon, a situação saiu do controle com diversas quebras embaraçosas e um atraso ainda maior em relação a Mercedes e Ferrari.

Com equipe própria na F1 desde 2005, Red Bull venceu mais de um quarto das corridas que disputou (50 de 190)

A F1 é um esporte que, por natureza, busca sempre olhar para o futuro. Muitas vezes, contudo, os episódios do presente possuem paralelos no passado, dos quais é possível tirar lições. A Red Bull passa por momento chave para definir se o seu destino será o retorno aos tempos de glória ou o declínio visto com a Benetton nos anos 90.

O time liderado por Flavio Briatore foi um verdadeiro “matador de gigantes” e chegou a um status de potência, algo que parecia inimaginável poucos anos antes. Isso só foi possível ao aliar a competência de Michael Schumacher, do projetista Rory Byrne, da mente brilhante de Ross Brawn e de Pat Symonds.

1995 foi o último ano de glória de Benetton. Foto: Benetton
1995 foi o último ano de glória de Benetton. Foto: Benetton

Mas, assim que as peças importantes para o sucesso começaram a debandar uma a uma, o time falhou em buscar reposições à altura. Schumacher, Byrne e Brawn foram de mala e cuia para a Ferrari, o que causou rombos irreparáveis no corpo técnico. O fraco poder de reação também foi visto quando a Renault deixou a F1 e a equipe se contentou em manter os antigos motores franceses, somente atualizando-os sob o nome de Playlife. Como resultado, a Benetton se tornou uma equipe do segundo pelotão, apenas beliscando alguns pódios até seu fim, ao término da temporada de 2001.

Em momentos chave em sua trajetória, a Benetton se conformou com seu destino e aceitou de braços abertos o retorno ao bloco intermediário. E é justamente neste tipo de armadilha que a Red Bull luta com forças para não cair.

Depois da saída de Schumacher, Benetton venceu somente mais uma vez, na Alemanha-1997, com Gerhard Berger

Diante de um possível (ou iminente) rompimento com a Renault, a equipe chegou a condicionar sua permanência na F1 com o acordo com outra potência do ramo automotivo, a Audi – o que parece que não vai acontecer tão já. O porém é que isso, diante do complexo desafio técnico do atual regulamento, poderia resultar em um cenário semelhante ao atualmente vivido pela McLaren com a Honda – ou seja, um período de pesadelos e vexames, algo ao qual o time, presente na F1 sobretudo para promover comercialmente a marca e o descolado “estilo de vida Red Bull”, dificilmente aceitará se submeter.

Newey foi figura fundamental para títulos da Red Bull. Foto: Paul Gilham/Getty Images
Newey foi figura fundamental para títulos da Red Bull. Foto: Paul Gilham/Getty Images

De qualquer forma, a Red Bull já pode se orgulhar por ter feito história. A empresa entrou na F1 com discrição e em pouco tempo emplacou um dos mais categóricos domínios já vistos – e, como cereja do bolo, com um piloto formado por ela própria. Entretanto, domínios na F1 são sucedidos por períodos de vacas magras, e empresas multimilionárias que não têm o automobilismo como a natureza principal de seu negócio somente insistem em investir na F1 quando há algum tipo de retorno financeiro com isso.

Há quem garanta que a empresa já considere mudar seu foco para as corridas de longa duração, especialmente as 24 Horas de Le Mans, o que seria um desafio revigorante em termos de marketing e daria a Newey a motivação para continuar projetando carros de corrida. Seja quais decisões tomar, a Red Bull passa por um momento crucial, e a temporada de 2015, dentro e fora das pistas, será o primeiro passo para ver se haverá mais capítulos de glória ou se sua história está chegando ao fim.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Gustavo Segamarchi

    Bruno,

    Concordo com o seu comentário. A Renault tem contrato com a Red Bull até o final de 2016 e a Audi contratou o Stefano Domenicali que era o chefe de equipe da Ferrari.

    Se a Audi o contratou é porque algum interesse de ingressar na F1 ela tem. Eu acredito que é através da Red Bull que a Audi pode começar o seu legado na categoria e então a Renault se quiser continuar com a empreitada terá que voltar a ter a sua equipe de fábrica, o que seria muito bom.

    Recentemente, o Helmut Marko, fez uma declaração dizendo que se a Audi não entrasse na F1, a Red Bull iria abandonar a categoria e focar em outras competições do esporte a motor. O consultor taurino ressaltou, que, a Audi era a única fornecedora capaz de oferecer uma unidade de potência competitiva, então, 2017, promete.

    O site é muito bom, gostei bastante. Desejo vida longa ao projetomotor.com.br.

  • Gustavo Segamarchi

    O problema da Red Bull Racing está na unidade de potência híbrida fabricada pela Renault. Na era dos motores V8, o princípio e estrutura do motor era praticamente o mesmo dos motores V10, então a Renault já tinha um grande conhecimento na área dos motores aspirados. A tecnologia atual é híbrida, é uma outra estrutura de motor.

    Há rumores de que a Mercedes começou a trabalhar no projeto dos motores V6 turbo híbridos desde 2011 e a Renault começou o desenvolvimento mais tarde, por isso, então a Renault está com esse déficit de potência em sua unidade de força. Quem não lembra dos motores bi-turbo da Lotus Renault JPS do Ayrton Senna em 85 e 86, foram grandes motores da F1. A Renault tem capacidade de voltar a ter sucesso, sim.

    • Bruno Ferreira

      Gustavo,

      Concordo contigo quanto à capacidade da Renault, mas existem alguns fatores nesta história toda que me fazem duvidar que isso vai acontecer:

      – Desde o início do desenvolvimento dos V6 turbo, a Renault investiu uma verba menor do que suas principais concorrentes. E eles não me parecem muito dispostos a compensar esse déficit financeiro agora, quando é preciso desenvolver essa unidade de potência ainda mais para alcançar Ferrari e Mercedes;

      – Mesmo que a Renault invista, o desenvolvimento do propulsor pode levar tempo. Não acredito que a relação com a Red Bull sobreviverá este tempo todo, já que o desgaste é visível e cada vez maior;

      – Existe um outro fator também que não possui relação com o motor, mas também entra na equação: não vejo o chassi da Red Bull forte como no passado, principalmente analisando o desempenho do time contra a Toro Rosso. Adrian Newey é gênio, mas já pecou no passado por excesso de arrojo e também já fez carros ruins, como alguns em sua fase final na McLaren. Acho que o RB11 não foi seu trabalho mais brilhante.

      Muito obrigado pela leitura e participação!

      Abraços