Excesso de acidentes pode fazer Indy sacrificar espetáculo em nome da segurança

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Por Roberto Fideli

À luz dos recentes acidentes nos ovais de Indianápolis e Fontana na temporada 2015 da Indy, novos debates sobre a segurança da categoria emergiram com força. Mas as discussões a respeito das mudanças que devem ser feitas esbarram em conceitos mais complexos do que se imagina.

Mudanças no esporte a motor costumam vir depois de tragédias. Foi assim quando Greg Moore morreu na prova da Indy em Fontana, em 1999, o que obrigou os dirigentes do autódromo californiano a pavimentarem o setor em que o canadense derrapou anteriormente composto por grama.

Os acidentes graves e a morte de Tony Renna em 2003 obrigaram a Indy a rever determinados conceitos aerodinâmicos e introduzir o “soft wall” ou “safer barrier”, que permite a dispersão energética das batidas em ovais. E, por fim, após a morte de Dan Wheldon em Las Vegas, no ano de 2011, a categoria introduziu o novo chassi DW12. A mudança já era planejada, mas a Indy desistiu de realizar corridas com mais de 30 carros em ovais intermediários depois do acidente.

Diante desse retrospecto e dos recentes acontecimentos na temporada 2015 da Indy, é de se esperar, infelizmente, que novas mudanças sejam introduzidas somente depois de um acidente verdadeiramente grave e que possa resultar na morte de um piloto.

Morte de Tony Renna em 2003 levou a Indy a introduzir o "soft wall" (Divulgação)
Morte de Tony Renna em 2003 levou a Indy a introduzir o “soft wall” (Divulgação)

As mudanças na categoria depois de 2011

A introdução do DW12 significou três coisas: primeiro, os carros se tornaram muito mais feios. Segundo, a Indy barateou consideravelmente seus custos por temporada e, terceiro, os carros ficaram com maior arrasto aerodinâmico, mas também se tornaram menos turbulentos em momentos de ultrapassagens, principalmente em ovais rápidos como Indianápolis.

O que se viu foram corridas espetaculares no oval de 2,5 milhas que, nas quatro últimas edições, presenciou recordes em números de ultrapassagem e provas genuinamente emocionantes, principalmente em 2014 e 2015. Mas, antes disso, de 2012 a 2014, alguns dos mesmos problemas persistiram.

Principalmente a ausência de outros fabricantes de chassi, como havia nos anos 1990, quando Reynard, Lola e Swift disputavam os campeonatos – isso ocorreu até 2003 –, e durante o começo dos anos 2000, quando Dallara e G-Force rivalizavam.

Com a reintrodução da Chevrolet à categoria e os novos pacotes aerodinâmicos desenvolvidos por Chevy e Honda em 2015, o que aconteceu foram dois problemas graves na atual temporada: a propensão dos carros a decolar quando ficam de traseira em altas velocidades e a proximidade que eles têm uns do outros em corridas realizadas em superovais, como Fontana.

Os problemas na atual temporada

Depois que quatro carros – todos da Chevrolet – decolaram em treinos das 500 Milhas, e do acidente do australiano Ryan Briscoe (veja no vídeo abaixo) no oval de Fontana, no dia 27 de junho, a Indy recebeu duras críticas dos pilotos – principalmente de Montoya e Will Power, que criticaram a proximidade dos carros na prova da Califórnia.

Mas talvez o comentário mais interessante para essas discussões tenha sido feito pelo americano Ed Carpenter, ao argumentar que o esporte a motor – principalmente o monoposto – é perigoso e que todo piloto deve estar de acordo com esse risco antes de colocar os pés dentro de um carro em ir para a pista.

Montoya e Power, ao contrário, argumentaram que a segurança dos pilotos, fiscais, mecânicos e espectadores é mais importante do que o espetáculo e relembraram o acidente de Dan Wheldon em 2011.

De qualquer forma, o que ocorreu em 2011 foi exatamente o que está acontecendo em 2015. No oval de Las Vegas, os carros andaram muito próximos uns dos outros, proporcionando um acidente que envolveu 15 veículos, semelhantemente ao que acontece nos superovais da Nascar. A mesma coisa aconteceu em Fontana, este ano.

Por causa de acidente em Fontana, Hinchcliffe ficará ausente do resto da temporada (Shawn Gritzmacher/IndyCar)
Por causa de acidente em Indianápolis, Hinchcliffe ficará ausente do resto da temporada (Shawn Gritzmacher/IndyCar)

O ângulo do impacto foi o que matou Dan Wheldon em 2011, e foi o que salvou Briscoe e James Hinchcliffe em 2015 – embora o canadense tenha se ferido e se ausentado do restante da temporada. Não obstante, caso a Indy não tivesse realizado uma prova em prol do espetáculo com 34 carros em uma pista de somente 2,4 quilômetros em 2011, Wheldon poderia não ter falecido.

Outras decisões da entidade são estranhamente contraditórias, como abolir corridas no oval de Michigan, mas não em seu irmão gêmeo, Fontana, conhecido por velocidades astronômicas como, por exemplo, as de Gil de Ferran em 2000, que fez uma volta com média de 388 km/h.

Mudanças nos pacotes aerodinâmicos devem ser suficientes para evitar acidentes como os de Hinchcliffe e Briscoe no restante de 2015 e nas próximas temporadas. No entanto, o que talvez seja mais complexo é a revisão de um conceito: como Ed Carpenter mesmo disse, corridas de monopostos são e sempre foram perigosas. Mas o espetáculo realmente é mais importante do que a segurança dos pilotos?

Os recentes acidentes, somados à morte de Jules Bianchi que ficou em coma por nove meses após um acidente no GP de Suzuka na F1, em outubro passado, recolocam em pauta as questões de segurança que envolvem categorias de monopostos. Com a morte de Bianchi, a mídia e os fãs cobraram pronunciamentos à entidade e aos seus pilotos, o que coloca ainda mais pressão na Indy.

Com uma das temporadas mais emocionantes e perigosas de sua história, a principal categoria de monopostos da América talvez seja forçada a sacrificar um elemento em detrimento do outro. Mas essa decisão, certa ou errada, pode vir tarde demais.

Roberto Fideli é paulistano formado em jornalismo pela Casper Líbero e fã de automobilismo desde criança. Cobriu Nascar e Indy para o site do canal Fox Sports em 2012 e 2013. É fã dos pilotos Jimmie Johnson, Dario Franchitti e Juan Pablo Montoya. Também trabalhou como editor, revisor, redator e assessor.

Debate Motor #5 analisa morte de Bianchi e seus desdobramentos na F1:

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