F1 70 anos: como nasceu uma das competições mais importantes do esporte

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Em 13 de maio de 1950, aconteceu em Silverstone, na Inglaterra, a primeira etapa do Campeonato Mundial de Pilotos, conhecido também como F1. O momento marcou um momento importante para o automobilismo em geral e fez nascer o que seria uma das competições mais importantes do mundo, seja qual for o esporte.

Entre altos e baixos, a F1 assim celebra seus 70 anos em um momento difícil em que uma pandemia impede que seus carros estejam na pista. A categoria vive momento de incertezas sobre o impacto financeiro que esta crise do novo coronavírus pode causar. Se já não bastasse, seus dirigentes ainda precisam lidar com uma questão ainda maior que é a relação do ser humano com o carro como um todo, as novas tecnologias mais limpas e o interesse em torno do automobilismo pelas novas gerações.

Não é uma tarefa exatamente fácil, e certamente o cenário mais difícil que a F1 já enfrentou. Por outro lado, é incontestável que o campeonato já encarou outras situações bastante complexas durante sua história, e mesmo assim, nunca deixou de crescer. O seu próprio nascimento, aliás, foi em meio a uma reconstrução enorme pela qual o mundo, e especialmente a Europa, passava no período pós-II Guerra, ao final da década de 40.

O mais interessante é que a F1 mesmo nasceu antes do chamado Campeonato Mundial de Pilotos. Ela foi base para a competição, mas por conta dos altos custos chegou a ser colocada de lado quando, em 1952 e 53, substituída pela F2 na competição. Exatamente, os carros daquelas duas temporadas, que valem para a história da F1, eram na verdade F2. Vale aqui uma compreensão mais profunda sobre esse começo.

A semente da F1

Durante a década de 30, Campeonato Europeu de Pilotos foi uma primeira iniciativa de contar pontos e eleger um campeão para o nome que destacasse nos principais Grande Prêmios da temporada. Na época, já existiam algumas regras gerais para o automobilismo nestas provas mais importantes, sendo praticamente todas em relação a restrições de motores. As corridas válidas neste certame eram apenas na Europa, porém, muitos competidores da época, patrocinados pelas equipes de fábrica de algumas montadoras, já competiam em outros lugares do mundo.

Sendo assim, começou-se um movimento de um campeonato mundial padronizando as regras. Com a explosão da II Grande Guerra, não só a ideia foi engavetada por um tempo como praticamente todos os principais GPs e campeonatos da época deixaram de acontecer.

O automobilismo começou sua retomada apenas em 1946, e a FIA, através do seu braço esportivo da época, a CSI (Comissão Esportiva Internacional), que mais tarde seria tornaria a FISA, resolveu voltar com a ideia da elaboração de um grande regulamento para as provas mais importantes.

Esta lista de regras recebeu o nome de “Fórmula A”, e se baseava nas utilizadas nos principais eventos da década de 30: limitava a briga entre os motores de 4,5 litros contra e os de 1,5 litro supercharged. Os carros equipados com propulsores de 3 litros supercharged, que também competiam no período pré-Guerra, foram banidos. A primeira corrida sob essas novas regras oficializadas, o que pode ser considerada a estreia da F1, aconteceu em 1º de setembro de 1946, no GP de Turim, na Itália, vencido por Achille Varzi com uma Alfa Romeo 158.

GP de Turim de 1946 foi o primeiro sobre as regras da Fórmula A, futuramente conhecida como F1

Os Grande Prêmios continuaram a ser realizados sob esta organização, mas sem um campeonato contando pontos. Para se ter ideia, os principais pilotos e equipes chegavam a participar de cerca de 20 corridas por temporada na Europa e fora.

Também foi estipulado que o antigo regulamento de “Voiturette” (carrinhos, em francês) seria denominado de Fórmula B. Tanto esse conjunto de regras como a Fórmula A também eram chamadas entre os competidores de F1 e F2. A denominação só foi oficialmente mudada quando a FIA decidiu criar a F3, em 1950, com motores limitados a 500cc. Assim, a escada oficial ficou com as nomenclaturas de F1, F2 e F3 definitivamente.

Em 1949, foi criado pela Federação Internacional de Motociclismo (FIM) o Campeonato Mundial de Motovelocidade. E a ação criou uma reação rápida da FIA, que também resolveu criar o seu Campeonato Mundial, adotando as regras até então conhecidas como “F1”.

O começo oficial

Os detalhes para o novo “Campeonato Mundial de Pilotos” foram costurados durante os primeiros meses de 1950. O regulamento da F1 foi confirmado e teve como mudança mais importante apenas a diminuição da distância mínima dos GPs de 500 para 300 km. Essa alteração foi importante porque permitiu o retorno do GP de Mônaco ao calendário da F1.

Dos mais dos 20 GPs que seguiam o regulamento, apenas seis entraram para o campeonato, valendo pontos: Grã-Bretanha (Silverstone), Mônaco, Suíça (Bremgarten), Bélgica (Spa-Francorchamps), França (Reims) e Itália (Monza). Ainda foram incluídas no calendário oficial as 500 Milhas de Indianápolis, mesmo prova não seguir as regras da F1, mas questões políticas, já que a ideia era fazer um Mundial e os Estados Unidos eram vistos como lugar estratégico.

Antes da corrida de Silverstone, no entanto, a CSI achou que seria interessante fazer uma prova de teste de todo esquema do campeonato. Assim, aconteceu o que pode ser considerada a segunda data supostamente de estreia da F1 (a primeira, como já citada, teria sido o GP de Turim de 1946) com o GP de Pau, na França, em 10 de abril de 1950. A corrida ganhou o nome oficial de prova “F1 Internacional” e foi vencida por Juan Manuel Fangio, de Maserati.

Com tudo certo para começar para valer, 25 pilotos foram inscritos para a primeira etapa do Campeonato Mundial de Pilotos, em Silverstone, marcada par 13 de maio de 1950, o que hoje é considerado oficialmente a inauguração da F1. A Alfa Romeo foi para a Inglaterra com uma equipe formada por quatro pilotos de fábrica e fez o pódio completo com Nino Farina, Luigi Fagioli e Reg Parnell, respectivamente.

Farina venceu a primeira corrida válida pelo Campeonato Mundial sob regras F1
Farina venceu a primeira corrida válida pelo Campeonato Mundial sob regras F1

A estrada, no entanto, seria tortuosa. Para os anos de 1952 e 52, pela falta de inscritos para a competição, os organizadores tiveram que deixar de lado o regulamento da F1 e adotaram para o Campeonato as regras da F2, mais barata.

A questão foi finalmente resolvida para 1954, com uma revisão da F1, encontrando um meio termo que também empolgasse as montadoras. Assim, foram adotados motores de 2,5 litros aspirados. Em 1958, uma nova evolução importante: a formação do Campeonato Mundial de Construtores da F1.

A partir deste momento, a F1 nunca mais desacelerou, passando por crises financeiras que assustaram as marcas automotivas e ficando praticamente apenas com equipes privadas, crises internacionais de petróleo e diversas brigas políticas internas, que quase racharam o campeonato.

Mesmo assim, a categoria se tornou uma competição global, com corridas em quatro continentes diferentes (já passou pelos cinco), competidores das mais diversas nacionalidades e um calendário anual organizado e transmissão ao vivo para quase todo planeta. Além disso, financeiramente se tornou uma potência. A aquisição feita pelo Grupo Liberty, em 2017, chegou ao valor de U$ 8 bilhões. Os organizadores dos GPs, para receber a F1, desembolsam taxas entre U$ 25 milhões e U$ 70 milhões.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.