F1 dá chance rara e tardia a Hartley quando ele já havia desistido dela

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A Toro Rosso solucionou seu quebra-cabeças ao escalar Brendon Hartley no cockpit vago ao lado de Daniil Kvyat no GP dos Estados Unidos de 2017.

Tratava-se de um “pepino” que a equipe tinha nas mãos, já que o programa de pilotos da Red Bull, tradicionalmente fértil em revelar talentos em abundância, passa por momento de entressafra – isso foi tema do Debate Motor #96, posicionado ao fim deste post.

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Assim, para substituir Pierre Gasly, que disputará a decisão da Super Fórmula japonesa no mesmo fim de semana, a Toro Rosso promoverá a estreia deste neozelandês de 27 anos, o primeiro representante de seu país na categoria desde 1984.

“Essa oportunidade veio de surpresa, mas eu nunca desisti de minha ambição e de meu sonho de infância de chegar à F1. Eu amadureci e aprendi muito desde que eu era piloto reserva da Red Bull e da Toro Rosso”, comemorou Hartley

Mas não nos deixemos enganar pelo discurso: na prática, Hartley já havia, sim, desistido da F1. Ele foi obrigado a isso, assim como acontece com todos os jovens talentos que não sobrevivem ao implacável funil rumo ao topo da pirâmide do automobilismo.

Hartley esperava receber essa chance em 2009 (Getty Images)
Hartley esperava receber essa chance em 2009 (Getty Images)

Hartley teve, na verdade, de repensar toda sua carreira, construída até então com o único objetivo de chegar à F1. Em 2006, se juntou ao programa de pilotos da Red Bull, e, sob as asas da marca de bebidas energéticas, passou por F-Renault Europeia (campeão em 2007), F3 Inglesa e Europeia, F-Renault 3.5 e GP2. Neste período, também havia assumido o posto de reserva da Red Bull e Toro Rosso, inclusive com testes esporádicos por ambas.

Contudo, ele acabou cortado de forma sumária do programa, ainda com a temporada de 2010 em andamento. Perdeu, de uma só vez, o apadrinhamento da Red Bull e a vaga na F-Renault 3.5.

Hartley chegou até a testar pela Mercedes
Hartley chegou até a testar pela Mercedes

Dali para frente, o trabalho foi reconstruir sua carreira. Disputou provas no cenário do endurance europeu, e, paralelamente, realizou testes pela Mercedes na F1. Mas o grande passo veio em 2014, quando se aliou ao programa de LMP1 da Porsche no WEC.

Nas corridas de longa duração, voltou a contar com o apoio de patrocínio da Red Bull e desenvolveu uma relação sólida com (vejam só!) Mark Webber, que acabara de deixar a F1. A consagração veio em 2015, com o título mundial, mas 2017 pode ser ainda melhor: ele já venceu as 24 Horas de Le Mans e pode completar a festa com um novo título. Neste contexto, a estreia na F1 acaba por ser a cereja do bolo.

Conveniente para a equipe, conveniente para o piloto

Time júnior da Red Bull em 2010: apenas um ainda não havia estreado na F1... (GEPA Pictures)
Time júnior da Red Bull em 2010: apenas um ainda não havia estreado na F1… (GEPA Pictures)

A escolha por Hartley faz sentido para todas as partes. A começar, óbvio, para o próprio piloto, que enfim alinhará em um grid da F1 depois de anos de estrada. Por mais que um competidor se consolide em uma outra categoria de destaque, você pode ter certeza que ninguém rejeitaria a oportunidade de guiar no certame mais importante.

E, diante das reduzidas opções minimamente realistas para a Toro Rosso, Hartley era um dos poucos que uniam vários pré-requisitos: é habilidoso, tem experiência em competições de destaque, estava com agenda livre, possui a superlicença e conhece todos os atalhos do circuito de Austin – ele guiou mais recentemente por lá em setembro, pelo WEC.

Hartley WEC
(Red Bull Content Pool)

Há também o sempre importante fator promocional. Hartley não é um superastro das pistas, mas é um nome respeitado no ramo das corridas de longa duração. Sua chegada à F1 atiçará a curiosidade de quem gosta de ver um crossover entre as grandes categorias do planeta – Sébastien Buemi, por exemplo, talvez não causaria o mesmo burburinho por já ter tido passagem longa pela F1.

Neste ponto, Hartley cria um paralelo curioso com seu hoje colega de Porsche Andre Lotterer, que, há três anos, também fez uma surpreendente aparição excepcional na F1 pela Caterham.

E, se o destino deu todas essas voltas para enfim colocar o neozelandês na F1, quem vai duvidar do que pode acontecer de agora em diante? Trata-se de um momento de estranheza para a categoria, com escassez de pilotos de qualidade com faixa etária suficientemente madura. É só ver o que acontece com a Williams, que busca um representante acima dos 25 anos e tem de recorrer a nomes que estavam esquecidos do noticiário.

Hartley vive momento de indefinição em sua carreira, já que a Porsche encerrará seu programa na LMP1 em questão de meses. O cockpit da Chip Ganassi na Indy pintava como sua melhor opção, mas, mesmo assim, a chance na F1 não poderia ter vindo em melhor hora. Lembre-se de que, para 2018, a Toro Rosso pode se ver sem saída e ficar com Daniil Kvyat, um piloto que claramente não representa a opção número um. Nisso, Hartley pode crescer e ganhar espaço. Curiosamente, o cenário está mais aberto para o neozelandês do que esteve em seus dias no Red Bull Junior Team.

Se a chance rara se transformará em algo definitivo, isso foge das mãos de Hartley. Há vários fatores envolvidos que não estão em seu controle. De qualquer forma, a oportunidade vai lhe render, na pior das hipóteses, a realização de um sonho de infância – objetivo alcançado por poucos e que tem valor imensurável, mesmo que isso tenha demorado quase uma década para se materializar.

 

Debate Motor #96: O que esperar da Red Bull após seca em seu programa?

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Leandro Farias

    A diferença entre Lotterer e Hartley se traduz por duas palavras: sorte e política.

    O alemão não podia fazer muita coisa em uma Caterham que fecharia as portas no fim do ano, e entrou na era Ecclestone: o magnata inglês colocava a categoria numa bolha que só sufocava e não dava chance a gente de fora que poderia agregar.

    Já o kiwi entrou em uma Toro Rosso que não tem carro de última fila, e em uma F1 bem mais aberta com Chase Carey.

    • A situação de Lotterer e Hartley é diferente, sim. O paralelo é que ambos desencanaram na F1, se consolidaram no endurance e, surpreendentemente, tiveram uma única chance de F1 quando ninguém esperava – nem eles mesmos.

      Agora, eu sinceramente não vejo influência alguma do Chase Carey nessa chegada do Hartley. A Red Bull podia colocar quem ela quisesse na vaga, e ela optou por pegar um piloto que já estava sob suas asas – prática que ela faz desde que chegou à F1. Haveria alguns nomes mais comerciais, que trariam maior visibilidade e que seriam mais interessantes para a própria F1, mas a Red Bull fez sua escolha.

      Neste quesito, inclusive, a F1 tem se fechado mais, já que, agora, há uma exigência maior para a obtenção de superlicença que bloqueou outros nomes em potencial.

    • Cassio Maffessoni

      Concordo em partes contigo Leandro, porém a escassez de boas equipes, pilotos e fornecedores de motores ainda demorará pra se extirpar por completo, lembre-se que o Bernie não está mais lá, mas ainda há vários fãs da categoria que tem o mesmo pensamento retrógrado dele e ficam enchendo a paciência com esse negócio de “Cada um no seu quadrado”.

      Querendo ou não esse tipo de rejeição afasta equipes e pilotos de ponta de outras categorias e também montadoras que tenham opiniões divergentes das do Bernie e das desses fãs que ele acostumou com esse discurso besta (As marcas do Grupo Volkswagen e a Volvo que o digam), é louvável que tenhamos a chance de nos livrar do Palmer, do Kvyat e do Ericsson praticamente de uma só vez e de equipes inúteis como a Manor, a Hispania e a Caterham, mas infelizmente não vejo nada muito diferente disso a curto prazo.

      É muito mais fácil ver uma “Lazarus GP Venezuela-Cosworth” da vida sendo pilotada por um Gutierrez ou uma Carmen Jordá do que por exemplo, um “Penske-Audi” com o Scott McLaughlin ou o Sébastien Ogier de pilotos. O cenário é bem mais restritivo do que era na década de 1970 onde realmente era “Uma reunião dos melhores de todas as outras categorias pra ver quem é o manda chuva do pedaço”.