F1 eSports Series: categoria acerta ao organizar um campeonato virtual?

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Foi em agosto deste ano, às vésperas do lançamento de seu novo título F1 2017, da Codemasters, que a categoria máxima do automobilismo espantou o público com algo que há muito se esperava, mas pouco se tinha esperanças: o F1 eSports Series, campeonato oficial e definitivo disputado virtualmente sob a chancela da própria entidade.

O anúncio foi emblemático: “A F1, o pináculo do esporte a motor, anunciou hoje a entrada na arena dos eSports”, dizia a chamada. “A competição verá fãs e gamers de todo mundo disputando para revelar o melhor piloto virtual de F1 e será coroado como Campeão Mundial do Formula 1 eSports Series”, concluiu o que para alguns seria marketing pretensioso, mas que, em se tratando de F1, é uma realidade possível.

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A primeira edição empolgou: mais de 60 mil inscritos passaram por fases classificatórias até sobrarem 40. Estes participaram das rodadas semifinais em setembro com baterias nos traçados de Silverstone e Interlagos. A grande final acontecerá no fim de semana do GP de Abu Dhabi, encerramento da temporada real. Reunirá 20 nomes, e todos terão de enfrentar provas nos “circuitos” de Montréal, Spa-Francorchamps e Yas Marina até a definição do grande campeão. Confira o que rolou nas semis:

Em cima da hora? Melhor ainda

O que poderia parecer uma ação de última hora acabou se tornando ponto positivo. Diferentemente do automobilismo, nos campeonatos virtuais um competidor pode treinar quantas horas por dia quiser (e puder), e um prazo muito longo sempre acaba elevando a competitividade a níveis extremos, onde só o mais “viciado” conseguiria lidar com uma carga de dedicação.

Não, este autor não acredita em talento nem em dom, mas sim em treino sobre como operar uma máquina, que é do que o automobilismo se trata em sua forma mais crua. Mesmo em algumas competições menores, como estas que vemos em shoppings, os concorrentes mais competitivos tratam de ficar horas treinando nos simuladores de suas casas antes de chegarem lá para arrebentar.

Trazer um desafio de pouco mais de um mês de prazo preparatório, em um game novo e com um carro novo – ainda mais sendo o F1 2017, muito distinto de seus antecessores – foi uma boa pedida. Ainda mais se considerarmos que, desta forma, ninguém atingirá um limite inalcançável. Você em sua casa, treinando de forma moderada, poderá chegar próximo aos tempos destes competidores, e isso despertará certo interesse do público comum para as próximas edições.

Especial: a história do automobilismo nos games
Parte 1
Parte 2

Gráficos do game e qualidade das disputas surpreendem
Gráficos do game e qualidade das disputas surpreendem

Transmissão e ambiente excelentes

Inspirado nos jogos de maior sucesso e que melhor fazem eventos presenciais, a F1 montou um cenário high-tech com plateia empolgada, equipamentos para pilotagem impactantes e o melhor: narradores bem preparados e ex-pilotos de F1 como comentaristas. Não que os narradores de eSports em geral estejam atrás dos profissionais da TV, mas a ótica da narração da corrida da mesma forma como é feito nas provas reais deu o tom de proximidade do evento com o mundo da F1.

Câmeras e edição rápida foram bem utilizadas, mesmo que o jogo F1 2017 em si não seja um dos melhores no quesito replays nem um dos melhores em multiplayer: os gráficos excepcionais ajudaram as corridas a passarem tranquilas por cima de dificuldades técnicas.

Os participantes também tiveram um papel fundamental. A prova de Silverstone sob chuva foi capaz de promover boas disputas por posição, e a narração atenta a cada briga completou a combinação fulminante. Este público parece mais disposto também a ver brigas no pelotão intermediário sem encher a paciência com aquela velha máxima de que se há alguém dominando a corrida, é porque ela é chata.

A F1 não foi a primeira a lançar desafios, mas lançou tão bem quanto as demais A maior crítica que se deve fazer é na verdade uma pergunta:  por que lançar tão tardiamente um desafio que WTCC, Fórmula E, DTM e mesmo marcas como Mercedes-Benz e Nissan já haviam realizam com seletivas online e finais de forma presencial.

A julgar pela qualidade apresentada pelo evento, foi possível compreender que tudo deveria estar em um padrão F1 de qualidade. Mesmo assim, a categoria máxima não terá os créditos de ser inovadora neste campo jamais, pois apenas seguiu a tendência. Se ela atrasou pela falta de visão inovadora da gestão anterior, com Bernie Ecclestone, ou se apenas se viu forçada a seguir uma estratégia de marketing para vender mais o seu novo jogo, é algo a se pensar e observar no futuro.

O palco dessa disputa é este aqui
O palco dessa disputa não é um autódromo, mas sim este aqui

Cuidados necessários

O atento leitor certamente se recorda das promessas de Bernie Ecclestone sobre os campeões da então GP2 (atual F2) terem vaga garantida na F1. Com o passar dos anos vários pilotos ficaram a pé e sem nenhuma chance de um cockpit na categoria máxima.

Pois este é um erro que não se pode repetir no eSports. Não que um campeão de F1 virtual deva ter lugar garantido na F1 física, mas um cargo de piloto de testes em simulador em alguma das 10 equipes do certame é perfeitamente possível, bem como aproveitar os futuros jovens ganhadores em ações promocionais, eventos e presença nos GPs. Não se deve esquecer desses campeões.

Se na F1 real o GP de Abu Dhabi vai só cumprir tabela em 2017, na F1 eSports Series ele vai definir o primeiro campeão da história do certame
Se na F1 real o GP de Abu Dhabi vai só cumprir tabela em 2017, na F1 eSports Series ele vai definir o primeiro campeão da história do certame

Outro ponto de atenção é seguir realizando poucos eventos por ano. Da forma como foi feito em 2017, com eventos por volta de setembro a novembro, está de ótimo tamanho. A audiência tende a se diluir caso tenhamos muitos eventos para acompanhar ao longo da temporada, e a F1 precisa pensar um bocado desta forma se quiser manter a atenção diante do público das mídias sociais.

Vale destacar que o novo comando da F1 diz querer fazer de cada GP um Superbowl, mas parece ignorar que a final da NFL é o que é por ter uma frequência anual. Mesmo uma Copa do Mundo ou as Olimpíadas perderiam seu glamour e atenção massiva caso fossem realizadas em intervalos menores do que o de quatro anos.

Logo, Chase Carey e companhia devem se atentar não só a manter uma base de 20 ou menos GPs de F1 por temporada, como não devem banalizar os eventos online. Não é à toa que os campeonatos de simuladores, seja das próprias produtoras ou de ligas e clubes, tem pouco apelo e audiência perto do que poderiam ter, muito por conta do alto número de eventos por semana disponíveis.

E no eSports há um detalhe importantíssimo: se entre os outros jogos cada um tem sua comunidade, por se tratarem de desafios completamente diferentes (League of Legends, Counter Strike e Call of Duty, por exemplo, não têm nada a ver entre si), o automobilismo virtual possui muitos games dos mesmos segmentos, com mesmos carros e propostas, e isso naturalmente já dilui as atenções dos fãs.

Mas só a F1 pode ser a “F1 dos eSports”, e o desafio já começou.

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Rodrigo Steigmann

Iniciou sua paixão pelas corridas em 1986 acompanhando a F1. Quando alcançou a maioridade, administrou alguns dos maiores fóruns de debates nas redes sociais sobre automobilismo e trabalhou com jornalismo especializado, seja em sites ou assessoria de imprensa a pilotos, equipes e marcas do esporte a motor. Em 2006 fundou o F1 Brasil Clube (F1BC) atualmente a maior comunidade do chamado automobilismo virtual (AV) brasileiro. Lá acumulou atuou em todo tipo de área, como administração, redação, webdesign, direção de provas, transmissões e narrações de corridas, além de ajudar a revelar novos talentos ligados ao AV.