F1 precisa parar de prometer show impossível e apreciar o produto que tem

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O bom apreciador de corridas seguramente ficou satisfeito com o que viu no GP da Malásia de 2016. Sepang teve todos os ingredientes necessários de uma prova marcante: reviravoltas, disputas, brigas diretas por posições e uma grande pitada de drama.

Mais do que isso, as ações vistas durante a corrida podem servir como um valioso aprendizado para a F1 na busca dos rumos que precisa seguir daqui para frente. A 16ª etapa da temporada mostrou que a categoria pode entregar um bom produto a seus fãs sendo ela mesma, sem que seja necessário adotar reformas drásticas em seu formato, nem interferir na competição com artificialidades.

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A F1 moderna vive na procura incessante por mudanças que visam ao aumento do número de ultrapassagens nas corridas. Muitas dessas novidades são válidas; outras, como o DRS, são altamente questionáveis. Mesmo assim, trata-se de uma busca sem fim. Este é o caminho? A categoria necessita procurar cada vez mais o aumento de ultrapassagens ou precisa apenas se aceitar como é? A seguir, explicaremos por que a F1 deveria escolher a segunda opção.

A busca incessante pela emoção extrema

Para analisar a questão, é preciso não só ver os problemas da F1, mas também tentar entender o ambiente no qual a categoria está inserida. A maneira como as pessoas encaram o entretenimento em suas vidas mudou drasticamente nas últimas décadas, graças ao aumento da tecnologia e às diversas opções que possuem.

Há anos a F1 busca, sem sucesso, encher suas corridas de ultrapassagens (Mercedes)
Há anos a F1 busca, sem sucesso, encher suas corridas de ultrapassagens (Mercedes)

Atualmente, o público tem à disposição inúmeras alternativas para seu divertimento. Apenas para citar alguns exemplos, há filmes e séries de primeira qualidade ao alcance da tela do celular, ou acesso direto a outros esportes/campeonatos que outrora eram praticamente impossíveis de acompanhar. Desta forma, cada um pode optar pela opção que se encaixe perfeitamente com suas preferências.

Por isso, as pessoas naturalmente se tornaram mais seletivas em seus hobbies, e isso deixou mais exigente parte do público que acompanha a F1. Se uma corrida começa sem grandes ultrapassagens em suas primeiras voltas, a chiadeira já rola solta em plataformas como o Twitter, que permite ver reações imediatas dos espectadores mundo afora.

Aprendizados com o GP da Malásia

Mas será que a categoria ficou mais chata ou foi a percepção das pessoas sobre o produto F1 que mudou? Dá para dizer que é um pouco dos dois. Nunca foi regra da F1 contar com GPs recheados de emoção intensa da primeira à última volta. Aliás, é altamente improvável que uma corrida de carros, sobretudo uma que conta com 11 modelos de chassis diferentes, tenha disputas e batalhas a todo o momento, em todas as etapas de um campeonato. Porém, isso não significa que as provas serão ruins, o que foi exemplificado pelo GP da Malásia de 2016.

O ponto mais importante da corrida em Sepang é que a F1 entregou exatamente o tipo de entretenimento que pode entregar. Isso aconteceu sem que houvesse nenhuma “malandragem”, como um grid invertido ou um Safety Car usado de maneira proposital para embaralhar a disputa.

Mas quais foram os momentos da corrida envolvendo os protagonistas que tiveram emoção extrema, daqueles de deixar o público de cabelo em pé? Quatro se destacam: o acidente da largada, a disputa lado a lado entre Daniel Ricciardo e Max Verstappen, a quebra de Lewis Hamilton e a arrojada ultrapassagem de Nico Rosberg em Kimi Raikkonen.

Entender o esporte e saber como vendê-lo

Ter “apenas” quatro momentos de destaque não significa que não houve disputas pela ponta. Max Verstappen ameaçou a vitória de Hamilton graças a uma troca de pneus inteligente com o Safety Car Virtual. Pouco antes de quebrar, o inglês estava em plena disputa por posição com o holandês, mesmo que os dois estivessem separados por 20s na pista (Hamilton, em tese, faria um pitstop a mais que Verstappen).

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F1 atual tem vários problemas, mas ainda pode proporcionar corridas boas (Red Bull)

O grande aprendizado que a F1 pode trazer desse episódio é que ela precisa compreender o produto que tem em mãos. Em vez de dar desculpas pela falta de ultrapassagens, a categoria deveria abraçar o seu formato e explicar por que, historicamente, as corridas não contam com emoção extrema do começo ao fim. É preciso, com o trabalho de comunicação, destacar aspectos que o público não pode perceber a olho nu e dizer que uma corrida pode, sim, ser interessante da forma como é.

Se não há disputas por posição roda a roda, e sim nas estratégias, cabe à categoria explicar e valorizar o jogo de xadrez que se passa. Por muitas vezes esse jogo estratégico é erroneamente encarado como “chatice”, mas, na verdade, é o que proporciona eventuais disputas diretas em momentos posteriores – como poderia acontecer com Verstappen x Hamilton caso o inglês não tivesse quebrado.

A F1 precisa promover o produto que tem, aceitá-lo e saber vendê-lo de forma honesta ao público. Em vez disso, prefere ignorar suas qualidades, prometer de forma utópica batalhas sanguinárias e constantes que nunca entregou e, paradoxalmente, impor punições absurdas como a dada a Rosberg por sua ultrapassagem sobre Raikkonen. Todas as partes estão batendo cabeça.

Dizer que as corridas precisam entregar disputas intensas na pista a todo o momento vai apenas decepcionar o torcedor e a própria categoria, que buscará alcançar o objetivo assim como um cachorro tenta, sem sucesso, morder o seu próprio rabo.

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É claro que isso não significa que a F1 não tenha problemas. No Projeto Motor já batemos diversas vezes na tecla da má distribuição financeira entre as equipes, o que praticamente mata pela raiz as chances de uma disputa mais saudável. As punições em exagero também precisam ser eliminadas com urgência.

Mesmo assim, a F1 ainda pode proporcionar momentos interessantes, e isso deve ser mostrado mais ao público caso a categoria supere essa crise de identidade. Os novos donos da F1 são americanos, mestres em comunicação esportiva. Parece um direcionamento óbvio, mas que não vem sendo seguido: entender o produto que possuem na mão (adquirido a um preço muito alto, diga-se) e vendê-lo bem. A F1 não precisa prometer mundos e fundos e querer ser algo que nunca foi, porque assim ela só frustra a si própria e aos fãs.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Luigi G. Peceguini

    “E a própria categoria, que buscará alcançar o objetivo assim como um cachorro tenta, sem sucesso, morder o seu próprio rabo”. Linda comparação!

  • Dox

    Sinto discordar de um belo texto sem poder justificar convenientemente, pois teria que escrever algo do mesmo tamanho.
    Mas é basicamente por ver que a F1 se distancia do que eu gosto de ver nas pistas: habilidade dos pilotos em situações extremas.
    As competições que mais proporcionam isso são as que recebem menos interferências externas durante a prova, com maior equalização de equipamentos, e sem artificialidades, gerando resultados mais justos e expondo de maneira mais legítima e clara a qualidade dos competidores.

  • Pablo Habibe

    Penso que já passou da hora de a Formula 1 criar mecanismos para que os carros possam entrar em contato uns com os outros reduzindo o risco de um efeito catapulta com o toque dos pneus. A Indy e a Formula E já adotaram elementos de carenagem que servem, ao menos, de alerta para os pilotos antes que o toque seja inevitável. Essa ideia nem é nova, tendo aparecido me vários conceitos de Formula 1 futuristas no passado.
    O que não podemos permitir é a criminalização do arrojo. Batalhas clássicas como a de Arnoux e Villeneuve jamais teriam espaço para acontecer com as restrições de hoje. O jogo de xadrez das estratégias sempre vai existir, mas temos de evitar contextos que induzam essa abordagem como a única válida para se ganhar uma posição.

  • Rafael Schelb

    Sem mais. Onde eu assino? rsrs