F1 toma péssima decisão de esconder alta potência de seus motores

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Desde sua fundação o Projeto Motor vem alertando que o atual sistema de propulsão híbrida da F1, formada pelo motor convencional a combustão, um V6 de 1,6 litro sobrealimentado por turbocompressor, mais dois sistemas auxiliares de recuperação dos gases de escape e da energia cinética gerada pela frenagem, estava longe de ser o “motorzinho de dentista” que muitos pregavam.

Ele pode não soar alto, mas está rapidamente recolocando a F1 nos patamares não dos V8 dos anos 2010 (superados faz tempo) nem dos V10 usados entre os anos 90 e primeira metade do decênio seguinte (alcançados este ano). Estamos falando, sim, da primeira era turbo, na década de 80, aquela tão famosa por proporcionar bólidos que batiam 1.300 ou até 1.400 cv e eleita pelo nosso comitê editorial como a mais legal da história.

Assista ao Debate Motor #44:

Talvez aí repouse o problema nevrálgico e pungente da categoria mais famosa do automobilismo mundial: sua falta de comunicação com o público. Em primeiro lugar ela não soube passar a seus fãs a mensagem sobre qual seria o propósito de se mudar radicalmente a tecnologia de propulsão. Agora, parece não se importar em fazer a devida propaganda de um fato importante: ao que tudo indica pelo menos um dos quatro fornecedores do campeonato – a Mercedes-Benz – já conseguiu alcançar os quatro dígitos da potência medida em cavalo vapor.

Na última sexta-feira (23) o site britânico Motorsport.com publicou artigo especulando que, em modo de classificação, o PU106C (nome dado à usina germânica) já teria superado 1.000 cv. A base da afirmativa estaria em dois fatores: 1) uma análise de desempenho por meio do som; 2) a existência de um botão – disponível a todos os clientes da marca, o que inclui Williams, Force India e Manor – que, durante as tomadas de tempo, permite o ganho de 80 cv por 50 segundos de uma volta rápida (basicamente todos os trechos ininterruptos de aceleração).

O problema, tal qual o óbvio ululante de Nelson Rodrigues, é que nem Mercedes nem Ferrari nem Renault nem Honda permitem divulgar dados precisos sobre seus motores. É a tal guerra dos segredos que não podem ser entregues de mão beijada aos adversários. Só que, conforme o nobre amigo (e ex-chefe) Ubiratan Leal já escreveu neste artigo especial para nossa humilde publicação, a aura de mistério da F1 já “deu no saco”. O público do século XXI, imerso em overdose de informação e redes socials, quer ser fascinado é pela espontaneidade do “papo reto”.

Segundo site inglês Motorsport.com, motor Mercedes já rompe casa dos 1000 cv quando em modo de classificação
Segundo site inglês Motorsport.com, motor Mercedes já rompe casa dos 1000 cv quando em modo de classificação

Ter atingido 1.000 cv é algo extremamente relevante para uma categoria que tenta recuperar o fulcro de sua outrora impávida e hoje tão fragilizada reputação. Dirigentes e engenheiros, pessoas que não fazem ideia de como se promover um esporte, não entendem isso e preferem esconder o jogo – de um jeito até meio estípido, diga-se, porque se até a imprensa fica sabendo é óbvio que os rivais também acabam tendo acesso às informações, especialmente depois que a McLaren nos mostrou, em 2007, o quanto a espionagem rola solta.

Nada disso passa de um jogo que há tempos perdeu a graça. Qual o problema em saber que a Mercedes já superou 1.000 cv? Óbvio que os engenheiros da Renault já imaginam algo do tipo. Ninguém está falando em publicar detalhes da curva de potência e torque num gráfico de dinamômetro. É apenas uma questão de confirmar uma estimativa cabalística que, do ponto de vista da publicidade, contaria muitos pontos para o certame.

Ademais, quem cuida das áreas de comunicação e publicidade deveria se prontificar em aproveitar a situação para criar um círculo virtuoso de divulgação. Talvez seja o caso de haver até cláusulas obrigando que certos dados fossem tornados públicos em prol da promoção do esporte. Sei lá se juridicamente isso seria viável, mas o fato é que na F1 parece ser proibido que as coisas aconteçam de forma clara e objetiva. Ao invés de “preto no branco”, os mandachuvas preferem seguir uma plúmbea luz cinza que leva a um destino turbulento.

O que nos resta é esperar que o tal grupo Liberty Media consiga romper este status quo e direcionar a série para o caminho certo em termos de divulgação. Caso contrário não haverá cavalaria capaz de tirá-la da rota do ostracismo.

Debate Motor #46: qual a 2ª categoria mais importante atualmente?

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Pablo Habibe

    https://uploads.disquscdn.com/images/c1c5b907f7a1dcdfa76deb3067290ffdfe2c84da59f9eb9c1ea9a0e4b4505a67.jpg
    Lembro que, no meu anuário da Formula 1 de 1986, um dos argumentos que se colocava a favor do fim dos motores turbo era o de que o público não perceberia nem se importaria se o carro estava a 350 ou 300 km/h, que tanto fazia se os motores tinham 1000 ou 600 cv… Lembro de ficar indignado. Como assim?! Eu me importo!

    O fato é que de geração em geração, os dirigentes do esporte jamais se preocuparam com o público. Mesmo em 1966, quando houve o “return to power”, com os motores passando dos 1.5L para 3.0L, a pressão dos fabricantes foi tão ou mais importante que o vexame diante da audiência que via a F1 andar menos que carros de endurance… Hoje mesmo, vale mais o segredo industrial.

    Uns anos atrás, fiquei com a impressão de que as transmissões cortavam a animação do velocímetro antes da velocidade máxima para manter a informação segura. Obviamente se tratava de um esforço vão diante dos arapongas empregados pelas equipes. Mesmo assim, essas animações, que surgiram ainda nos anos 80, passaram anos sem dar as caras…

    A categoria já foi controlada pelas fábricas, pelos garagistas e por marqueteiros desalmados. Uma hora ela vai ter de ser comandada por um fã…

  • Gabriel Pena Catabriga

    “Nada disso passa de um jogo que há tempos perdeu a graça. Qual o
    problema em saber que a Mercedes já superou 1.000 cv? Óbvio que os
    engenheiros da Renault já imaginam algo do tipo.”

    Também fiquei me perguntando durante toda leitura, qual seria o problema de você informar a potência do seu motor? Tipo, nossa unidade de potência tem 1050cv, pronto e acabou. Você não passou dado nenhum que faça seu oponente melhorar o desempenho dele, na verdade você coloca até pressão nas costas dele para que gaste tokens em sua unidade afim de te alcançar e com isso mais a frente possa receber uma punição.

  • achsanos

    Até porque, se alguém de fora conseguiu estipular a potência do motor, é óbvio que as equipes, entre si, conseguem inferir os resultados uma das outras com um grau de acuracidade bem maior. Se a Mercedes já atingiu esse valor é óbvio que as outras equipes não suspeitaram disso através da matéria da Motorsport.

    [O texto fala em energia sinética; deve ser erro.]

    • Gabriel Pena Catabriga

      Isso energia cinética está escrito errado.

    • Leonardo Felix

      Tudo bem, achsanos?

      Foi um erro de grafia que passou despercebido. Já arrumei. Valeu pelo toque.

      Abs!

  • Billy Blanks

    Acredito que por situações como esta é que a F1 esteja se tornando tão desinteressante, a ponto de não despertar qualquer sentimento em relação ao público. E a persistir essa indiferença, a categoria pode vir a sucumbir tal qual a finada CART, brilhante até o fim dos anos 90 e que não soube gerir a sua própria grandeza.