Fã da F1 quer progresso tecnológico ou volta ao passado? Nem ele sabe

2

Saiu, enfim, o resultado da pesquisa da GPDA, a associação dos pilotos profissionais, sobre o que os fãs querem que mude e o que acham que deveria continuar como está na F1. Você sabe: a categoria passa por uma das maiores crises de identidade de sua história, talvez comparável só a outra vivida nos anos 60; assim como ocorreu naquela época (algo que rende um artigo à parte, inclusive), os organizadores da série terão de se desdobrar para encontrar soluções antes que a vaca vá para o brejo.

Mas, afinal, o que o público espera da F1 contemporânea? É o que a entidade liderada por Alexander Wurz quis descobrir. A adesão foi surpreendentemente alta, apesar de o processo ser longo e um tanto cansativo, especialmente para os padrões atuais da internet (o questionário era extenso e, segundo relatos de brasileiros que participaram, demorava de 15 a 20 minutos para ser totalmente preenchido): 217.756 formulários preenchidos, vindos de 194 países diferentes.

Desenvolvimento desenfreado nos anos 90 levou ao ultratecnológico Williams FW15C
Desenvolvimento desenfreado nos anos 90 levou ao ultratecnológico Williams FW15C

Entre todos os dados coletados, o que mais impressionou o comitê editorial do Projeto Motor foi uma espécie de paradoxo entre desejos aparentemente opostos: os fãs sentem saudades de muitas coisas do passado, mas, ao mesmo tempo, defendem a liberdade das inovações tecnológicas. Em meio a isso tudo, querem que as equipes controlem com pulso firme os próprios gastos. Complicado, não?

Observe: 74% dos participantes acham que o regulamento deveria ser mais flexível, pensado para que os carros difiram mais uns dos outros nas soluções técnicas. Só que, para 68% deles, os custos da competição estão altos demais, beirando ao sustentáveis. Pouco mais da metade, defende até a adoção de um teto orçamentário. Ou seja: liberem o desenvolvimento, mas fechem os cofres. Como equilibrar as coisas?

Difícil responder a essa pergunta, ainda mais sabendo que os fãs da F1 querem passar longe das padronizações adotadas por outras categorias. Só 44% acham válida a ideia dos times-cliente, e meros 28% aprovam a hipótese de que escuderias maiores alinhem mais de dois carros no grid. Para piorar, ínfimos 16% são afeitos ao uso de chassis e motores padrão. Eles anseiam, portanto, por uma guerra aberta entre construtores, e não apenas isso: 80% querem também o retorno da guerra dos pneus, e 60% são favoráveis à volta do reabastecimento.

Aí vem outra questão: liberar o aporte tecnológico significa acelerar o processo de busca por soluções que tornem os carros mais velozes e fáceis de pilotar, certo? Só que o fã da F1 não quer isso. Quer dizer: quer bólidos rápidos, sem dúvidas, porém ariscos, que dificultem a vida do piloto ao tentar controlá-lo na pista. Nesse aspecto, 56% acreditam que os monopostos atuais são dóceis demais.

Para boa parte dos entusiastas, carros precisam ser desafiadores a ponto de deixar explícito ao público o trabalho árduo do piloto para controlá-lo
Para boa parte dos entusiastas, carros precisam ser desafiadores a ponto de deixar explícito ao público o trabalho árduo do piloto para controlá-lo

Quando se conversa com o pessoal mais nostálgico, muitos citam elementos tais quais transmissão semiautomatica e assistência eletrohidráulica da direção como nocivos ao esporte, porque reduzem a margem de atuação do competidor. Voltar a usar câmbio manual e direção não assistida iria valorizar mais a pilotagem, dizem. Pode ser, mas uma decisão dessas não iria contra toda a ideia de progresso tecnológico liberado? Dá para conciliar as duas coisas?

Ah, sim! Também entra nesse angu todo a questão dos motores: o entusiasta da F1 deseja ouvir roncos mais estrondosos nos autódromos, assim como ver carros mais potentes. O Projeto Motor já escreveu que essa é uma questão fácil de solucionar: os atuais V6 turbo já beiram 800 cv e chegarão a 900 cv até 2017. Não é preciso mexer muito para que cheguem a 1.000 cv em médio prazo.

O problema passa a ser o preconceito: por mais que as unidades híbridas de 1,6 litro cheguem a 5.000 cv, 59% dos participantes disseram que tamanho e tipo de propulsor importam. Ou seja: eles não preferem somente uma usina forte: ela tem que ser grande e imponente, algo que destoa totalmente da técnica de downsizing que serviu de norte para o atual regulamento técnico da F1. Mais uma vez, temos um grande conflito entre avanço tecnológico e apego ao passado.

Fã da F1 diz que se preocupa não só com potência, mas também com tamanho e tipo do motor; agora responda honestamente o que é melhor: um V6 de 1,6 litro que entrega 800 cv ou esse belo boxer 12-cilindros da Subaru, que parecia impor respeito, mas sofria para chegar a 450 cv?
Fã da F1 diz que se preocupa não só com potência, mas também com tamanho e tipo do motor; agora responda honestamente o que é melhor: um V6 de 1,6 litro que entrega 800 cv ou esse belo boxer 12-cilindros da Subaru, que parecia impor respeito, mas sofria para chegar a 450 cv?

Já os pilotos, segundo os entrevistados, precisam se esforçar mais para mudar a situação. Sempre para pelo menos 75% dos escrutinados, os ases deveriam ser mais “espontâneos e honestos” com o público, além de trabalhar para promover a categoria e atrair novos admiradores. Também teriam que se engajar de forma mais séria nas discussões sobre segurança e formulação de regras. Curiosamente, o volante preferido da maioria é Kimi Raikkonen, um cara que está pouco ligando para qualquer uma dessas questões… Mais uma dose de contradição na conta.

No fim das contas, como conciliar todas essas reivindicações? Quem tem de responder são os mandachuvas da F1, os principais interessados em que o show não perca força. Por mais contraditórias que sejam suas vontades, os fãs precisam ser ouvidos e levados em conta. Atualmente eles se sentem excluídos: 77% consideram que a categoria tem dado importância demais ao lado financeiro na hora de tomar decisões. E 85% acreditam que ela deveria se esforçar mais para atrair novos fãs e reter os que já existem.

Afinal, paradoxos à parte, o que todos querem mesmo – e 89% dos pesquisados pela GPDA responderam isso -, é que o espetáculo seja mais simples, acirrado e emocionante. E que a emoção aconteça de forma natural, sem interferência de artifícios como asa móvel, sistema de lastro e grid invertido. O recado final é: podemos não saber exatamente o que e como queremos que mude, mas temos plena certeza de que a F1 precisa mudar profundamente, não só na côdea.

Para os fãs, poderia ficar uma sugestão: para mudar, de verdade, que tal desapegar um pouco das amarras do passado?

Obs: se quiser acessar a pesquisa completa (em inglês), basta clicar aqui. Nela, além das estatísticas já apontadas, há outras curiosidades: os participantes elegeram Ayrton Senna como melhor piloto de todos os tempos, seguido de Michael Schumacher e Alain Prost, e a Ferrari como escuderia favorita, acompanhada de McLaren e Williams. Há ainda um resumo do perfil médio dos voluntários, e até um ranking de participações por país, encabeçado por Reino Unido e que tem os Estados Unidos, de forma surpreendente, em terceiro lugar. O Brasil, maior audiência da F1 no mundo, ocupou só o décimo posto.

 

 

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.