Quatro Rodas

Falta de carisma dos pilotos ajuda a agravar crise de imagem da F1

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Não é segredo nem novidade que a F1 está longe de viver o melhor momento de sua história. O assunto, aliás, já foi abordado pelo Projeto Motor por diversos pontos de vista, desde a questão financeira, o pouco fascínio envolvido na pilotagem dos carros ou o regulamento excessivamente complicado. Um outro fator importante nesta questão, mas muitas vezes ignorado, é a crise de imagem dos pilotos com o público, o que acaba criando a impressão de que a situação da categoria é pior do que de fato é.

Mesmo que a F1 tenha sérios problemas a resolver em seus bastidores, o que acaba sendo avaliado pelo grande público para determinar a qualidade do produto final são as disputas na pista. A categoria vive atualmente um momento de intenso domínio da Mercedes, mas, algumas corridas monótonas à parte, ela vem de um campeonato bastante acirrado e polêmico.

Rosberg Hamilton

Em 2014, Lewis Hamilton e Nico Rosberg vivenciaram um ano que tinha todos os ingredientes para fazer história. Os dois, rivais desde o kart na infância, possuem um passado entre si e travaram disputas intensas na pista, com polêmicas e até batida. Mesmo que a dupla da Mercedes tenha brigado duro pela primeira posição, o campeonato acabou não caindo nas graças do público, que possui, no geral, a impressão de que a crise da categoria também atinge há tempos seu lado esportivo, com falta de competitividade. Prova disso foi a recente pesquisa feita pela GPDA, na qual a palavra “entediante” foi a terceira mais utilizada pelos fãs para descrever a F1 atual.   

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É justamente aí que entra o fator extra-pista. Para o grande público (ou seja, sem contar os fanáticos que assistem às corridas independentemente de qualquer coisa), o que cativa, além da pilotagem, é a personalidade, a imagem que o piloto passa para que a torcida “compre sua causa”. É isso que acaba fazendo com que os fãs chorem pela derrota ou comemore como nunca o sucesso de seus escolhidos. Todo esporte precisa, mais do que excelente esportistas, de bons personagens.

Mais que pilotos geniais, Senna e Prost eram personagens riquíssimos
Mais que gênios, Senna e Prost eram personagens riquíssimos

Na teoria, Rosberg tinha tudo para ser um personagem marcante na F1 – filho de um campeão mundial, poliglota e inteligente como poucos no paddock. Mesmo sem o talento de Hamilton, o alemão seria a antítese perfeita para o inglês, o que poderia apimentar ainda mais uma rivalidade com potencial de fazer história. No entanto, Rosberg não possui a atitude e carisma fora da pista para provocar no público este tipo de sentimento.

Os sinais mais quentes de rivalidade com Hamilton aparecem de maneira sutil, como o não-cumprimento após uma corrida ou uma expressão facial mais fechada. Em suas declarações, tirando alguns breves momentos de cabeça quente, Rosberg é mais político e polido, adotando o discurso politicamente correto que a F1 tanto prega.

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E o filho de Keke não é contido quando se trata somente da rivalidade com Hamilton. Recentemente, pouco depois do triunfo de Nico Hulkenberg nas 24 Horas de Le Mans, os pilotos foram perguntados em entrevista coletiva se tinham a ambição de repetir o feito. Enquanto que nomes como Daniel Ricciardo, Fernando Alonso e Sebastian Vettel mostraram empolgação sobre o assunto e desenvolveram, Rosberg se limitou a responder:

Na verdade, não [penso em correr em Le Mans]. Estou focado neste ano, então não pensei nisso.

Resposta mais sem graça, impossível.

Webber nunca fez questão de esconder sua insatisfação com Vettel
Sempre que pôde, Webber bateu de frente com Vettel

Neste aspecto, Rosberg mostra diferença gritante em relação a Mark Webber, companheiro de equipe de outro recente campeão dominante na F1, Sebastian Vettel. Em sua passagem pela Red Bull, o australiano mostrou personalidade forte, bateu de frente com o alemão e a alta cúpula da equipe e, quando tinha condições de apresentar rendimento parelho na pista, originou momentos que chamaram a atenção do público de maneira genuína. A controvérsia no GP da Inglaterra de 2010 ou o episódio “Multi-21” são alguns exemplos disso. Pena que, nos cinco anos que dividiu a garagem com Vettel, foram poucas as ocasiões em que teve condições de fazer frente de fato na pista.

Schumacher e Villeneuve tiveram disputa marcante em 1997
A  disputa foi intensa em 1997

Atitudes fora da pista podem contribuir na criação de rivalidades e polarizar a opinião das pessoas. Não é preciso ir ao passado distante para lembrar de um exemplo claro, quando Jacques Villeneuve e Michael Schumacher disputaram o título em 1997. O canadense não dispunha do mesmo talento do alemão, mas o fato de ter batido de frente com o então bicampeão de forma tão visível fez com que aquele ano se tornasse memorável .

Villeneuve, aliás, é a prova de que uma personalidade forte pode dividir opiniões, já que suas declarações e análises sobre o panorama do automobilismo nem sempre são bem aceitas pelo público. Contudo, polêmicas à parte, o canadense resumiu com perfeição a situação:

Falta personalidade, é tudo politicamente correto. Um piloto é superado por seu companheiro de equipe e aí ele diz que está feliz por ele… Isso é falso! Isso não existe! Os pilotos chegam à F1 muito jovens, ainda sem personalidade, e é isso que a categoria quer: moldá-los. Aí os fãs não criam nenhum tipo de laço com os pilotos, porque não vale a pena brigar por eles.

E você, o que acha sobre isso? Quem você considera que pode, atualmente, ter uma rivalidade a entrar para a história na F1? Deixe sua opinião!

Confira o Debate Motor #4, com análise do GP da Inglaterra:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.