Falta de estrutura fez Marussia viver duas tragédias em três anos

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Antes de iniciar esta análise, preciso fazer uma espécia de autodefesa antecipada: gosto da Manor Marussia. Há várias razões para isso, e a principal é que, mesmo aos trancos e barrancos, a escuderia é a única das três nanicas que estrearam em 2010 (as outras são Caterham e HRT/Hispania) a ter sobrevivido no certame, sabe-se lá por quanto tempo mais.

Além disso, seu fundador, John Booth, é ex-piloto e garagista genuíno, com tradição em competir nas categorias de base desde os anos 90. Tem ainda o fator psicológico de simpatizar com times pequenos. Eu e os demais membros do comitê editorial do Projeto Motor defendemos que a F1 seja menos protecionista e mais democrática em relação a times menores, cada vez mais sufocados pelos custos e exigências da competição. São as esquadras pequeninas que fazem volume e completam o charme, a aura da categoria. Um campeonato sem elas perde a graça.

Feita esta ressalva, chegou a hora de fazer a doída constatação: num espaço de três anos, a Manor Marussia esteve envolvida em duas tragédias: o acidente de María de Villota, durante um teste aerodinâmico feito em julho de 2012 no aeroporto britânico de Duxford, e o de Jules Bianchi, ocorrido no GP do Japão do ano passado, em outubro. Curiosamente, ambos corredores só vieram a falecer algum tempo depois: a espanhola, a 11 de outubro de 2013, devido a sequelas neurológicas da colisão, que já havia lhe tirado antes o olho direito; o francês, no último sábado (18), também por lesões na cabeça, após passar nove meses sobrevivendo em estado vegetativo.

Sem dinheiro, organização e profissionais no nível das grandes equipes, nanicas ficam menos imunes aos riscos do automobilismo
Sem dinheiro, organização e profissionais no nível das grandes, nanicas ficam menos imunes aos riscos

Coincidência? Azar extremo? Aparentemente não. É cruel admitir isso, mas a morte dos dois pilotos está ligada, mesmo que de forma indireta, às limitações de uma organização cuja falta de estrutura contribuiu para potencializar erros que se mostraram fatais.

Sobre Bianchi, primeiro piloto a morrer em um GP desde Ayrton Senna, em 1994, todos sabemos como se deu a catástrofe: sob forte chuva, o membro da Academia de Jovens Talentos da Ferrari aquaplanou na subida da curva Dunlop, no mesmo ponto em que Adrian Sutil escapara pouco antes, e entrou por baixo de um trator que atuava na remoção do bólido da Sauber. O santantônio não resistiu à força do impacto e Bianchi foi atingido em cheio na cabeça, sofrendo uma lesão axional difusa.

Erro de pilotagem, chassi instável ou falha mecânica? A julgar pelo talento de Bianchi, fica difícil não suspeitar que francês só bateu contra o trator naquela fatídica tarde em Suzuka devido a um problema (de equilíbrio ou em algum componente) do MR03
Erro de pilotagem, chassi instável ou falha mecânica? A julgar pelo talento de Bianchi, fica difícil não suspeitar que francês só bateu contra o trator naquela fatídica tarde em Suzuka devido a um problema (de equilíbrio ou em algum componente) do MR03

O jornalista brasileiro Luís Fernando Ramos fez uma análise muito interessante sobre o ocorrido. Para ele, a chefia da F1 e a direção de provas erraram ao não respeitar os efeitos de um tufão previsto para chegar ao Japão bem no fim de semana da corrida. Entretanto, a FIA, em sua investigação particular, jogou toda a culpa sobre o volante, alegando que ele trafegava acima de velocidade segura quando cruzou o trecho de bandeira amarela gerado pelo incidente do alemão.

Para comprovar a tese, a própria federação exibiu, a Ramos e a outros jornalistas, um vídeo que mostrava outros competidores passando pelo mesmo ponto onde Bianchi bateu. Segundo o jornalista, em nenhum momento fica claro que o francês estava mesmo mais veloz. Em sua visão, o ás só perdeu o controle do MR03 porque não dispunha de equipamento tão equilibrado quanto o restante do grid naquelas condições. Veja o que ele diz:

Minha impressão é de que o problema maior foi que sua Marussia não tinha a mesma pressão aerodinâmica que a maioria dos outros carros do grid. Sua velocidade parecia condescendente com a de outros pilotos, mas seu carro não lhe garantia a mesma estabilidade.

Há ainda outra hipótese, que, se for verdadeira, será escondida a sete chaves pelo time: falha mecânica. Nenhuma delas exime o erro deplorável dos organizadores ao não paralisar a prova, mas as duas escancaram o quanto tragédia fica mais plausível se o piloto defender uma esquadra com menos dinheiro, carro menos eficiente e profissionais menos competentes.

No caso de Villota, os traços de semiamadorismo ficam ainda mais escancarados: recente reportagem da revista inglesa Autosport revelou o total despreparo da escuderia ao conduzir uma bateria particular de testes naquele 3 de julho.

Primeiro, De Villota perdeu o olho direito, mas aparentemente conseguiria viver sem nenhuma outra sequela; problemas neurológicos mais graves só se manifestaram um ano e três meses depois
De Villota perdeu o olho direito, mas aparentemente conseguiria viver sem nenhuma outra sequela; problemas neurológicos mais graves só se manifestaram um ano e três meses depois

Primeiro, nenhum engenheiro foi capaz de passar à inexperiente espanhola os procedimentos para parar o monoposto. Quando encerrou seus dois primeiros ciclos de volta, María foi pega de surpresa pela ação de um controlador eletrônico de marcha lenta do motor, que bloqueia o uso indevido da embreagem e dos seletores de marcha do câmbio a fim de evitar quebras. Foi por desconhecer esse sistema que a hispânica, mesmo a 45 km/h, não conseguiu frear o carro e se chocou contra um caminhão de reboque. Este, por sua vez, não estava preparado para uso em ambiente automobilístico, o que contribuiu para que o impacto ocorresse diretamente contra sua cabeça.

Em nenhum dos casos a diretoria do time admitirá culpa, até porque fazer isso poderia implicar problemas judiciais. E, sinceramente, não defendo que a escuderia seja punida. Automobilismo é um esporte de riscos, e todos que fazem parte dele estão cientes disso. Nem os mais talentosos e poderosos conseguem se imunizar (Senna e Williams, as grandes forças da F1 em 94, que o digam). Entretanto, o perigo ronda mais a porta de quem não tem tanto preparo e organização para evitá-lo. Foi o que aconteceu com a Manor Marussia nesses últimos três anos. Infelizmente, até nisso os pequeninos estão em desvantagem.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.