Fato ou Mito #3: afinal, a F1 pode ser considerada um esporte?

1

Nos anos 80, um tempo em que a F1 era tão popular quanto o futebol no Brasil, surgiu entre os cronistas do ludopédio uma teoria que muitas vezes é principalmente manipulada com a finalidade de reduzir a relevância social e esportiva do automobilismo: “F1 não pode ser considerada um esporte”.

O conceito foi amplamente defendido por nomes como Juca Kfouri – à época diretor da revista Placar e ainda hoje indiferente ao esporte a motor – e, vez ou outra, refrata no imaginário popular quando um telejornal qualquer exibe notícia sobre acidente ou morte no automobilismo. Diz o homem médio: “Afinal, qual o sentido de homens correndo em círculos, gastando combustível fóssil e arriscando a vida? O piloto é totalmente dependente da máquina. Isso não é esporte, isso não é saudável.”

Em outros casos, o enunciado surge quando há algum jogo de equipe. Recorre-se então ao expediente de que a F1 é chata e previsível, pois a disputa entre pilotos numa mesma equipe não é justa; logo, o último passo na argumentação é desqualificá-la como esporte.

Verdade seja dita, nenhum petrolhead leva esta discussão a sério. Somos apaixonados pelo automobilismo e, assim, o que importa se o vizinho não gosta? Deixa ele com o futebol do Brasileirão e a Superliga de Vôlei e vida que segue. Felizmente, nenhum ser humano é igual.

Ainda hoje, muitos questionam a F1 como esporte (Divulgação)
Disputa entre Mercedes e Ferrari em Interlagos: muitos ignoram elemento competitivo no esporte (Divulgação)

Contudo, o comitê do Projeto Motor sentia a necessidade de esclarecer alguns pontos sobre a questão – tendo em vista que o automobilismo é o nosso objeto de estudo. Mesmo porque, assim como argumentar que Nero pôs fogo em Roma e os vikings tinham chifres em seus capacetes, afirmar que a F1 não é um esporte é muito próximo de cometer uma desonestidade intelectual. É um mito difundido, ao menos no nosso julgamento, que, muitas vezes, se confunde com esclarecimento. Expliquemos o porquê.

Primeiro, existe um conceito fechado sobre o que é esporte? Não. A própria etimologia da palavra mudou ao longo do tempo. Segundo o Online Etymology Dictionary, o termo vem do francês antigo disport, que significa “lazer” ou “passatempo agradável”. Um verbete do século 15 conceitua como “uma atividade que oferece divertimento e relaxamento”, mas outro do mesmo centênio já define como apenas “um jogo envolvendo exercício físico”.

Mesmo as definições atuais divergem bastante. A União Europeia, no documento “The European Sports Chart”, define esporte como “todas as formas de atividade física que, por participação casual ou organizada, visam exprimir aptidão física e controle mental”.

Em contrapartida, a SportAccord, organização internacional que reúne as entidades desportivas de todo o mundo, complexifica a descrição: segundo a associação, um esporte deve ter um elemento de competição, não ser prejudicial ao ser humano, não depender de equipamento fornecido por uma única corporação e não depender de elemento “de sorte” para definir resultados. Por orientação, segundo a entidade, os esportes podem ser divididos em primariamente físicos (futebol), primariamente mentais (xadrez), primariamente motorizados (automobilismo), primariamente coordenados (sinuca e tiro ao alvo) e primariamente apoiados por animais (hipismo).

Rosberg venceu o campeonato de 82 com um carro mediano (Divulgação)
Rosberg venceu o campeonato de 82 com um carro mediano (Divulgação)

Como se viu, as descrições frequentemente variam. E dependendo do contexto, “esporte” pode ser aplicado a diversos sentidos, o que leva muita gente a confundir recreação e bem estar físico com competição esportiva. Pensando assim, como ficariam os esportes de alto rendimento, que, em longo prazo, não trazem nenhum benefício de saúde ao atleta?

De qualquer forma, voltemos ao assunto principal. A F1, na visão dos defensores do “não-esporte”, privilegia a máquina. Logo um volante com um equipamento ruim nunca vai suplantar outro a bordo de um carro superior. Bom, talvez haja certa dose de verdade nisso, embora vários casos, tanto na categoria-mãe quanto em outras classes, comprovem o contrário.

Atendo-nos apenas à F1: Keke Rosberg foi campeão em 1982 com um carro que era, no máximo, o terceiro melhor do grid. Alain Prost, em 1986, venceu as magnânimas Williams-Honda com o segundo melhor bólido. Três anos atrás, Fernando Alonso quase foi tricampeão com um equipamento que, no início da temporada, não estava nem entre os três mais eficientes do grid. Ou seja, a máquina, claro, é muito importante, mas o fato de muitas equipes já terem falhado numa campanha por falta de material humano não pode ser desprezado – o caso de 2003, por exemplo, em que a Williams teve o melhor carro durante boa parte do ano e não conseguiu ser campeã. E material humano é importantíssimo, como veremos a seguir.

Muito defendido no passado, o argumento de que a F1 não exige esforço físico já foi brutalmente ultrapassado nas últimas décadas. Além da habilidade para conduzir um carro a 300 km/h, um piloto participa de um evento de resistência em que cada músculo do corpo sofre estresse à medida que ele é obrigado a frear o veículo em extremas condições gravitacionais. Em números, são 90 minutos de maratona a uma velocidade média de 170 km/h e forças laterais/longitudinais de 5G. Não obstante, o competidor de F1 é obrigado a utilizar no pescoço o Hans, um dispositivo de fibra de carbono para reduzir a probabilidade de lesões nas vértebras cervicais, caso ocorra algum acidente ou movimento não-forçado dentro do cockpit.

Hamilton colocando o Hans no pescoço (Divulgação)
Hamilton colocando o Hans no pescoço (Divulgação)

E por último, e mais importante, o que talvez mais defina a F1 como um esporte “legítimo” seja a habilidade mental para obter um resultado. Desde os primórdios do esporte, um corredor, durante um páreo, precisa entrar quase num estado meditativo: ele precisa pensar no adversário à frente e no de trás; em traçado de pista, ponto de freada e aceleração; no cálculo de combustível e no desgaste de pneus. Na sua estratégia, na do oponente. Na posição de pista, em frações de tempo cronometrado, instruções de rádio, estado de asfalto. Tudo isso a uma temperatura de quase 40º C no habitáculo, velocidade-pico de 320 km/h. Me pergunto se um atleta de tiro a alvo – nada contra o esporte – ou mesmo de futebol seria capaz de resistir a um nível de adrenalina como esse.

A F1, então, é um dos esportes mais desafiadores do mundo. Assim como o automobilismo em geral – ainda que a função social da modalidade caia a cada ano (isso é assunto para outro texto). O enunciado “F1 não é esporte” não apenas é falso como impossível de refutar, já que não há razões para que, de fato, o debate exista. É uma discussão errada.

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Antonio Bernardes

    Saudações!

    Creio que não há como questionar que o automobilismo não seja um tipo de esporte! Basta ir a um kartódromo e verificar o quanto de desgaste físico e mental está submetido um piloto. Não é incomum ver pilotos de kart amadores e profissionais passarem mal depois de uma corrida de 15 a 30 min. Assim como, é comum ver pessoas que nunca pilotaram sequer conseguirem andar e ao saírem do veículo se queixarem de dores e enjoos.

    Pilotos amadores e profissionais de kart, cada vez mais, possuem um preparo físico invejável. Tanto em exercícios aeróbicos como anaeróbicos. Sem um bom preparo físico não se pilota!

    Pela pouca experiência que tenho, me detive ao kartismo, agora imaginem tudo isso para um Formula!

    Abraços e parabéns pela matéria,