Fato ou Mito #4: Bellof era tão promissor quanto Senna na F1?

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Primeiro de setembro de 1985. Mil quilômetros de Spa-Francorchamps, sétima etapa da temporada regular do Mundial de Resistência. Septuagésima oitava passagem. O então atual campeão do famoso Grupo C da categoria e parceiro de Thierry Boutsen a bordo do Porsche 956 da Brun, Stefan Bellof, disputava a dianteira do páreo com um de seus ex-companheiros de time oficial, o veterano Jacky Ickx, este pilotando um mais moderno 962C.

Dois momentos do acidente fatal: a tentativa de passar Ickx por dentro na primeira perna e, segundos depois, os dois protótipos desgovernados no meio da Eau Rouge
Dois momentos do acidente fatal: a tentativa de passar Ickx por dentro na primeira perna e, segundos depois, os dois protótipos desgovernados no meio da Eau Rouge

Querendo tomar do rival a condição de ponteiro, o alemão de 27 anos contornou a Source com mais esmero, obtendo melhor tração rumo à descida da Eau Rouge. Aproveitando a presença de um retardatário, Bellof pegou o vácuo do belga e decidiu arriscar tudo logo no ponto mais perigoso do traçado: embicou o protótipo por dentro na primeira perna da temida “Água Vermelha”, manobra que surpreendeu a todos (até o adversário).

Mal sabiam espectadores, pilotos e comentaristas que o germânico natural de Giessen pagaria pelo arrojo fora de hora com a própria vida. A ponta direita de seu bólido tocou na roda traseira esquerda do oponente, fazendo com que ambos saíssem desgovernados pela tímida área de escape daquele trecho. Ickx teve sorte, visto que seu carro rodou e bateu de traseira, em ângulo diagonal. Bellof não: escapou reto e em altíssima velocidade rumo ao muro. O impacto foi fatal e o incêndio que o sucedeu, um toque extra de melancolia ao cenário de tragédia consumada. O único registro imagético de movimento  do acidente, que completa 30 anos nesta terça-feira (1º), é o do vídeo abaixo, captado do habitáculo de Ickx:

Com a morte de Bellof, o automobilismo perdeu de forma prematura um dos nomes mais promissores daquela primeira metade dos anos 80. Para alguns fãs mais ferrenhos, apenas um contemporêneo poderia ser equiparado ao teutônico no quesito “talento vindo do berço”: um tal de Ayrton Senna. Nossos amigos do Flat Out chegaram a cravar, neste ótimo texto aqui, que Stefan foi o “maior rival que o brasileiro não teve” na carreira. Muitos conjecturaram situações em que ambos dominariam a F1 entre a segunda metade da década de 80 e boa parte do decênio seguinte.

Tais comparações se dão com tanta carga essencialmente porque o primeiro sinal de brilho de Senna na categoria, o famoso GP de Mônaco de 84, representou também uma atuação de gala de Bellof. Os dois roubaram a cena naquela chuvosa e tempestuosa tarde de domingo no Principado. Algumas testemunhas ousam dizer que foi Stefan, não Ayrton, quem proporcionou o espetáculo maior, e que o alemão tinha ritmo para superá-lo e vencer aquele páreo caso o diretor de provas (que era Jacky Ickx, vejam só) não houvesse finalizado o páreo de forma antecipada.

Teria Bellof estofo para ser um real adversário de Senna en sua carreira? Sabemos que, na prática, esta é uma indagação impossível de ser respondida, mas o objetivo deste texto é tentar esclarecer, até como forma de homenagear os 30 anos do falecimento, qual era o real talento do campeão mundial de resistência em relação a um dos grandes gênios da categoria. Para isso, vamos dividir a análise em três tópicos:

Currículo até 1985

Bellof chegou impondo respeito aos veteranos no famoso Grupo C do Mundial de Resistência
Bellof chegou impondo respeito aos veteranos no famoso Grupo C do Mundial de Resistência

Dois anos e meio mais velho do que Senna, Bellof já era detentor de uma conquista profissional que o paulistano ainda não tinha, o título do aclamado Grupo C do Mundial de Resistência. Ele faturou o certame de 84 competindo pelo time oficial da Porsche, com seis triunfos em 11 etapas. Antes, foi campeão da Fórmula Junior 1.6 Alemã (1980), terceiro na F3 Alemã (1981) e quarto na F2 (1982). Na F1, em duas temporadas incompletas, obteve o famoso pódio em Monte Carlo e marcou pontos em outras quatro oportunidades (vale lembrar que todos os resultados de 1984 foram cassados pela FIA por irregularidades no peso e na mistura de combustível do Tyrrell 012).

Já o futuro tricampeão teve uma carreira mais ortodoxamente voltada aos monopostos: títulos na F-Ford 1.6 (1981) e 2.0 (1982), além da F3 (1983), sempre na Inglaterra. Mais precoce, pulou o estágio da moribunda F2 e ingressou direto na F1 em 84, aos 23 anos. Bellof, curiosamente, debutou na mesma estação, só que aos 26.

Sintoma de que um queimou etapas mais cedo, dada sua capacidade ímpar de se adaptar aos veículos tipo fórmula. Tanto que Ayrton conseguiu rapidamente sair do grupo de times pequenos-médios para a média-grande Lotus, vencendo seus dois primeiros GPs ainda em 85. Stefan podia não apresentar tamanha facilidade, mas era versátil o suficiente para estrear nos protótipos dando calor em gente do calibre de Ickx e Derek Bell.

“Mano a mano” em teste

Bellof durante teste com a McLaren em Silverstone; alemão ficou a 0s7 do tempo de Senna, que treinou no mesmo dia
Bellof durante teste com a McLaren em Silverstone, em outubro de 1983: alemão ficou a 0s7 do tempo de Senna, que treinou no mesmo dia, mas bateu o futuro companheiro de Tyrrell, Martin Brundle, por 0s1

Poucos conhecem este fato, mas Senna e Bellof já mediram forças com um mesmo equipamento: foi num teste realizado pela McLaren, só com novatos, em outubro de 83. O evento se deu em Silverstone e o brasileiro comprovou novamente sua incrível capacidade de extrair rapidamente o máximo de um monoposto: marcou 1min13s9, contra 1min14s6 do alemão. Diferença de sete décimos. Martin Brundle, grande rival de Senna na F3 e outro jovem bem visto à época, também treinou e registrou 1min14s7.

São situações como esta que mostram por que Senna impressionou mais no início de carreira. Nenhum outro iniciante, incluindo Bellof, conseguia adquirir velocidade de maneira tão célere quanto ele.

GP de Mônaco de 84 passado a limpo

Com pista livre, Bellof tirava diferença de Senna; problema era passar os outros carros com a mesma destreza
Com pista livre, Bellof tirava diferença de Senna; problema era passar os outros carros com a mesma destreza

Chegou a hora da verdade. Afinal, Bellof era ou não mais rápido do que Senna naquela corrida? A resposta é um “sim” relativo. Expliquemos: o volante da Tyrrell até conseguia tirar diferença quando ambos tinham pista livre. Contudo, o representante da Toleman era muito mais decidido nas ultrapassagens. Ao longo de 31 voltas, Ayrton passou cinco competidores e jamais passou mais do que quatro giros empacado na mesma posição. Já Stefan superou quatro adversários em pista e chegou a ficar nove passagens preso atrás da ATS de Manfred Winkelhock.

Entre os giros 27 e 31, único momento em que os dois estavam sem ninguém à frente (ocupavam segundo e terceiro postos), Bellof descontou média de 0s877 por volta. Ou seja: ele realmente era mais veloz, só que o maior “sangue nos olhos” de Ayrton para ultrapassar rivais permitiu que a distância chegasse a um pico até confortável de 17s204.

Veredito

Ter um carro com motor aspirado de 510 cv pode ter sido uma vantagem para Bellof em Monte Carlo: com menos torque, alemão tinha um carro mais dócil para pilotar sobre pista molhada; por outro lado, faltava força para superar rivais nas quase inexistentes retas do circuito citadino
Ter um carro com motor aspirado pode ter sido uma vantagem para Bellof em Monte Carlo: com o torque menor e mais linear do Cosworth DFY V8 , alemão tinha um carro mais dócil para pilotar sobre pista molhada; por outro lado, faltava força para superar rivais nas quase inexistentes retas do circuito citadino

Levando em conta tudo o que listamos, podemos dizer que considerar Bellof tão ou mais promissor do que Senna para a F1 é um MITO. Vamos frisar bem aqui a parte em que dissemos “promissor para a F1″. Stefan era inegavelmente talentoso, e estamos longe de afirmar que ele não teria condições de fazer sucesso no principal certame do esporte a motor. Entretanto, o talento puro de Ayrton para esse tipo de competição era mais latente. Ser o melhor no endurance não significa ser o melhor nos monopostos, e o perfil do brasileiro parecia mais alinhado a este último tipo de corrida.

Talvez Bellof precisasse de um pouco mais de tempo e experiência para atingir o nível a que Senna chegou com tanta naturalidade. Talvez ele sequer conseguisse e preferisse focar nas provas de longa duração, onde já vinha fazendo sucesso. Jamais saberemos. A única conclusão concreta que temos é que, se Ayrton foi um ás talhado do início ao fim da carreira para a F1, Bellof era um piloto de corridas no sentido mais amplo, geral e poético do termo.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Guilherme Bezerra

    Modesto, este teste aconteceu antes do final da temporada de 1983 quando Ayrton e Brundle discutiam seriamente o título inglês da F3. Neste teste, infelizmente Senna e Bellof não utilizaram o mesmo equipamento pois, como já tinha uma experiência anterior com F1 – já havia testado com a Williams – , o brasileiro utilizou uma versão mais potente do Cosworth DFV. Ayrton marcou o tempo de 1min13s9 após o almoço, utilizando pneus novos. Antes, com pneus usados, ele havia feito 1min14s3 contra 1min14s6 de Bellof e 1min14s7 de Brundle.

    • Matheus Caires

      Eu não acho a comparação nesse teste justa, pois eles não usavam o mesmo equipamento. Isso mostra na minha opinião como Bellof era também muito rápido, pois conseguiu ficar muito próximo de Ayrton.

  • Claudio Antonio Cesario Dasilv

    Gostei de seu texto principalmente por que ele se baseia em fatos e não tenta demonizar ninguém. Bellof . talvez seja um dos últimos exemplares de piloto Multi ou seja aquele que consegue fazer qualquer carro andar bem. Acho que se tinha condições de ter uma bela carreira na F1 mas fica difícil dizer mais por que é difícil enfrentar um cara que nasce com um enorme talento natural como Senna .

    • Matheus Caires

      Bellof também tinha um enorme talento natural na minha opinião.

  • Gustavo Segamarchi

    Excelente matéria novamente, hein, Projeto Motor!

    Olha, eu acho que o Bellof era muito bom, mas quando vemos o Ayrton Senna correr, podemos perceber que ele pilotava não só como um profissional, mas, ele tinha algo a mais que não sei explicar.

    Em minha opinião, grosso modo, é como se o Senna fosse um anjo vestido de piloto.

    Acho que nunca mais existirá um piloto como o Senna.

    • Obrigado, Gustavo!

      Senna realmente tinha uma personalidade meio única, o que nem sempre era algo bom, haha

      Abraços