Fato ou Mito #5: Timo Glock tirou o título de Massa em 2008?

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A decisão de 2008 é um dos finais de campeonato mais emocionantes de toda história da F1 e certamente será sempre lembrada a cada edição de GP do Brasil ou nova definição de um campeão. E até hoje, ao rever as imagens, muitos torcedores ainda suspiram: “Ah, o Glock”.

Para muitos brasileiros, a culpa de Felipe Massa não ter saído de Interlagos consagrado como campeão daquela temporada é do alemão, que perdeu a posição para Lewis Hamilton na última curva. Sem suspense, essa afirmação é um mito.

A verdade é que se o então piloto da Toyota fez qualquer coisa de diferente naquela prova foi, ao contrário do que muitos dizem, quase dar o título a Felipe Massa, em uma aposta arriscada e que por muito pouco – muito mesmo – não deu certo.

Felipe Massa recebe a bandeirada ao final do GP do Brasil ainda sem saber se era ou não o campeão de 2008
Felipe Massa recebe a bandeirada ao final do GP do Brasil ainda sem saber se era ou não o campeão de 2008

Quem prestou atenção naquelas voltas finais da corrida percebeu. Se você, caro leitor, é daqueles que ainda xingam o Glock por ter deixado Hamilton passar ou simplesmente, tomado pela emoção do momento, não notou o que aconteceu nos metros decisivos da corrida, vamos lembrar aqui, com mais detalhes, para você entender.

O GP do Brasil de 2008, apesar de ter entrado para a história do Mundial como uma das decisões de campeonato mais excitantes, foi um tremendo porre até a cinco voltas do final. A matemática do título era a seguinte: mesmo que Massa vencesse a corrida, Hamilton poderia terminar em quinto para ser campeão. O brasileiro precisava ganhar e torcer para que o piloto da McLaren chegasse no máximo em sexto.

A corrida começou com pista molhada e carros com pneus intermediários. Massa largou na pole, assumiu a ponta e sumiu na frente. Em nenhum momento alguém ameaçou a sua liderança. Já Hamilton, escaldado por erros do ano anterior, resolveu ser mais conservador. Saiu em quarto, segurou a posição e se manteve assim quase a prova inteira.

A pista secou de vez perto da metade da corrida, quando todos passaram para os pneus de seco. Apesar das paradas, as posições eram praticamente as mesmas e seguiram assim por muito tempo.

Volta 52/71:

1º. Felipe Massa (Ferrari)
2º. Fernando Alonso (Renault)
3º. Kimi Raikkonen (Ferrari)
4º. Lewis Hamilton (McLaren)
5º. Sebastian Vettel (Toro Rosso)
6º. Heikki Kovalainen (McLaren)
7º. Timo Glock (Toyota)
8º. Jarno Trulli (Toyota)

Nesta situação, era uma questão de seguir em voo de cruzeiro para Hamilton, que tinha duas posições de sobra para ficar com o título.

Os oito primeiros colocados se mantiveram os mesmos até a volta 65, a seis do final, quando a leve garoa que caía, pareceu ficar mais forte. Alonso, Raikkonen, Hamilton e Vettel partiram para a troca de pneus na 66ª passagem. Massa foi na seguinte. E… as duas Toyotas, de Glock e Trulli, resolveram se arriscar e seguiram em frente.

Assim, as posições passaram a ser:

Volta 68/71

1º. Felipe Massa (Ferrari)
2º. Fernando Alonso (Renault)
3º. Kimi Raikkonen (Ferrari)
4º. Timo Glock (Toyota)
5º. Lewis Hamilton (McLaren)
6º. Sebastian Vettel (Toro Rosso)
7º. Jarno Trulli (Toyota)
8º. Heikki Kovalainen (McLaren)

Ou seja, com o risco assumido por Glock, Hamilton passou a ficar pressionado, não podendo perder qualquer posição (algo que ele ainda não tinha experimentado a corrida inteira) e com Vettel colado na traseira de sua McLaren. E o inglês acabou sucumbido na volta 69, cometendo um erro na Junção, o que o fez perder a quinta posição para o alemão da Toro Rosso.

Para piorar, a aposta de Glock, em um primeiro momento, parecia ter sido acertada, pois a diferença dele para Hamilton nas voltas 68 e 69 subiu de 8 segundos para 15s6. E mesmo na 70, penúltimo giro, em que a margem caiu, cedeu apenas para a casa dos 13s, mostrando que, na maior parte desse período da corrida, o alemão da Toyota estava em condições de se manter tranquilo na pista.

Só que já no final da penúltima volta, a chuva se intensificou. A pequena queda da diferença nesta passagem já mostra isso. E o último giro já foi embaixo de chuva. Glock, com pneus de pista seca, teve que tirar o pé de vez, e perdeu a vantagem de mais de 13 segundos para Hamilton, que conseguiu, assim, a quinta posição para levar o campeonato por 1 ponto.

“Ah, mas o Glock tirou o pé de propósito”, bradam muitos. Bem, vamos então para a comparação direta de tempos volta-a-volta para verificarmos que todos os carros passaram a andar mais devagar, com a diferença que o alemão estava em uma situação ainda pior, de pneus para seco na chuva.

Mesmo com pneu intermediário, o tempo de Massa da volta 69 para a 71 subiu em quase 8 segundos:

V68 – 1min38s670 (saindo do pit)
V69 – 1min19s848
V70 – 1min24s871
V71 – 1min27s721

Tudo bem. Você vai dizer que o brasileiro estava administrando a prova. E faz todo o sentido. Vamos ver os tempos de Hamilton, então, que estava na caçada pela posição:

V68 – 1min19s998
V69 – 1min24s612 (cometeu erro em que perde posição para Vettel)
V70 – 1min25s567
V71 – 1min26s126

Levaremos a volta 68 como referência de desempenho, já que na 69 ele comete o erro e prejudica o seu tempo. Mesmo precisando desesperadamente andar rápido, o tempo de volta de Hamilton sobe 6s2 até a bandeirada. Lembrando, mais uma vez, que ele também estava de pneus intermediários.

Já Glock chegou a ser o piloto mais rápido na pista na volta 68, mostrando que a sua sensibilidade sobre a condição do traçado, naquele momento, estava correta. Mas a queda foi mais intensa com a chuva mais forte, pelo tipo de composto:

V68 – 1min18s816
V69 – 1min24s612
V70 – 1min28s041
V71 – 1min44s731

Isso demonstra que a curva de desempenho do piloto da Toyota foi no mesmo sentido de todos os outros, que também passaram a rodar mais alto, por conta da chuva. Só que, no final, o alemão estava com pneus de pista seca, o que fez com que no último giro, mesmo com todos andando mais de 6 segundos mais lento, ele fosse superado com facilidade. Se a garoa da volta 68 se mantém por mais cinco minutos antes de ficar mais forte, Massa seria, certamente, o campeão de 2008. E graças ao Glock.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Gustavo Segamarchi

    Muito legal a explicação. Lá por 2009, já se falava que a culpa não foi do Glock, e que o Massa havia perdido o título por alguns erros do próprio Massa da Ferrari,como em Cingapura, por exemplo.

    Em 2008, já deu para perceber quem seria Lewis Hamilton. Uma pena a Ferrari ter feito o que fez posteriormente para defender o Alonso.

  • Diogo Rengel Santos

    Bom recordar esta história… Eu lembrava que o Glock foi o único a ter permanecido com os pneus…

    Pena que mesmo com os pneus muitos ainda vão ficar naquela de “titulo entregue”, mesmo diante dos fatos…