Fato ou mito #6: Derrota para Button foi a primeira de Alonso contra um companheiro?

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Não dá para negar que Fernando Alonso teve um ano para esquecer em 2015. Se o bicampeão esperava iniciar um projeto que se mostrasse ao menos promissor com o conjunto McLaren-Honda, o que se viu foi o contrário: a temporada foi marcada por vários momentos constrangedores e até mesmo cômicos para o espanhol.

Seguramente, Alonso não vai se esquecer tão cedo das várias ultrapassagens que recebeu, das falhas mecânicas intermináveis e das declarações polêmicas no rádio, inclusive comparando a unidade de potência japonesa com um “motor de GP2”. E, para piorar, Alonso ficou em um discreto 17º lugar na tabela geral, imediatamente atrás de seu companheiro de equipe, Jenson Button, que anotou cinco pontos a mais.

Ver Alonso, um dos grandes pilotos de sua geração, ficar atrás de um colega de time não é algo exatamente comum. Mas foi a primeira vez que isso aconteceu na vitoriosa carreira do espanhol? Para responder à pergunta, vamos relembrar rapidamente como Fernando se saiu em seus duelos internos.

O INÍCIO

Alonso teve Marques como primeiro companheiro de equipe
Alonso teve Marques como primeiro companheiro de equipe

Em sua primeira temporada na F1, Alonso inicialmente dividiu a garagem da Minardi com Tarso Marques. O brasileiro alega que o espanhol contava com um equipamento mais competitivo, especialmente por ter um suporte financeiro mais robusto. Independentemente disso, Alonso obtinha no geral desempenhos de maior destaque, frequentemente disputando posições com os carros da frente, como Prost e Benetton.

Marques, porém, conquistou os dois melhores resultados da Minardi naquele ano, com dois nonos lugares. Nas últimas três etapas, o paranaense foi substituído pelo malaio Alex Yoong, que não conseguiu oferecer resistência alguma a Alonso.

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Depois de um 2002 dedicado a testes, o espanhol retornou às corridas na Renault, ao lado de Jarno Trulli. A primeira temporada juntos teve boa vantagem de Alonso, que ficou confortavelmente à frente na pontuação (55 a 33) e venceu a única da equipe francesa naquele ano, na Hungria.

Em 2004, a situação foi diferente. Trulli se encontrou com o R24 e incomodou muito mais o espanhol, que mostrava sentir o baque com alguns erros de pilotagem. O italiano venceu uma prova, em Mônaco, enquanto que Alonso passou a temporada em branco.

Alonso pode discordar, mas ele foi superado por Trulli em 2004 (Divulgação)
Alonso pode discordar, mas ele foi superado por Trulli em 2004 (Divulgação)

No GP da França, Trulli cometeu um vacilo que se mostrou fatal: na casa da Renault, perdeu uma posição na penúltima curva da corrida ao ser ultrapassado por Rubens Barrichello. Dali em diante, a situação entre o italiano e a equipe nunca mais foi a mesma, o que culminou em sua dispensa após a corrida em Monza, quando tinha um ponto a mais que Alonso na tabela.

Nas três provas finais do ano, Trulli foi substituído por Jacques Villeneuve, que não havia competido até então em 2004. Naturalmente, o canadense foi presa fácil para Alonso, que chegou à frente em todas as provas.

ANOS DE TÍTULO

Soberano dentro da Renault, Alonso conquistou dois títulos mundiais sem resistência alguma de seu novo companheiro de time, Giancarlo Fisichella. O espanhol marcou mais que o dobro de pontos do colega em 2005, sendo que a vantagem em 2006 também foi grande (134 a 72).

Contrariando os prognósticos, Hamilton bateu Alonso em 2007
Contrariando os prognósticos, Hamilton deu trabalho a Alonso em 2007

Já em 2007, Alonso vivenciou a tão comentada temporada ao lado de Lewis Hamilton na McLaren. A disputa interna foi intensa, repleta de momentos controversos que já são conhecidos do fã de automobilismo. No fim, ambos terminaram com o mesmo número de pontos, 109.

Vacinado com a experiência turbulenta em Woking, Alonso reinou fácil sobre seus companheiros de equipe no retorno à Renault: passou por cima de Nelsinho Piquet e Romain Grosjean sem dificuldades. O mesmo aconteceu na Ferrari, nos quatro anos contra Felipe Massa e a temporada única ao lado de Kimi Raikkonen.

Por fim, veio o ano do retorno à McLaren, quando Button pontuou por quatro vezes, contra duas do espanhol, ficando, no fim, 16 a 11.

O VEREDITO

No passado, próprio Alonso se gabava de uma maneira peculiar a respeito dos duelos contra seus companheiros de equipe. “Nunca ninguém terminou uma temporada com mais pontos que eu com o mesmo carro”, dizia.

Repare só nas palavras utilizadas pelo espanhol. Ele não declarava que “não foi superado por um companheiro de equipe”, nem mesmo que “nunca havia terminado um campeonato atrás de um colega”. Alonso selecionava cuidadosamente as palavras para valorizar seus feitos na pista.

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E, de certa forma, ele dizia a verdade. Até 2015, de fato, nenhum de seus companheiros havia terminado uma temporada com mais pontos que ele. Porém, é importante que o leitor entenda que isso é bem diferente de dizer que Alonso nunca havia sido superado por um companheiro de equipe.

Alons
Alonso e Button sofreram com o carro da McLaren em 2015

O ano de 2004 sempre é lembrado como aquele em que Alonso foi deixado para trás por um colega. Trulli fez bom uso de sua maior experiência e coletou os melhores resultados para a Renault, enquanto que Alonso pagava pela juventude com erros importantes, como em Mônaco ou nas classificações na Malásia e Bahrein, que lhe fizeram largar do fundo do grid.

Até a corrida da França, o italiano tinha 13 pontos a mais no campeonato; depois disso, Trulli, enfraquecido internamente, permaneceu zerado, mas Alonso não fez o suficiente para superar seu colega na tabela. O espanhol só o ultrapassou nas provas seguintes, quando Jarno já havia mudado para a Toyota. Porém, nas 15 provas que correram com o mesmo equipamento em 2004, Trulli ficou à frente nos pontos de forma merecida.

Em 2007, Alonso teve batalha muito parelha com Hamilton, sendo que ambos se alternavam na posição de dominância no duelo. Porém, critérios de desempate existem justamente para evitar que dois competidores fiquem exatamente na mesma posição ao fim de um campeonato. Hamilton, graças a um segundo lugar a mais no ano, foi o real vice-campeão de 2007, com Alonso logo atrás, em terceiro.

Para ser justo, é verdade que muitos podem contestar a derrota de Alonso em 2015, já que o espanhol ficou na mão na prova que sacramentou o resultado do duelo. O bicampeão vinha em um bom quinto lugar nos Estados Unidos, à frente de Button, mas teve problemas mecânicos, o que abriu espaço para que o inglês anotasse oito pontos decisivos.

Contudo, Alonso não foi superado pela primeira vez por um companheiro – isso é um mito. O que o espanhol em 2015 perdeu foi a única brecha argumentativa que lhe restava a respeito de seus duelos internos.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Bruno de Oliveira

    Que sono!

  • Raphael Pinheiro

    Apesar da ressalva feita sobre o fato de Trulli “não ter terminado a temporada” e por isso servir de escape nas palavras do próprio Alonso sobre ter sido superado ou não, creio que isso joga ainda mais contra o próprio argumento dele, visto que o ex-companheiro correu menos corridas que o espanhol e ainda assim foi superior… mas em relação ao veredicto final, nenhuma polêmica, é isso mesmo!