Um papo com Felipe Massa: chegada à Fórmula E exige “mudança completa no jeito de guiar”

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Um novo capítulo está prestes a começar para carreira de Felipe Massa. Depois de 15 temporadas na F1, o brasileiro iniciará neste fim de semana sua trajetória na Fórmula E, categoria que entra em seu quinto campeonato.

Massa, de 37 anos, visualizava ainda em seus dias de F1 seu futuro no certame de carros elétricos. E de fato não foi da boca para fora: um contrato de três anos com a equipe Venturi indica que realmente há o planejamento em médio prazo com o objetivo de fincar raízes na nova casa.

Apesar de se tratar de uma figura com bagagem vasta e currículo recheado, Massa terá um duro desafio pela frente. A equipe Venturi ainda busca seu espaço entre as protagonistas da Fórmula E, já que a primeira vitória ainda não veio.

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No entanto, antes de pensar em qualquer possibilidade de lutar por posições de destaque, Massa precisará fazer sua própria tarefa de casa. Afinal, a transição para a Fórmula E representa uma mudança considerável, uma vez que a categoria possui diferenças técnicas e esportivas em relação a tudo aquilo com que o piloto estava acostumado.

Em papo exclusivo por telefone com o Projeto Motor (cujo trecho foi publicado em nosso podcast especial sobre a temporada de 2008 da F1), Massa detalhou seu processo de adaptação à nova realidade – e se mostrou satisfeito com o que pôde fazer antes do início do campeonato.

Divulgação/Fórmula E

“O mais importante, a adaptação mais difícil é a corrida”, explicou. “Em classificação é questão de tentar tirar o máximo do carro, frear o mais tarde possível, fazer a curva melhor, tentar virar o tempo mais rápido, usar o carro da maneira perfeita. Isso é igual em qualquer tipo de categoria. Mas, na corrida, temos que tentar fazer a corrida mais eficiente possível, gastar o menos de bateria. Temos de mudar completamente o jeito de guiar.”

“Mas, para falar a verdade, consegui fazer bons tempos, ser constante em simulação de corrida, gastando o número certo de baterias. Até o momento, consegui me adaptar bem.”

Massa terá parâmetros de comparação distintos na temporada 2018/2019. Além de Edoardo Mortara, seu parceiro de equipe, o brasileiro também ficará de olho nos carros da HWA Racelab, de Gary Paffett e Stoffel Vandoorne, com quem a Venturi compartilha seu trem de força.

Só que também há uma novidade que exigirá adaptação de todos, sejam os veteranos ou os novatos. A Fórmula E estreará um novo modelo, o Gen2, que é mais rápido do que seu antecessor e capaz de completar toda a distância de corrida com uma única bateria – o que elimina o pitstop para troca de carros como acontecia habitualmente.

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Para Massa, isso representa pontos positivos, embora a novidade também exija cuidados. “Até o campeonato passado era até um pouco mais fácil, porque eram dois carros [por piloto]. Neste ano, qualquer batida te tira bastante tempo de pista”, observa.

Divulgação/Fórmula E

Nos testes de pré-temporada, realizados em uma versão modificada do traçado de Valência, na Espanha, Massa terminou com o oitavo lugar nos tempos combinados, acumulando mais de 600 km com o carro. O líder foi Antonio Félix da Costa, da BMW, um dos times que Massa coloca como potencial favorito.

“Não acredito que a nossa equipe seja a mais competitiva no momento, até por ter tanta coisa nova, tanto desenvolvimento que precisa ser feito”, analisou.

“Vi a Audi muito bem, o que já imaginava por eles terem terminado o campeonato passado com um carro muito competitivo e eficiente, e a BMW – acho que a BMW foi a equipe que mais impressionou neste momento. Então, acho que tem muita coisa a ser desenvolvida na minha equipe.”

Confira a entrevista com Felipe Massa:

Como tem sido seu processo de adaptação à Fórmula E, agora você já está há alguns meses trabalhando com a equipe e com a pré-temporada completa?

Acho que a adaptação que tive desde o começo até agora foi positiva, para falar a verdade, desde o primeiro treino que fiz antes de Valência. Lógico que Valência foi uma situação em que era interessante entender como que eu estava me comparando com outros carros, com outros pilotos, meus companheiros de equipe – porque, na verdade não é só o Mortara, mas os pilotos da HWA também. Acho que minha atuação contra os meus companheiros foi bem positiva.

Acho que a gente conseguiu ser rápido, constante, competitivo em todos os tipos de situação – não só em classificação, não só em corrida, mas também na chuva, em que eu estava sempre muito rápido. Toda hora que eu estava na pista [no molhado], estava entre os três mais rápidos. Aí, no final, a pista acabou secando um pouco e tinha acabado a bateria do meu carro, então não fiz os últimos 15 minutos, quando a pista estava mais rápida.

A  pré-temporada foi a sua única chance de dividir a pista com outros pilotos e outras equipes. O que a experiência te mostrou sobre sua própria situação e a situação da Venturi?

Consegui fazer bons tempos e ser competitivo na maior parte do tempo. Lógico que ainda é um aprendizado muito grande para mim. É difícil entender como estamos nos comparando com as outras equipes – acho que tem equipe ainda melhor do que a gente. Estamos só no começo do desenvolvimento da equipe, principalmente com a entrada do pessoal da Mercedes. Tem muita gente nova, muita coisa para melhorar e desenvolver ainda. E outra: as pistas em que a gente andou não se comparam com as pistas em que vamos correr. Eu não conheço nenhuma pista, então continua sendo um aprendizado grande para mim, mas estou satisfeito até agora.

Divulgação/Fórmula E

Você também mencionou a dificuldade que existe para traçar a relação de forças entre as equipes. Mas o quão às cegas vocês estão para essa primeira etapa?

A única comparação que a gente conseguiu fazer é em cima de Valência. No primeiro dia eu fui 10º; no segundo, fui quinto… Na chuva fui muito bem, sempre entre os três primeiros. Na simulação oficial de corrida, eu até tive um problema: estava atrás de quatro carros, e dois deles bateram na minha frente, na chicane, e eu acabei tocando no carro da frente e tive que parar depois de dez voltas.

Mesmo assim, não dá para saber exatamente se os resultados que a gente teve refletem a realidade, especialmente por ser uma pista completamente diferente. Não se compara com aquilo que a gente vai encontrar nas pistas de rua. Isso faz uma diferença muito grande.

Mas não acredito que a nossa equipe seja a mais competitiva no momento, até por ter tanta coisa nova, tanto desenvolvimento que precisa ser feito. Mas não era ruim, não é que a gente estava lento comparando com os melhores. Vi a Audi muito bem, o que já imaginava por eles terem terminado o campeonato passado com um carro muito competitivo e eficiente, e a BMW – acho que a BMW foi a equipe que mais impressionou neste momento. Então, acho que tem muita coisa a ser desenvolvida na minha equipe.

A Fórmula E como um todo é muito diferente daquilo com que você está acostumado – não só o carro, mas a própria dinâmica de corrida em si. Quais são os principais fatores que te causaram maior contraste?

Divulgação/Fórmula E

O mais importante, a adaptação mais difícil é a corrida. Em classificação é questão de tentar tirar o máximo do carro, frear o mais tarde possível, fazer a curva melhor, tentar virar o tempo mais rápido, usar o carro da maneira perfeita. Isso é igual em qualquer tipo de categoria. Mas, na corrida, temos que tentar fazer a corrida mais eficiente possível, gastar o menos de bateria. Temos de mudar completamente o jeito de guiar, a trajetória para entrar na curva, você arranca o pé no meio da reta, praticamente, usa o freio regenerativo para recarregar um pouco a bateria… Só que você tem que fazer isso no tempo certo, sem perder tempo algum na curva. Isso é uma mudança muito grande comparando com as outras categorias, o que eu não imaginava.

Mas, para falar a verdade, consegui fazer bons tempos, ser constante em simulação de corrida, gastando o número certo de baterias. Até o momento, consegui me adaptar bem.

Tem outras coisas diferentes também: entender o pneu “de rua”, já que ele esquenta muito rápido. Conseguir entender bem a temperatura do pneu para conseguir prepará-lo para a volta de classificação, não esquentá-lo demais na corrida… Tudo isso é uma experiência diferente, também.

Uma coisa que muitos pilotos estranham quando chegam à Fórmula E é o comportamento dos freios. O Gen2 tem o brake by wire, que em tese deixa o freio menos imprevisível do que o carro antigo, que você também já tinha experimentado. Você percebeu uma melhora nesse sentido?

Sim, acho que é um pouco mais inteligente. Não é que é fácil – ainda é muito fácil travar a roda, tanto a dianteira quanto a traseira. Na verdade, o freio é mais inteligente no sentido de que não precisa ficar mexendo nele a todo momento, mas, mesmo assim, tem que mexer bastante. Mas o problema maior é que o carro não tem aderência, então a chance de travar roda, de sofrer um pouco em freada continua sendo um dos pontos principais para se adaptar e para desenvolver um freio o tempo inteiro na equipe. Tem muito trabalho eletrônico para você fazer o freio funcionar da maneira perfeita para chegar no ponto mais eficiente possível. Mas é melhor e um pouco mais fácil do que o carro antigo.

E há um ponto importante que você já mencionou, dos circuitos. Você não conhece nenhum, sendo que são circuitos de rua. Como se adaptar a isso? A programação da categoria é toda condensada em um só dia, ou seja, você precisa aprender muito rápido…

Muito rápido e sem arriscar, porque a batida tira você dos treinos e acaba com a chance de pegar o jeito da pista o mais rápido possível. Até o campeonato passado era até um pouco mais fácil, porque eram dois carros [por piloto]. Neste ano, qualquer batida te tira bastante tempo de pista. Então, tem muitos detalhes importantes quanto ao fim de semana e à dinâmica dos treinos, classificação e corrida também.

Em maio, o Projeto Motor analisou: o que esperar de Massa na F-E?

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.