Ferrari fez trapalhada maior do que se pensava na marmelada da Áustria

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Que o GP da Áustria de 2002 foi um dos momentos mais vergonhosos para a história da Ferrari, todo mundo já sabe. Porém, um pequeno trecho de um vídeo divulgado pela F1 nesta semana indica que a trapalhada da equipe na gestão do episódio pode ter sido ainda maior do que se imaginava.

Mesmo depois de tanto tempo, o ocorrido ainda é cercado de mistério. Como não haviam na época mensagens de rádio na transmissão de televisão, até hoje não se sabe exatamente qual foi o teor da conversa entre Jean Todt, então chefe da equipe, e Rubens Barrichello.

O que se tinha de informação até agora é que a Ferrari, como já havia feito no ano anterior, pediu a Barrichello que cedesse a posição a Michael Schumacher. Já o brasileiro, em sua versão, afirmou que debateu o assunto por oito voltas com a equipe, e que só abriu caminho nos metros finais porque “entrou na penúltima curva decidido a não deixar passar”.

Os detalhes, promete Barrichello, serão revelados em um livro que pretende lançar futuramente. De qualquer forma, o fato de a troca de posições ter ocorrido nos instantes derradeiros da prova escancarou ainda mais a polêmica e provocou reações furiosas de todo o mundo.

O vídeo divulgado pela F1

Nesta semana, como preparativo para o GP da Áustria de 2017, a F1 publicou em suas redes sociais um vídeo que mostra alguns dramas vistos na história da prova. As plataformas não permitem a incorporação do material neste artigo, mas você pode encontrá-lo aqui.

O trecho em questão está em 1min15s. Nele, é possível ver Todt dizendo: “Na última curva, o deixe passar”.

Todt

É o único trecho da conversa de fato disponibilizado até hoje. Não se sabe o que houve no diálogo antes e depois deste pequeno fragmento.

Ao analisar o monitor atrás de Todt, com a posição dos gráficos e por ter uma Jordan à frente de uma McLaren, é provável que isso tenha acontecido na volta 68, a quatro para o fim.

voltas2

Como já mencionamos, o trecho está fora de contexto, então não dá para saber com exatidão o teor da conversa. Porém, com o passar dos anos, ficou claro que a revolta pública pelo episódio havia ficado muito mais inflamada justamente por ter ocorrido na última curva – ou seja, em vez de um piloto triunfando na bandeirada, o que se viu foi uma ordem de equipe um tanto quanto desnecessária esfregada na cara de todos.

Concluía-se que Barrichello apenas deixou a passagem para última hora tanto por sua indecisão quanto, como ele diria anos depois, para que o mundo visse o que só ele via da Ferrari. Uma atitude de um funcionário insatisfeito, que queria expor a todos, da forma mais clara possível, as saias justas que ele passava internamente.

Mas, ao que tudo indica, o próprio Todt não via com maus olhos a troca nos metros finais. Pelo contrário: mesmo ainda com quatro voltas pela frente, ele mesmo sugeriu a ultrapassagem na última curva, contanto que a ordem fosse cumprida. Ou seja, o dirigente, que deveria ser o primeiro a tentar zelar pela reputação da equipe, se deixou levar apenas pelo resultado desejado e ignorou o buraco em que isso colocaria a Ferrari em termos de imagem.

Torcida ficou enfurecida com a troca de posições na última curva
Torcida ficou enfurecida com a troca de posições na última curva

Vai além da falta de bom senso pela ordem em si: também, aparentemente, houve falta de cuidado para evitar que as coisas fossem realizadas da forma mais escancarada possível. Obviamente, uma troca de posições três ou quatro voltas antes ainda assim teria uma má repercussão (o episódio envolvendo Alonso e Massa na Alemanha, em 2010, está aí para provar). Mas, por ter sido da forma que foi, o GP da Áustria de 2002 foi muito mais do que uma corrida controversa: foi um vexame histórico.

A reviravolta nos metros finais foi um tapa na cara do público, especialmente em um caso em que já havia grande expectativas pelo que ocorrera no ano anterior. Houve certa dose de drama para saber qual seria o desfecho desta vez. A Ferrari mostraria sangue frio e repetiria o episódio de 2001, ou a situação seria mais correta?

A expectativa e drama terminaram em frustração. Todt, como bom gestor, deveria saber que a repetição da manobra na última curva teria efeitos avassaladores, mas ele não só não tentou evitá-la, como ele próprio sugeriu que fosse assim. Sua preocupação com a reação do público, que já parecia ser quase nula, se mostrou ainda menor com as imagens do trecho divulgado.

Talvez um dia saberemos com detalhes o que se passou nos bastidores daquele fatídico GP da Áustria de 2002. O trecho em questão, por mais curto que seja, já é suficiente para levantar questionamentos sobre a mentalidade de Todt e até mesmo sobre a atitude de Barrichello, que dizia por anos que a decisão de deixar tudo para a última hora havia partido somente de si. Mas, mesmo tanto tempo depois, a situação consegue ficar ainda pior do que já era.

Adendo: Muitos internautas nas redes sociais da F1 questionaram as imagens usadas na edição do vídeo – até porque a categoria, em uma licença poética um tanto quanto maliciosa, inseriu um trecho de Michael Schumacher comemorando sua vitória na Áustria em 2003 como se fosse na edição realizada em 2002.

Alguns, inclusive, disseram que a ordem de Todt usada no vídeo havia sido a do GP da Áustria de 2001, quando Barrichello deixou Schumacher passar pelo segundo lugar. No entanto, as imagens dos monitores, bem como patrocinadores nas roupas dos engenheiros (como a Vodafone, que não estava na Ferrari em 2001), deixam claro que, de fato, é um trecho de 2002 que não havia sido amplamente divulgado até então.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • godThunder

    Dois poréns.
    1º é que o Rubinho deixa o Schumy passar na reta de chegada quase em cima da linha e não na ultima curva.
    2º a unica coisa que aparece no video é, “a última curva, o deixe passar”, em nenhum momento é falado em qual volta. Como o Rubens falou que ele vinha discutindo isso com o Todt, ele Todt poderia ter enfatizado pra ele deixar passar naquela volta em que estavam, na ultima curva, onde ha uma pequena reta antes da curva da reta dos boxes e como apurado no video parece ser mesmo 4 voltas antes do fim.

    Em fim, só achismo mesmo pela falta de mais fatos, mas pela distancia de 4 voltas ainda pro fim da corrida, ainda acredito que a ordem era pra ser cumprida naquela volta.

    • Fala, godThunder.

      Nós chegamos a pensar nessa possibilidade (de ele se referir à última curva do circuito, e não última curva da corrida) enquanto discutíamos a pauta, mas, por alguns motivos, concluímos que isso não faz muito sentido.

      Primeiro, não vejo por que o Todt especificaria exatamente o ponto da pista para a troca de posição – especialmente em uma curva que não é nada propícia para ultrapassagens. Se a ideia era que a posição fosse cedida naquela volta, a curva em si faria pouca diferença.

      Naquele momento, o Barrichello tinha uma vantagem confortável para o Schumacher, superior a 3s. Não me parece provável que, em um contexto assim, o Todt se preocuparia em citar a curva exata para a troca de posição.

      Além disso, na F1 existe há algum tempo aquele hábito de se referir às curvas pelo número delas – naquele caso, seria a Curva 9. Ou seja, “Last Corner” deve se referir mesmo à última curva da corrida.

      Abraços

      • godThunder

        Beleza Bruno!!!
        Entendo teu ponto de vista e acho bem coerente teus argumentos.

        O que me causa duvida, seria mesmo pelo tempo que ainda restava de prova e como Rubens havia dito que debateram por 8 voltas sobre o assunto ao seja começou 4 voltas antes do audio ser gravado, talvez o Todt tenha dado um ultimato naquela volta.

        Também penso que Todt é imbecil, mas seria tão burro assim de mandar ceder na ultima curva da ultima volta??? Isso com certeza causaria um grande mal estar como se viu que aconteceu e repercute até hoje.

        Mas é pura especulação, vocês podem estar corretíssimos na analise do que se passou.

  • Anderson Brandão Pinna

    A comemoração do Schumacher foi sim em 2002, acabei de rever o vídeo. Inclusive ele é criticado pelo Cléber Machado por estar comemorando.

    • Fala, Anderson. A cena que a F1 usa no clipe é de 2003, e isso dá para ver pela distância que o Schumacher passa da mureta dos boxes (aquela com patrocínio da A1) comemorando. Em 2002, ele passa bem distante e não comemora de forma tão efusiva. Ele comemora de forma tímida em 2002, mas o que colocaram no vídeo foi a imagem do ano seguinte.

  • Gustavo Segamarchi

    Ótima matéria, Projeto Motor. Está muito prazerosa a leitura.

    Esse dia fatídico é até hoje lembrado por quem nem se liga em F1. Esses no trabalho, eu comentei que teria o GP da Áustria, e, justamente, um colega de trabalho que nem assiste F1 lembrou desse episódio.

    Esse livro do Rubinho, sem dúvidas, será leitura obrigatória para todo fã de F1 e automobilismo.

    • Muito obrigado, Gustavo! Você estava sumido, mas é sempre bacana ter os seus comentários por aqui!

  • Antonio Manoel

    Esse é um caso que merece explicações sem dúvidas e aguardo ansiosamente pelo dia em que elas serão trazidas, talvez no livro do Barrichello, mas acredito que este só virá no final da carreira dele, o que pelo que imagino demorará bastante para ocorrer considerando o amor do Rubens pela velocidade, acelerando como se ainda tivesse 20 anos de idade…

    Sobre o caso da Austria, tem um vídeo que mostra Jean Todt dando a ordem ao brasileiro, porém em 2001 com as palavras “Rubens, deixe Schumacher passar pelo campeonato”…

    • Exatamente, esse vídeo de 2001 já havia sido divulgado há alguns anos. Inclusive, quando a F1 montou a primeira versão desse clipe de agora, ela havia usado essa imagem aí. Depois ela tirou o vídeo do ar e corrigiu o trecho, inserindo uma imagem de 2002.

      • Antonio Manoel

        Acho curiosa essa mudança, visto que ambos os casos foram bem similares e podem ser facilmente confundidos sendo vistos tanto pelas câmeras da corrida quanto pela câmera apontada para Todt, qual seria a correção feita nessa chamada, visto que um episódio foi trocado por outro bem parecido?
        E também acho curioso a necessidade de a Ferrari marcar esses pontos com Schumacher no mesmo GP e em anos seguidos, visto que em ambos os anos, não estava nem na metade da temporada em andamento (em ambos os anos, o GP da Hungria era o 6º de 17 provas no total), além de ter repetido o feito que caiu mal, o repetiu no mesmo palco, e nem era um GP da Italia para a ação se justificar… ou tinha e não to sabendo?

        • Acho que eles devem ter trocado justamente porque muita gente já havia visto esse clipe de 2001 e sabia que não era do episódio que eles estavam tentando retratar.

          A troca de posições de 2001 pode ser questionada, mas ela é bem mais justificável do que de 2002. Naquele ano e naquele momento do campeonato, o Schumacher ainda tinha de lidar com a ameaça do Coulthard, que havia justamente vencido na Áustria. Caso não tivesse havido a mudança, o Coulthard sairia de Spielberg apenas dois pontos atrás do alemão…

          A Ferrari temia que esses pontos fizessem diferença no fim, então, por isso, pediram pela troca. Em 2002 não era o caso – o Schumacher estava avassalador, a Ferrari tinha ampla vantagem de rendimento aos concorrentes e o rival mais próximo, o Montoya, estava 20 pontos atrás… Era bem menos justificável.

          • Antonio Manoel

            Entendi… Realmente, o caso de 2002 foi bem mais condenável do que o de 2001, o curioso mesmo é terem repetido o ato em 2002 tendo vantagem em relação à concorrência e no mesmo GP…

            Agradeço demais pelas justificativas (sem falar dos excelentes debates e bate prontos e do próprio site – que é excelente)!!