Ferrari só ganha quando comandada por não italianos? | Fato ou Mito #11

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Já faz um tempo que a afirmação de que a Ferrari só se dá bem na F1 quando liderada por dirigentes não italianos tem circulado na boca de muita gente. A questão, no entanto, tem pouco embasamento estatístico e até uma ponta de preconceito em relação ao estilo do povo do país da bota.

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A teoria voltou a ser comentada nos últimos tempos, já que o time não tem repetido os sucessos do começo dos anos 2000 desde que voltou a ter dirigentes do país, com a sequência de Stefano Dominicali, Marco Mattiacci e o atual comandante, Maurizio Arrivabene.

Sim, é realidade que o período mais importante e vencedor da Ferrari, entre 2000 e 2004, teve como chefe de equipe um francês, Jean Todt, com um inglês, Ross Brawn, na chefia técnica, e um sul-africano, Rory Byrne, como projetista. Porém, a afirmação de que isso é uma regra e não uma exceção é desconsiderar todo o incrível passado da escuderia, que nesta época já era um dos times mais carismáticos e vencedores da F1.

Isso é fácil de identificar pelo fato de Todt ter sido apenas o segundo não italiano a ser chefe da Ferrari na história, depois do suíço Peter Schetty, que administrou os times de F1 e esporte-protótipos da marca por um curto período entre 1971 e 72. O francês assumiu durante a temporada de 1993 e ficou até o final de 2007. São 15 temporadas completas com seis títulos de pilotos e oito de construtores. Um ótimo aproveitamento, realmente.

Jean Todt e Michael Schumacher, que junto com Ross Brawn e Rory Byre lideram o período de ouro da Ferrari nos anos 2000
Jean Todt e Michael Schumacher, que junto com Ross Brawn e Rory Byre lideram o período de ouro da Ferrari nos anos 2000

Para se ter ideia do quão importante foi essa era para a escuderia, entre 1958, quando o campeonato de construtores foi instituído, e 92, a Ferrari ganhou a mesma quantidade de construtores: oito. Tudo bem que isso significa muito, porém o time teve uma história antes disso.

Entre 1975 e 83, por exemplo, sempre liderada por italianos, entre eles Luca di Montezemolo, a Ferrari conquistou seis campeonatos de construtores e três de pilotos. São ótimos oito anos também, superando ainda a trágica temporada de 82, em que perdeu dois pilotos postulantes ao título (Gilles Villeneuve morreu e Didier Pironi sofreu graves lesões nas pernas que o tiraram da F1).

Isso sem considerar que, mesmo antes da formação do campeonato de F1, a equipe foi liderada do nada pelo empreendedor Enzo Ferrari, que saiu de outra empresa italiana, a Alfa Romeo, para criar uma das marcas mais incríveis do mundo. 

Ainda sob supervisão de Enzo Ferrari, Montezemolo foi um chefe importante na volta da Ferrari ao topo da F1 nos anos 70
Ainda sob supervisão de Enzo Ferrari, Montezemolo foi um chefe importante na volta da Ferrari ao topo da F1 nos anos 70

Importante destacar também que até os anos 80 a Ferrari era uma fábrica de talentos italianos na área de engenharia também. Aurelio Lampredi, Vittorio Jano, Carlo Chiti, a grande fase dos modelos 312T de Mauro Forghieri nos anos 70, até que os estrangeiros começassem a chegar à equipe. O primeiro a assinar um modelo em Maranello, em 1982, foi o inglês Harvey Postlethwaite, trabalhando, contudo, em parceria com Forghieri, que ficou responsável pela aerodinâmica.

Cinco anos depois, foi a vez de outro britânico, John Barnard, em parceria com o austríaco Gustav Brunner. Os anos 80 de Postlethwaite e Barnard, porém, acabaram marcados por uma fase de baixa e sem títulos pela Ferrari. A escuderia, então, resolveu contratar o ex-McLaren, responsável pelo lendário MP4-4, Steve Nichols, que permaneceu até 93, quando a crise se agravou ainda mais.

Barnard retornou a Maranello para 94, porém, sem bons resultados, acabou dispensado em 97 para dar lugar a Ross Brawn e Rory Byrne, que chegariam vindos da Benetton a pedido de Michael Schumacher. O resto é história.

O italiano Mauro Forghieri foi um dos principais engenheiros e diretores técnicos da história da Ferrari e da F1
O italiano Mauro Forghieri foi um dos principais engenheiros e diretores técnicos da história da Ferrari e da F1

Em 2006, um novo italiano volta a surgir para rapidamente assumir o corpo técnico: Aldo Costa. E na temporada seguinte, sua primeira como líder do projeto, ele leva a Ferrari a novo título mundial de pilotos, com Kimi Raikkonen, e um bicampeonato entre construtores em 2007 e 08.

A falta de novos resultados fez com que a escuderia demitisse Costa, de forma polêmica, ao final de 2011, para voltar a apostar em ingleses: Pat Fry, seguido por James Allison, que também não conquistaram títulos. Desde 2015, Mattia Binotto, suíço naturalizado italiano, assumiu os projetos e revigorou a área do time, o colocando de volta à luta por vitórias e títulos. Costa, demitido da Ferrari no começo da década, é o projetista da Mercedes desde 2013 e responsável pelos carros dos últimos títulos em sequência da equipe alemã.

Por isso tudo, como a história mostra, cuidado ao criticar a administração “italiana” da Ferrari. O time já colheu frutos com estrangeiros, mas também construiu a maior parte de sua vitoriosa história com dirigentes e engenheiros de seu próprio país. Uma verdadeira squadra nacional.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.