Fiasco de dez grandes montadoras na F1 assombra a Honda – parte 2

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Na primeira parte do especial que mostra dez exemplos de grandes montadoras que já amargaram grandes fiascos na F1, em referência às agruras enfrentadas pela Honda em seu ao certame, como fornecedora de motores da McLaren, o Projeto Motor lembrou as fracassadas histórias de Alfa Romeo (no caso, a passagem entre os anos 70 e 80), Aston Martin e Bugatti.

Neste segundo texto, é hora de rememorar a desorganização da Ford à frente da Jaguar, a péssima passagem da Lamborghini (com direito a um vexatório calote) e os planos mal-sucedidos da Peugeot para ser a grande rival da Renault nos anos 90. Como se pode ver, ninguém está imune: nem marcas generalistas, nem aquelas especializadas em superesportivos de milhões de dólares. Veja:

Ford – desorganização fez Jaguar virar um bichano inofensivo

Engenheiros  conseguiram proeza de transformar equilibrado Stewart SF-3 no arisco Jaguar R1, mesmo mantendo traços semelhantes
Jaguar conseguiu proeza de transformar equilibrado Stewart SF-3 no arisco R1, mesmo mantendo traços

Os opíparos decalques com o emblema da Ford na carenagem da Stewart não eram em vão. Quando Jac Nasser assumiu o controle da companhia americana, em 97, tomou como fulcral a necessidade de se comprometer com a F1. Por isso, tornou-se parceiro oficial do time de Jackie Stewart e, em meados de 99, comprou de vez a escuderia.

Stewart virou Jaguar – marca inglesa de automóveis de luxo e desempenho que pertencia ao grupo na época -, e nomes de peso como Gary Anderson (diretor técnico) e Eddie Irvine (vice-campeão da temporada anterior) foram contratados para tornar concretas as ambições dos investidores.

Usar como base o bem-nascido Stewart SF-3, detentor de uma vitória, uma pole e quatro pódios em sua vida útil no certame, seria o ponto ideal de partida. Sabe-se lá como, entretanto, os engenheiros conseguiram a proeza de transformá-lo no arisco R1, dono de inúmeros problemas de distribuição de peso e que não dava sossego ao norte-irlandês e ao companheiro Johnny Herbert.

Despedida foi no GP do Brasil de 2004, com acidente entre os companheiros Webber e Klien
Despedida foi melancólica, com acidente entre os companheiros Webber e Klien

Se o começo já se deu com pé esquerdo, os demais quatro anos de administração foram repletos de decisões confusas e duvidosas, com direito a muitas trocas de chefe (os ex-pilotos Bobby Rahal e Niki Lauda estiveram entre eles) e resultados pífios. Até 2004, ano em que saiu para dar lugar à Red Bull, a Jaguar obteve singelos dois pódios, ambos com Irvine.

No último GP de sua história, o do Brasil de 2004, uma cena lastimável e um tanto poética resumiu o que foi a passagem da Ford como equipe oficial da categoria: Mark Webber e Christian Klien, então volantes do time, colidiram na entrada do S do Senna e abandonaram, juntos, a prova. A despedida não poderia ter ocorrido de forma mais condizente.

Lamborghini – nem elogio de Senna salvou vergonha de um calote

Casulos laterais pequenos davam visual peculiar, mas chassi 291 tomava quase sempre mais de 5s dos líderes, e mal conseguia se classificar para o grid
Casulos laterais pequenos davam visual peculiar, mas chassi 291 tomava quase sempre mais de 5s dos líderes, e mal conseguia se classificar para o grid

Grande concorrente da Ferrari na construção de superesportivos, a Lamborghini deve ter pesadelos ao lembrar da F1. Adquirida pela Chrysler em 1987, quis se tornar uma grande potência na série, e aproveitou a drástica mudança de regulamento programada para 89, banindo os motores turbo, para se colocar como uma das principais fornecedoras de propulsores naturalmente aspirados da competição.

Propulsor V10 fornecido para Larrousse e Lotus em 90, com angulação de 80 graus entre os blocos, oferecia interessante potência de 640 cv, mas tinha a resistência de um pudim aguado
Propulsor V10 fornecido para Larrousse e Lotus em 90, com angulação de 80 graus entre os blocos, oferecia interessante potência de 640 cv, mas tinha consistência de um pudim aguado

Gente do calibre de Mauro Forghieri, o homem por trás das Ferrari que deram títulos a John Surtees, Niki Lauda e Jody Scheckter, estava na empreitada, mas uma série de erros de execução pôs tudo a perder. Primeiro, o propulsor V12 de 3,5 litros era pouco confiável, apesar de forte; segundo, ter como parceira a limitada Larrousse pouco ajudou no processo de evolução.

Ciente de que precisaria acelerar o processo, a montadora aliou-se ao obscuro empresário mexicano Fernando Gonzalez Luna e iniciou a captação de recursos para virar equipe oficial para 90. O time se chamaria “GLAS” (abreviação para Gonzalez Luna Association), e o empresário ficaria responsável por negociar patrocínios. Só que Luna mudou os planos no meio do caminho e, sem aviso prévio, sumiu com US$ 20 milhões já investidos na escuderia. Calote dos brabos.

Após testá-lo com o vencedor MP4-8, Senna foi só elogios ao motor, mas desconfiança fez Ron Dennis optar pela Peugeot
Após testá-lo com o vencedor MP4-8, Senna foi só elogios ao motor, mas desconfiança fez Ron Dennis optar pela Peugeot

Insistente, a Lambo redirecionou a ação para as mãos de Carlo Patrucco, (ex-presidente da empresa de materiais esportivos Fila), e contratou ex-engenheiros da Minardi para criar, no início de 1991, o Team Modena. O chassi Lamborghini 291 tinha desenho interessante, com centro de gravidade baixo e casulos laterais pequenos, mas a falta de recursos financeiros (a Chrysler impunha orçamento limitado e exigia busca por patrocínios) impediu qualquer avanço. Eric van de Poele e Nicola Larini mal se classificavam para as corridas.

Com o insucesso, a Lamborghini voltou ao status de fornecedora de motores em 92, e quase conseguiu um contrato com a McLaren para 94: Ayrton Senna testou os V12 da marca no segundo semestre de 93, e elogiou bastante o rendimento (a unidade gerava 750 cv, quase a mesma potência dos V10 da Renault); o contrato só não foi assinado porque o histórico falou contra e Ron Dennis preferiu apostar na Peugeot. O sonho da Lambo estava, enfim, sepultado.

Peugeot – leão rugiu mais alto do que o fôlego aguentou

Casamento de McLaren e Peugeot começou promissor, mas falta de confiabilidade minou parceria
Casamento de McLaren e Peugeot começou promissor, mas falta de confiabilidade minou parceria

Motivo pelo qual a Lamborghini deu adeus à F1, a fabricante francesa entrou na categoria estimulada a desafiar a hegemonia imposta dois anos antes pela conterrânea Renault, à época parceirda da Williams. Tanto que usou um ex-funcionário da marca rival, o ex-piloto e engenheiro aeronáutico Jean-Pierre Jabouille, como consultor para desenvolver um promissor motor V10. Benetton, Jordan e Larrousse se interessaram pelas unidades, mas foi a poderosa McLaren que conseguiu amarrar contrato para 1994.

Não é preciso mais do que esta imagem para definir o que representou a "esquadra 100% francesa" formada por Peugeot e Prost
Não é preciso mais do que esta imagem para definir o que representou a “esquadra 100% francesa” formada por Peugeot e Prost

Os prospectos eram de muitos bons resultados em médio prazo: a unidade não devia nada em potência para as demais, mas as constantes quebras fizeram Ron Dennis perder a paciência e quebrar o acordo no fim da temporada. De 95 a 97, a Peugeot trabalhou ao lado da Jordan, e outra vez pecou por entregar um equipamento frágil. Posteriormente, formou com a Prost uma esquadra 100% francesa, mas os resultados abaixo do medíocre arrefeceram o interesse do grupo e o ciclo foi encerrado de maneira oficial ao final de 2000.

Não perca a terceira e última parte do especial, que será publicada na sexta-feira (29). Nela, vamos relatar como duas fabricantes de muito sucesso em outros campeonatos se meteram em verdadeiras furadas na F1, e relembrar a gastança desenfreada de uma das manufatureiras mais poderosas do planeta, rumo a um ciclo com quase nenhum resultado positivo.

Para ler a primeira parte, clique aqui.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.