Fittipaldi e o estranho hábito brasileiro na F1: não saber se aposentar

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“A verdade é filha do tempo”, já diria o filósofo empirista Francis Bacon. Contra o tempo, de fato, não há armas. Por mais que se esforce, que se dedique, que se procrastine, chega uma hora em que a vida não mais permite que uma pessoa pratique hábitos d’outrora com a mesma vitalidade. Para um atleta, o golpe da decadência vem cedo, geralmente entre 30 e 40 anos, a depender da modalidade. Quando isso acontece, manter o nível de desempenho fica impossível e a tão temida e inevitável dúvida começa a bater: qual a hora e o jeito certo de parar?

Cinco de outubro de 1980. Numa aprazível tarde de domingo na vila de Watkins Glen, estado de Nova York, Emerson Fittipaldi alinhou o F8 #20 de sua equipe própria na 19ª colocação para o grid do GP do Leste dos Estados Unidos de F1, o último de um campeonato que já fora definido em favor de Alan Jones no duelo contra Nelson Piquet. O clima era de fim de festa para os ponteiros, mas nem tanto para o veterano bicampeão mundial.

O fim de semana marcou outras duas despedidas: a do campeão do ano anterior, Jody Scheckter, desmotivado com os inúmeros problemas da Ferrari, e a do defasado autódromo de Watkins Glen
Fim de semana marcou outras duas despedidas: a do campeão do ano anterior, Jody Scheckter, desmotivado com os inúmeros problemas da Ferrari, e a defasada da pista de Watkins Glen

Apesar de ainda ter 33 anos, Emmo estava prestes a encerrar sua 11ª temporada carregando consigo alguns bons recordes de precocidade. Assim como amadureceu e surgiu muito novo para o mundo da velocidade, Fittipaldi também arriscara cedo demais uma empreitada que, em seu imo, mostrou-se fracassada: tentar repetir o feito de Jack Brabham e vencer com um carro feito com seus próprios esforços. Já não estava mais tão divertido participar daquela brincadeira.

Ninguém sabia, talvez nem próprio “Rato”, mas aquela corrida disputada há exatos 35 anos seria a última de Emerson na competição em que o próprio havia ensinado que brasileiros podiam não só participar, como também ganhar. Àquela altura, todas as atenções nacionais estavam voltadas ao jovem Piquet, recém-galardoado vice-campeão e dono do segundo posto na grelha de partida.

Um tanto esquecido, Emerson largou mal, caiu para 21º e, arrastando-se com um bólido problemático, abandonou na 16ª passagem por problemas na suspensão. Saiu sem nem aparecer na transmissão. Pior do que isso, sem sequer ser mencionado na matéria que estampava, na manhã seguinte, metade de uma página de Esportes da Folha de S. Paulo. Esquecido dentro do próprio país.

O compatriota da Brabham, por sua vez, roubou para si as atenções em vários momentos: na largada, quando viu o algoz Jones escapar da pista ao tentar passá-lo por dentro na curva 1; ainda na primeira volta, ao pressionar o surpreendente pole Bruno Giacomelli, da Alfa Romeo, em busca da liderança; e nas várias voltas seguintes, quando começou a sofrer com instabilidade na saia de seu carro-asa e teve de se defender insanamente dos ataques de Carlos Reutemann, a ponto de o argentino gesticular com as mãos pedindo passagem. Confira no vídeo abaixo:

O esforço se mostrou em vão na abertura do giro 25: Piquet não conseguiu controlar o instável BT49 na entrada da curva 1, rodou e bateu nas telas de proteção. Abandonou, embora tenha ainda impetrado um último esforço para retornar. Confira neste outro vídeo:

Depois, somente a quebra de Giacomelli, que liderava com sólidos 12 segundos de frente, e a ótima ascensão de Jones, vindo de 13º para vencer, foram acontecimentos que mexeram com um evento de outras duas despedidas: a do também campeão Jody Scheckter, largando a carreira após campanha tétrica naquele ano, e a do circuito de Watkins Glen, considerado ultrapassado e muito inseguro mesmo para os padrões da época – pilotos e membros da categoria reclamavam insistentemente contra a inexistência de áreas de escape e a pista excessivamente ondulada.

Essas eram baixas já sabidas e anunciadas. A de Fittipaldi, não. Sem nenhum holofote ou protagonismo, Emmo encerrou a estação como se esta fosse apenas mais uma em uma carreira ainda em construção. Como se estivesse pronto a começar tudo de novo no ano seguinte. Ledo engano. Semanas depois, no comecinho de 1981, o ás decidiu deixar as pistas. Uma pequena parte do anúncio pode ser acompanhada no vídeo abaixo, em que ele concede entrevista a Galvão Bueno, então locutor da Bandeirantes – detentora dos direitos da série à época. Veja:

Por ter tomado tão importante decisão no meio das férias, Fittipaldi não recebeu as láureas e homenagens que um piloto de seu gabarito merece. Iniciou, ali, uma espécie de sina para automobilistas de nosso país. Nenhum entre os que chegaram à competição mais importante do esporte a motor conseguiu encerrar a carreira da forma devida. Sabe aquela festa de repartição com refrigerante, bolo e cartazes com frases em menção ao semiaposentado? A falta de tino e planejamento impediu que todos os brasileiros, sem exceções, recebessem uma despedida assim.

Ao contrário do que muitos dizem, Piquet relutou em sair da F1 até certo ponto: enquanto negociar com Ferrari e Ligier
Ao contrário do que muitos dizem, Piquet relutou em sair da F1 até certo ponto: enquanto negociava com Ferrari e Ligier, disputou o último GP da carreira, o da Austrália de 91, sem saber o que faria no ano seguinte

Nem seria preciso mencionar Ayrton Senna e José Carlos Pace, que saíram da forma mais trágica possível. Fora eles e Fittipaldi, os outros dois conterrâneos de maior sucesso, Nelson Piquet e Rubens Barrichello, também cessaram o ciclo de forma um tanto turbulenta. O tricampeão foi dispensado da Benetton para dar lugar a Michael Schumacher e Martin Brundle no fim de 91. Chegou a negociar com Ferrari e Ligier e, enquanto conversava com ambas, disputou o último GP de sua vida, na Austrália, sem saber o que faria da vida. Terminou o páreo em quarto.

Já o vice-campeão de 2002 e 2004 perdeu a vaga na Williams para outro brasileiro, Bruno Senna, e se viu a pé enquanto dizia ainda ter “lenha para queimar”. Perdeu a chance de se despedir em casa, no GP do Brasil de 2011, num cenário perfeito para receber todo o carinho que merece do público local. Até hoje, aliás, o atual campeão da Stock Car diz ter esperanças de concluir uma espécie de “ciclo inacabado” no certame de monopostos.

Correndo no quintal de casa, Barrichello perdeu a chance de se retirar em grande estilo
Correndo no quintal de casa, Barrichello perdeu a chance de se retirar em grande estilo durante a etapa do Brasil de 2011

Com os menos bem-sucedidos a história ganha até requintes de crueldade: Ingo Hoffmann, Alex Dias Ribeiro, Raul Boesel, Chico Serra, Maurício Gugelmin, Christian Fittipaldi, Roberto Moreno, Ricardo Rosset, Ricardo Zonta, Tarso Marques, Cristiano da Matta, Antonio Pizzonia, Lucas di Grassi e Bruno Senna simplesmente ficaram sem vaga. Wilsinho Fittipaldi abdicou da carreira para cuidar da Copersucar. Pedro Paulo Diniz tentou se arriscar como dirigente e viu a Prost falir. Luciano Burti deixou o grid após sofrer violento acidente em Spa-Francorchamps. Já Nelsinho Piquet viveu o pior caso, sendo suspenso da categoria por bater propositalmente no polêmico GP de Cingapura de 2008, a mando da Renault, para beneficiar o companheiro Fernando Alonso.

Francis Bacon, o pensador citado no início deste artigo, definia como “ídolo”, veja só, aquele pensamento que nos leva a falsas verdades. Em sua concepção, observações simplórias e parciais de nosso intelecto nos levam a conclusões falsas sobre tudo que nos ronda, impedindo o acesso à verdade. Se Fittipaldi ensinou o brasileiro a vencer na F1, também antecipou um erro que todos seus sucessores cometeriam: achar que “ainda dá” quando já não dá mais, e perder a chance de se aposentar com pompas. A ver se Felipe Massa conseguirá decifrar o segredo para não acabar, assim como os demais, traído por seus próprios ídolos.

Assista abaixo à primeira de quatro partes (em inglês) de um compacto da BBC sobre o GP do Leste dos EUA. As outras três podem ser acessadas aqui, aqui e aqui.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.