Foco total e puxão de orelha do pai: como Serra chegou ao tri da Stock

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Com um segundo lugar na Super Final deste último domingo (15), logo atrás de seu principal adversário Thiago Camilo, Daniel Serra se tornou o sexto piloto da história a conquistar três títulos da Stock Car. Ele se junta a Ingo Hoffman (12 campeonatos), Cacá Bueno (5), Paulo Gomes (4), Ângelo Giombelli e seu pai, Chico Serra ( ambos com 3).

Além do número total de conquistas, ele ainda repete o feito de Chico ao conseguir um tricampeonato consecutivo. Além dos dois, apenas Hoffman e Giombelli conseguiram tamanha sequência, com o primeiro enfileirando seis, entre 1989 e 94, sendo três em dupla justamente com Giombelli.

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E assim como nas outras duas conquistas, Chico Serra não conseguia esconder o orgulho após o final da prova com sorrisos e abraços no filho. Ao Projeto Motor, ele revelou o nervosismo durante a corrida, mas a satisfação de ver Daniel igualar seu número de títulos. “Foi muito bom. Muito legal. Lógico a tensão aqui durante [a corrida]foi muito grande, mas foi muito legal terminar assim.”

Para este terceiro título, Daniel Serra admitiu que precisou de um chacoalho do pai durante a metade da temporada, quando enfrentou um momento ruim no campeonato. Isso aconteceu entre as etapas de Campo Grande, Corrida do Milhão em Interlagos e Velopark, em que após resultados fora dos primeiros colocados, ele chegou a perder a liderança do campeonato para Ricardo Maurício depois de chegar a ter 21 pontos de vantagem para o companheiro de equipe na Eurofarma RC.

“Foi um momento importante de ter meu pai, que me chamou de canto. Mostrou o valor de ter um pai que sabe o que está falando, ser um tricampeão. Disse ‘acho melhor você mudar um pouco sua postura, pensa nisso’. Ele deu aquele puxão de orelha de pai e tricampeão. E acho que foi fundamental para eu encontrar meu jogo de novo e voltar a ter bons resultados. Mais do que igualar meu pai hoje, foi muito legal essa experiência com ele durante o ano”, revelou o piloto.

Daniel Serra recebe a taça pelo título da Stock Car de 2019, ao lado de seu pai, Chico
Daniel Serra recebe a taça pelo título da Stock Car de 2019, ao lado de seu pai, Chico (Foto: Duda Bairros/Vicar)

Tanto pai quanto filho não quiseram revelar o ponto central da conversa, mas ambos apontaram que a questão abordada não foi técnica, mas de comportamento em meio à situação. Chico explicou apenas que olhando de fora, viu que era o momento de chamar a atenção do filho para algo que ele estava deixando passar despercebido.

“Acho que hoje eu não dou mais palpite técnico. Ele está em uma super equipe e eu não tenho que dar palpite técnico. Mas como experiência, eu já passei pelo que ele está passando, corri muito tempo. Quando dá para dar um conselho, lógico que eu sou pai e eu falo. E nós tivemos um momento este ano. Mas independente disso, ele fez por merecer”, explicou o tricampeão mais velho da família.

Serra: calculista obstinado

Daniel Serra está na Stock Car desde 2007. Campeão da F-Renault Brasil de 2004, ele retornava de uma rápida passagem por categorias de fórmula na Europa sem muito sucesso. Em suas primeiras dez temporadas na série, ele competiu pela equipe de Andreas Mattheis, uma das melhores do grid.

Ele sempre conseguiu se manter como piloto de ponta, com 11 vitórias no total, mas nunca manteve a consistência necessária para se tornar campeão, com um terceiro lugar em 2016 como melhor resultado. No outro carro do time, Cacá Bueno venceu três campeonatos no mesmo período.

Para 2017, ele teve a chance de se transferir para a equipe RC, de Rosinei Campos, mais conhecido como Meinha. E a parceria não poderia ter dado mais certo, já que ele segue invicto desde a estreia na nova escuderia.

“Gosto muito do jeito que o Meinha trabalha. É muito diferente do que jeito que o Andreas trabalha, de onde eu vim. São jeitos completamente diferentes e acho que encaixa com o jeito que eu gosto. E todas as pessoas que estão dentro. Acho que o mais importante para você conseguir trabalhar em alta performance, ainda mais por três anos assim, é ter as pessoas certas. E sempre falei para eles que não quero que troque uma pessoa que tem ali”, disso o piloto, brincando ainda que se Meinha se aposentar, ele para também.

Daniel Serra conversa com Rosinei Campos, o Meinha, e outros integrantes da equipe RC
Daniel Serra conversa com Rosinei Campos, o Meinha, e outros integrantes da equipe RC (Foto: Danilo Cardoso/Vicar)

Um dos preparadores mais experientes da Stock Car, Rosinei Campos esteve presente em todas as etapas dos 40 anos da Stock Car, o que inclusive lhe rendeu uma homenagem durante a premiação da categoria neste domingo. O chefe da equipe elogiou o estilo de Serra principalmente fora da pista, na constante busca por aperfeiçoamento.

“O Daniel é um piloto focado, obstinado por resultados e a gente trabalha em sintonia fina para conseguir ir nos detalhes. Não tivemos tanta velocidade quanto o Thiago [Camilo] teve [em 2019], mas tivemos um ano bastante regular. E o formato do campeonato permite você mudar estratégias. Se não dá para ganhar a primeira corrida, você faz o melhor possível focando na segunda e o que vale é a soma de pontos. Eu elogio o profissionalismo do Daniel e a gente se entende muito bem na questão técnica”, apontou.

O diagnóstico é parecido com dos engenheiros que trabalham mais próximos de Serra. Artur Fernandes é responsável há dois anos por toda operação em torno do carro do piloto e pelas estratégias. “No momento que ele pisa na pista, é o cara mais focado que a gente já trabalhou. Dentro da equipe e que eu já trabalhei. É concentrado, focado e competitivo”, disse ao Projeto Motor.

Segundo Fernandes, a cada etapa, Serra tem o hábito de fazer anotações e estudá-las para construir cenários possíveis para a corrida seguinte. A ideia é sempre estar o mais pronto possível para as alternativas que o final de semana pode impor e ficar de olho em como responder à evolução de adversários.

“Quando ele chega aqui na pista, ele já recebeu muitas informações da etapa. Ele já sabe os pneus que vai ter, os momentos em que ele vai sair e com quais pneus, quantas voltas ele vai dar. Ele chega aqui e já está tudo memorizado o que ele vai fazer. Aí ele chega aqui e sempre questiona o que os outros carros da equipe vão fazer para poder comparar”, falou. “Ele é estudioso, um estrategista”, completou.

Daniel Serra, da Eurofarma RC, em Interlagos
Daniel Serra, da Eurofarma RC, em Interlagos (Foto: Danilo Cardoso/Vicar)

Serra ganhou nos últimos anos a fama de ser um piloto conservador nas disputas para priorizar o campeonato. Em 2019, essa característica ficou mais chamativa pelos números entre ele e seu vice. Enquanto Camilo conquistou seis vitórias e seis poles, o paulista venceu apenas uma corrida e não largou nenhuma vez na primeira posição.

A equipe RC admite que isso aconteceu por não ter conseguido encontrar um acerto para ganhar da rival Ipiranga (de operação da Mattheis) na velocidade. Por isso, se concentrou na constância em um regulamento de rodadas duplas com grid invertido e estar sempre marcando muitos pontos no total de cada etapa. E isso acabou se encaixando perfeitamente com o estilo de Serra, que avalia bem os movimentos na pista e calcula os momentos em que deve atacar ou recolher em uma disputa.

“A principal característica dele é sempre largar pensando no campeonato. Nunca pensando na primeira volta de passar todo mundo. Ele tem na cabeça ‘quero ser campeão de novo’. E às vezes com atitudes agressivas você não vai conseguir”, diz Fernandes. “Ele sabe a hora exata de não disputar uma posição acirradamente porque não tem necessidade. Ele prefere fazer menos dois pontos aqui para fazer mais 18 ou 20 pontos no geral e não colocar tudo a perder. Ele corre com a cabeça. Ele é rápido e tem velocidade. Mas ele tem na cabeça o contexto da corrida. Ele é muito ligado”, prossegue.

Chico Serra também acha que o filho conseguiu aliar a velocidade nas horas que tem o melhor carro com a estratégia de saber jogar quando está em desvantagem técnica. Isso, na opinião do ex-piloto, o tornou um pacote tão forte nos últimos três campeonatos.

Daniel e Chico Serra, tricampeões da Stock Car na mesma família
Daniel e Chico Serra, tricampeões da Stock Car na mesma família (Foto: Danilo Cardoso/Vicar)

“Tem que ser um conjunto. Ninguém é vencedor só por velocidade ou por ser calculista. Você tem que ter um conjunto disso. Acho que o Daniel está muito bem. Acho que hoje ele tem a velocidade, tem a cabeça e tem um entrosamento com a equipe fantástico”, analisou.

Currículo cada vez mais recheado

A fase de Daniel Serra não tem sido ótima apenas na Stock Car. Nestes últimos anos ele também tem feito incursões de sucesso no mundo do endurance internacional. Em 2017, ele venceu pela primeira vez as 24 Horas de Le Mans na categoria GTPro pela equipe oficial da Aston Martin.

Este ano, ele repetiu a dose, agora pela AF Corse, time oficial da Ferrari. O resultado lhe rendeu como prêmio uma sessão em outubro na pista particular da empresa em Fiorano com um carro de F1 de 2009 da equipe italiana.

Além disso, ele ainda competiu em provas como as 24 Horas de Daytona e Spa e as 12 Horas de Sebring, o que já começou a lhe render uma boa imagem entre equipes da modalidade pelos resultados consistentes.

Todos os campeões da Stock Car:

Ingo Hoffman – 12 títulos
Cacá Bueno – 5
Paulo Gomes – 4
Ângelo Giombelli – 3
Chico Serra – 3
Daniel Serra – 3
Giuliano Losacco – 2
Ricardo Maurício – 2
Affonso Giaffone Jr – 1
Alencar Jr – 1
Marcos Gracia – 1
Zeca Giaffone – 1
Fábio Sotto Mayor – 1
David Muddato – 1
Max Wilson – 1
Rubens Barrichello – 1
Marcos Gomes – 1
Felipe Fraga – 1


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.