Force India: a piada que virou o time de melhor custo-benefício da F1

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Em 2007, foi anunciado que a então Spyker, time que já tinha passado pelas propriedades da Midland e Jordan, estava sendo vendida para um empresário indiano e que passaria a correr na temporada seguinte com o nome de Force India.

Claro que, até pelo histórico dos anos anteriores de fracassos, tudo parecia que seria mais uma passagem momentânea de donos até chegar-se a um fim melancólico de uma organização que, nas mãos de Eddie Jordan, chegou a ser um dos mais carismáticos do grid da F1.

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O próprio nome, que na visão de seu novo acionista majoritário, Vijay Mallya, era uma forma de atrair patrocinadores de seu país natal, uma economia em ascensão, se tornou uma grande piada. Force India? Que coisa maluca é essa?

Bem, mal sabiam todos que na verdade estava nascendo ali um novo time que se tornaria sinônimo de constância e planejamento. Desde sua fundação, os resultados da Force India formam uma escada de evolução. Sempre que parece que chegou ao auge, ela nos surpreende um pouco mais.

Nos últimos três anos foram um quinto e dois quartos lugares no campeonato de construtores. E, o mais impressionante, com um dos menores orçamentos da F1. Os números não são confirmados pelas equipes, mas estima-se que a escuderia indiana tenha gasto em 2016 algo próximo de 105 milhões de euros. A campeã da mesma temporada, a Mercedes, teria consumido 309 milhões, enquanto a Ferrari, a que mais investe, 385.

Isso significa que cada ponto da Force India teria custado 606 mil euros enquanto os da Ferrari, 967 mil. Um ótima mostra de como ela soube potencializar o pouco que possui para investimentos.

O mais curioso que isso acontece em meio um cenário bastante desfavorável. Seu principal dono, Mallya, se tornou um exilado na Inglaterra por conta de condenações judiciais na Índia. Para piorar a situação, em 2017, ele foi preso em Londres, a pedido das autoridades indianas, por fraude. Ele enfrenta agora um processo de extradição em que tenta permanecer na Grã-Bretanha.

Acha pouco? Nos últimos três anos, a Sahara India Pariwar, empresa também indiana que possui 42% do time, também enfrenta problemas com a justiça local, sob as mais diversas alegações, inclusive com questionamentos sobre de onde vem o capital de seus investimentos, e seu presidente-fundador, Subrata Roy, chegou a ser preso.

No GP da Bélgica de 2009, Fisichella marcou a pole e conquistou o primeiro pódio da Force India ao terminar em segundo
No GP da Bélgica de 2009, Fisichella marcou a pole e conquistou o primeiro pódio da Force India ao terminar em segundo

No meio de tudo isso, a Force India encontrou seu caminho como organização independente e, mesmo sempre com manchetes sobre sua possível venda ou fim, segue conquistando resultados sólidos. O segredo? Trabalho de longo prazo e muito planejamento.

Questionado pelo Projeto Motor durante o GP do Brasil sobre a questão, Otmar Szafnauer, chefe de operações da Force India, explicou que tudo depende da seguir a estratégia traçada e sempre para se tirar o melhor proveito do pouco dinheiro que a companhia possui.

“Nós temos que entender onde o nosso dinheiro é melhor gasto. Onde conseguiremos o melhor resultado de um investimento marginal. Temos que focar nisso, pois não podemos experimentar uma, duas, três vezes para chegarmos à conclusão de qual caminho tomarmos. Temos que tomar o caminho antes de gastarmos qualquer dinheiro. Não temos o suficiente para tomar vários caminhos e escolhermos, pois eles custam dinheiro. Temos que escolher muito cuidadosamente. Temos que tirar o maior proveito possível de nosso investimento marginal para desempenho.”

As escolhas de longo prazo estão no DNA da equipe. Em seu segundo ano de vida, em 2009, ela fez talvez a mais importante para o seu futuro: conseguiu um contrato de fornecimento dos motores Mercedes. O propulsor alemão sempre foi um dos mais fortes da categoria, e se tornou ainda mais poderoso após a introdução do atual regulamento, em 2014.

Aos poucos, o time também trabalhou em seu chassi. Podemos ver que existiu sempre uma evolução natural dos carros da Force India, com Andrew Green como diretor técnico desde 2011. Se por um lado isso impeça com que o time dê grandes saltos de um campeonato para o outro, garante, por outro, um desenvolvimento orgânico.

As novidades são implementadas aos poucos, quando já se mostram confiáveis. Os carros da Force India dificilmente são mal nascidos. Se o começo de temporada é ruim, como aconteceu inclusive em 2017, é mais uma questão de se destravar o seu potencial do que uma necessidade de reformulação completa.

VJM08, DE 2015
VJM08, DE 2015
VJM09, de 2016
VJM09, de 2016
VJM10, de 2017
VJM10, de 2017

E, claro, mesmo precisando de dinheiro, as escolhas por pilotos sempre foram cuidadosas. Em 10 anos, apenas 7 pilotos largaram pela equipe. Todos andaram por mais de uma temporada (com a exceção óbvia de Esteban Ocon, que só fez 2017 pela escuderia, mas tem seu contrato renovado). Existe uma clara preocupação em se dar estabilidade e aposta em competidores que levem dinheiro ou patrocinadores, mas que também garantam bons resultados dentro da pista.

E o olhar sempre no futuro. Sabendo que Ocon é um possível nome para o lugar em outra equipe em 2019, ainda mais pertencendo ao programa da Mercedes, o time já está pensa em suas opções para daqui dois anos para evitar ter que correr atrás de um nome de última hora. Por isso, tem em sua mira George Russell, campeão de 2014 da F4 Britânica e da GP3 em 2017. O inglês, inclusive, já realizou testes e andou em duas sextas-feiras de GP pela time.

Szafnauer admite que é difícil saber se todo este pacote é um grande acerto ou um excesso de conservadorismo em um time que poderia estar rendendo muito mais. Porém, a realidade é dura e este modelo de administração é o que tem trazido resultados bastante satisfatórios para a Force India.

“Não sabemos se poderíamos estar ainda melhor, pois não é um experimento controlado. Nunca vamos por outros caminhos, então, não sabemos se eles seriam melhores. Nunca tomamos dois caminhos, não podemos pagar por isso. Mas eu me aventuraria dizer que fazemos um trabalho muito bom porque os resultados estão na pista. Conseguimos otimizá-los ao máximo. É impossível dizer, não é um experimento controlado. Estamos próximos? Acredito que sim. Acho que fazemos um trabalho bem decente com os recursos que temos”, disse o dirigente ao Projeto Motor.

Como entrar no clube dos vitoriosos

Agora que se consolidou por dois anos como a quarta melhor equipe da F1, o que a Force India poderia fazer para entrar no clube dos times que vencem corridas? Szafnauer tem participado das reuniões do Grupo Estratégico da categori com o Liberty, novo proprietário dos diretos comerciais do campeonato, e acredita que tudo dependerá da negociação sobre o teto orçamentário.

Esteban Ocon e Sergio Pérez marcaram 178 pontos para a Force India em 2017
Esteban Ocon e Sergio Pérez marcaram 178 pontos para a Force India em 2017

Mais que a distribuição mais justa das verbas do Mundial, ele acredita que um limite de gastos faria com que mesmo as grandes marcas envolvidas no esporte se conscientizassem que é possível manter uma ótima equipe de F1 com muito menos do que se gasta hoje pelos times de ponta, e que a Force India é a prova disso.

“Acho que é um bom exemplo para mostrar que se você tiver duas vezes o dinheiro que temos, você ainda pode vencer. E acho que o teto orçamentário estará nesta região, talvez não de duas vezes nosso orçamento, mas de 1,7 ou 1,8 do que temos. Então, é possível fazer dois carros muito rápidos, fazer um bom show, com um teto orçamentário razoável.”

Por outro lado, ele não acredita que padronizar equipamentos, peças e limitar desenvolvimento aerodinâmico seja o melhor caminho para a F1, já que a ideia é justamente fazer uma competição de equipes, que com um orçamento mais próximo, se mostrem quem faz o melhor trabalho, como hoje faz a própria Force India contra adversários mais poderosos.

“É melhor termos um teto orçamentário global razoável com liberdade do que termos peças padronizadas. Você não ter liberdade para projetar e desenvolver como você quer é o pior caminho a se tomar. Se você eliminar essas liberdades é horrível. É melhor termos liberdade, mas termos um limite [de gasto].”

Mudança de nome

Com a cada vez menor entrada de recursos vinda da India, já foi tomada internamente a decisão de uma mudança de nome da equipe para retirar o nome do país asiático e assim deixar o time menos ligado a ele. A ideia inicial era uma alteração para Force One, porém, com a possível sigla resultando em F1, a categoria já avisou ao time que esta nomenclatura não é possível.

Por isso, ainda não se sabe qual será o novo nome, mas um anúncio até o começo de 2018 ainda é esperado. Por isso, os fãs da equipe precisarão se acostumar com um novo título, o que, para muitos, pode representar o fim de uma era deste time que chegou como piada e mostrou na pista que era muito sério.

 

Entenda o novo regulamento de motores da F1 para 2021:

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Cassio Maffessoni

    Diria que não foi uma “piada” propriamente dita, em 2008 ele era discreta até pra quem gostava de fazer gozações com as nanicas, mas a ascensão deles foi admirável. Em 2009 aproveitaram muito bem as duas chances que tiveram para pontuar e em 2008 também poderiam ter terminado a temporada com pontos, não fosse a barbeiragem do Kimi em Mônaco que tirou o Sutil da prova.

  • Gil Duarte Rocha

    Está aqui a prova de como é possível ter um bom carro com pouco! Sem dúvida alguma um exemplo para muitas equipas de formula1 ou até mesmo outras categorias do automobilismo. Agora lanço aqui um desafio: e se a Force Índia virasse equipa oficial de um construtor? Com motor Porsche, Cosworth, por exemplo. Óbvio que ao ser uma equipa oficial de uma determinada construtora não poderia administrar tudo sozinha e iria perder algum valor mas com mais dinheiro e competitividade poderia tornar-se ainda maior. Será possível?

    Excelente artigo e invejo o Lucas por entrevistar gente deste gabarito ahaha
    Abraço 😉

    • Cassio Maffessoni

      Diria que é justamente o que falta pra eles alçarem voos mais altos como a própria antecessora Jordan o fez: Um motor exclusivo, porém infelizmente não tem como a Cosworth abastecer uma equipe só com recursos deles, diria que até mesmo a eterna rival Ilmor está um patamar acima da Cossie quando o assunto é motores de competição, embora os motores dos carros de rua (como os que a TVR encomendou recentemente) ainda sejam excelentes, quem sabe uma coisa nova como a Brabus possa aprimorar esses Mercedes enquanto eles não encontram um parceiro exclusivo.

  • Gab

    É o time mais simpático do grid. E me agrada muito ver ele escalando o pelotão pouco a pouco, saindo da rabeira. Ainda lembro bem daquelas corridas em 2009 na Bélgica e Itália. Daí pra frente a equipe só se manteve forte e crescente.

  • Luigi G. Peceguini

    Sério que vão mudar o nome? Eu não tinha visto isso em nenhum outro lugar

    • Lucas Santochi

      @luigigpeceguini:disqus, a informação já corria por alguns veículos internacionais e foi confirmada pelo Projeto Motor com o próprio Otmar Szafnauer durante a entrevista que compôs esta matéria. A decisão pode ser até adiada por não “se encontrar o nome certo”, como ele me disse, porém, vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Abraço!