Force India respira por aparelhos na F1 – e isso traz boas e más notícias

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Não era segredo que a Force India enfrentava momento delicado financeiramente na F1 já há algum tempo. No entanto, o caso ganhou um desdobramento adicional – e de enorme importância – nas vésperas do GP da Hungria de 2018, quando o time oficialmente entrou em processo de administração judicial.

A novidade aconteceu após um ação ser movida contra a empreitada de Vijay Mallya na corte inglesa. A iniciativa partiu de alguns credores do time, como a empresa Brockstone Limited, a Mercedes e a BWT, principal patrocinadora.

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A Brockstone Limited, baseada em Guernsey (um paraíso fiscal situado no Canal da Mancha), foi a principal autora da ação. A empresa possui relações com Sergio Pérez, piloto da Force India desde 2014, e seu empresário, Julian Jakobi – um verdadeiro veterano do meio, tendo já trabalhado com lendas do calibre de Ayrton Senna e Alain Prost. A alegação é de que a Force India possui um débito para com ela de £ 3 milhões (na cotação atual, algo na faixa de R$ 14,6 milhões).

A BWT é a principal patrocinadora da equipe desde 2017 (Force India)
A BWT é a principal patrocinadora da equipe desde 2017 (Force India)

A Mercedes, fornecedora de motor e câmbio do time, também alega uma dívida de £ 9 milhões (R$ 44 milhões). Já a BWT, responsável por deixar os carros em cor de rosa, argumenta que o acordo foi realizado nos moldes de empréstimo (visão que não é compartilhada por Mallya), e que, assim, chegou a hora de quitar os valores em aberto.

Com o processo movido, o importante passo foi tomado na noite de 27 de julho, quando a corte decidiu pela administração judicial.

MAS O QUE ISSO SIGNIFICA?

Agora, a Force India passa a estar sob a administração de uma parte selecionada pela justiça. No caso, será o escritório FRP Advisory, o mesmo que cuidou de Marussia (fim de 2014) e Manor (fim de 2016) após as falências das duas empreitadas de uma mesma escuderia.

Piloto do time desde 2014, Pérez exerceu parte importante no processo (Force India)
Piloto do time desde 2014, Pérez exerceu parte importante no processo (Force India)

Isso permite que a Force India ganhe tempo, já que ela poderá continuar com suas operações normalmente (tanto é que participou do GP da Hungria sem contratempos) enquanto espera pela aparição de um possível comprador/investidor para assumir o controle da estrutura de vez.

E o momento de todos os acontecimentos não foi por acaso. Com a F1 de férias e as equipes tendo de fechar obrigatoriamente suas fábricas para descanso por algumas semanas, a Force India poderá passar pelo processo delicado sem ter de se preparar para uma corrida que está por vir.

Isso também poderá representar um alívio para Pérez, que disse que nos últimos meses “foi tudo, menos um piloto de corridas”. O pivô do caso garante que, apesar da dívida em aberto, fez o que fez somente para “salvar o emprego de 400 colegas”. Aparentemente, tratava-se de um capítulo inevitável na história da equipe.

CHANCE DE RECUPERAÇÃO?

Boa notícia: ao que tudo indica, já há gente interessada em adquirir as operações da Force India e permitir que a equipe volte a caminhar de forma saudável.

Um nome que vem sendo bastante mencionado é o de Lawrence Stroll, pai de Lance Stroll, que não está nada feliz com a situação que seu rebento vive na Williams. A possibilidade, claro, envolveria a chegada do jovem canadense ao time em um futuro próximo.

Mallya foi criticado por avaliar que nenhuma proposta era boa o bastante (Force India)
Mallya foi criticado por avaliar que nenhuma proposta era boa o bastante (Force India)

Outro cotado é Dmitry Mazepin, pai de Nikita Mazepin, piloto da GP3. O empresário de Belarus atua no ramo de fertilizantes e tem fortuna estimada em US$ 7 bilhões, sendo que o próprio Nikita participa de atividades com o time desde 2016. Tavo Hellmund, empresário envolvido nas empreitadas do GP de F1 em Austin e o retorno da categoria ao México, também é ligado como uma das possibilidades.

Diante de todos os interessados, as ofertas terão de ser feitas em caráter de urgência. O Grupo da F1 e a Mercedes, credora, analisarão o processo cuidadosamente para garantir que os candidatos tenham condições, credibilidade e real interesse para gerenciar o negócio de maneira apropriada.

Uma mudança de cenário nisso tudo é que Mallya está fora da jogada e a venda não passa mais por suas mãos. Há quem garanta que isso fará a história avançar, pois o empresário indiano mostra tanto apreço por seu projeto de mais de dez anos que estaria disposto a morrer abraçado com ele para não largá-lo. Até por isso, o processo que deu o pontapé a toda a história “o deixou devastado”.

SERÁ QUE VAI DAR CERTO?

Má notícia: dizer que há interessados na compra não é garantia alguma de que algo se concretizará. O caso da dissolvência da Manor é um exemplo: ela também teve possíveis interessados após entrar em administração judicial (um deles foi o já citado Tavo Hellmund), mas a transação não caminhou como se esperava e ela fechou as portas.

Como já dissemos, o possível comprador terá de mostrar não só condições financeiras para gerenciar as operações, mas também credibilidade para tocar o negócio. Foi por essas que a empresa de bebidas Rich Energy, que há tempos “namora” com a possibilidade de comprar o time, teve uma oferta de investimento de £ 30 milhões última hora rejeitada.

Por enquanto, operações da Force India funcionam normalmente (Force India)
Por enquanto, operações da Force India funcionam normalmente (Force India)

E quanto aos outros interessados? Stroll é quase sempre citado, e certamente onde há fumaça, há fogo. Mas até que ponto o bilionário canadense se interessa pela F1 a ponto de querer comprar uma equipe? Caso o seu desejo seja somente encontrar uma vaga mais adequada para Lance, isso pode ser feito ao desembolsar uma quantia muito menor do que comprando uma operação inteira, o que também traria uma série de dores de cabeça e responsabilidades adicionais.

O mesmo questionamento se aplica a Mazepin, com o agravante de que seu filho, sob as normas atuais da FIA, sequer poderia correr na F1 em 2019. Por mais que bilionários possuam carteira cheia, certamente nenhum deles gosta de rasgar dinheiro – então, algumas coisas ainda precisam ficar mais claras.

Empresários endinheirados já embarcaram na F1 no passado recente (Richard Branson e Tony Fernandes são alguns exemplos) e inevitavelmente quebraram a cara. Cada caso possui sua história específica, mas há em comum o complicado modelo de negócios atualmente em vigor na F1, que conta com a problemática distribuição financeira entre as equipes.

Com recursos limitados, a Force India é dona de um feito notável ao terminar em quarto lugar nos dois últimos Mundiais de Construtores. Em ambos os casos, porém, recebeu premiação menor que a metade da terceira colocada, além de também ser menos recompensada com certa folga por McLaren e Williams, times que derrotou.

Como agravante, as equipes da F1 devem concordar com unanimidade para que, caso a equipe seja vendida, ela continue recebendo a premiação financeira destinada à Force India – como se estabelecesse a continuidade da equipe nesse sentido em vez de caracterizar uma operação partindo do zero. A revista alemã Auto Motor und Sport reportou que três equipes se opuseram (McLaren, Williams e Renault), o que pode colocar ainda mais uma pedra nesse caminho.

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Mais um outro aspecto a se observar: é um momento nebuloso para saber o que será do modelo de negócios de uma equipe de F1 a partir de 2021. Há discussões em andamento já há alguns meses para possivelmente redefinir a fórmula de distribuição financeira, e há muitos obstáculos a serem retirados até que uma decisão seja anunciada. Vale gastar centenas de milhões de libras por um negócio cuja natureza poderá mudar significativamente depois de três anos?

Em época de incertezas, algumas peças já começam a se mexer – ou, pelo menos, começam a sondar possibilidades para o futuro. Esteban Ocon é ligado cada vez mais à Renault em 2019, o que pode desencadear um efeito dominó no mercado de pilotos. Por mais que o planejamento para o futuro está em andamento, este é um período chave para uma das equipes mais carismáticas e eficientes do grid.


Hamilton leva vitória preciosa no GP da Hungria de F1 | Bate-Pronto:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.