“Ford vs Ferrari”: o que achamos legal e não tão legal assim

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Bem, já vamos começar este texto deixando claro que a ideia aqui não é fazer uma crítica de cinema sobre “Ford vs Ferrari”. Para isso, existem veículos específicos e até teoricamente mais qualificados onde você pode encontrar este tipo de material.

A ideia geral aqui é discutirmos o filme do ponto de vista de amantes do automobilismo, não necessariamente cinéfilos (o que também somos, por sinal). Por isso, vamos explorar a questão de experiência e paralelos com a realidade.

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Também demoramos um pouco para podermos falar do filme para dar tempo de a maioria das pessoas, pelo menos as mais interessadas, assistirem à produção e poderem ler aqui alguns dos nossos pitacos sem problemas com spoilers. Sim, teremos que falar de algumas coisas que acontecem na tela para fazermos certa contextualização, então, se você ainda não assistiu e não quer saber de nada que possa estragar sua experiência no cinema, pare de ler aqui. Claro, não esqueça: favorite a página e volte depois, deixando nos comentários sua opinião.

Dito tudo isso, podemos começar a explicar que “Ford vs Ferrari”, sobre como a Ford resolveu montar um carro para bater a Ferrari nas 24 Horas de Le Mans de 1966, é um filme que tenta contar uma bela história do automobilismo, e aproveita bem dois personagens importantes que participaram como protagonistas: Carroll Shelby e Ken Miles.

Poster do filme "Ford vs Ferrari"

A escolha de colocar esses dois no centro da produção é super acertada. Se fosse um filme apenas para gearheads, o Ford GT e a Ferrari P3 e P4 seriam o maior interesse. Mas estamos falando aqui de uma história que precisa ser contada para pessoas que não necessariamente gostam de automobilismo. Muitas, nem entendem por que tanta preocupação em ganhar uma corrida de 24 horas no interior da França. E o legal de Shelby e Miles é que eles são personalidades que podem preencher este espaço tanto para os fãs das corridas quanto contar ao público geral uma história legal e humana.

O filme, inclusive, poderia muito bem se chamar “Shel e Ken” ou algo assim. “Ford vs Ferrari” se tornou um nome apelativo demais, ainda mais para o recorte da história. Em poucos ou quase nenhum momento se conta algo pelo lado dos italianos. Tudo sai do ponto de vista do lado americano. Enzo Ferrari e sua empresa são pintados como os caras maus e espertalhões. Vi até certo exagero na interpretação e na escolha da representação de Lorenzo Bandini, que parece um vilão dos clássicos de James Bond.

Claro que por se tratar de um filme de ficção baseado em fatos reais, para alimentar a dramaticidade da história, alguns detalhes precisavam ser adicionados. O ponto inicial da rivalidade entre Ford e Ferrari realmente foi a desistência de Enzo Ferrari em vender sua empresa. Porém, isso aconteceu depois de uma extensa negociação e o que deixou Henry Ford II mais nervoso foi o alto custo em advogados e auditores para levantar os números da transação antes da negativa. No filme parece que tudo durou uma tarde.

O que deixou Comendador com o pé atrás e finalmente o fez desistir de vender a empresa foi o fato de a Ford insistir em poder vetar decisões sobre a equipe de corrida, que Enzo Ferrari queria manter o controle. E diferente do que foi mostrado no filme, a questão não era só Le Mans, mas o fato da empresa americana avisar que não queria carros da escuderia nas 500 Milhas de Indianápolis e outros provas nos Estados Unidos, onde a Ford fornecia motores. Ferrari queria fazer o que quisesse com a equipe.

Além disso, também foi usado para vilanizar os italianos a negociação com a Fiat. Realmente a empresa de Turim comprou a Ferrari, só que não como foi colocado no filme, e sim alguns anos depois, em 1969, e apenas 50%. Ela viria a adquirir mais 40% em 1988. Ou seja, esqueça a história do fotógrafo e da enrolação na sala de Enzo Ferrari.

E com tantas mudanças que a produção fez na história, por que estou destacando essa? Tudo isso durou no máximo 5% do filme e quero destacar que a produção simplesmente não é sobre a rivalidade “Ford vs Ferrari”. Usar este título passou a ser apenas um marketing para atrair pessoas ao cinema com o nome de duas grandes empresas conhecidas por todo mundo. “Ford vs Ferrari” é sobre outra coisa, que vamos explicar abaixo.

Humanidade no automobilismo

Uma das coisas mais acertadas do filme foi mostrar o quão complexo é desenvolver um carro de corridas. Era nos anos 60, continua hoje. Você precisa de bons engenheiros, um líder que saiba chefiar o processo e grandes pilotos.

Jogar a relação de Shelby e Miles no conturbado mundo corporativo de uma montadora do tamanho da Ford ficou bem legal. E para quem queria ver ação, deu a oportunidade de vermos o GT40 sendo moldado na tela aos poucos.

Muita gente ainda acha que na época romântica do automobilismo, quem ganhava era só o piloto, que pegava um carro qualquer e batia que fosse pela frente. Em uma competição de máquinas, elas são sempre um dos fatores mais importantes. Ficou claro que fazer um modelo competitivo não é fácil.

Ficou de lado, porém, o fato de o projeto da Ford em Le Mans e o carro terem começado em parceria com a Lola e que uma primeira derrota aconteceu na edição de 1964 da prova francesa. O GT40 nada mais era do que um Lola Mk6 com atualizações. Só então Shelby entrou na brincadeira. Tudo ficou resumido à uma fala do preparador para Miles quando ele apresenta o carro: “acabou de chegar da Inglaterra”.

Nesta fase, também vemos outro fator que mostra como a história não tem nada de “Ford vs Ferrari”. Tirando uma rápida cena durante a negociação entre as empresas em que o galpão da equipe de corrida é mostrado com Enzo Ferrari tomando café ao fundo, não é explorado em nenhum momento a diferença de tipo de trabalho feito na companhia italiana em relação aos americanos. Seria um belo paralelo. Só que aí os vilões italianos poderiam ficar um pouco humanizados demais e até romantizados. Não era o objetivo.

A ideia era mostrar como Shelby e Miles conseguiram fazer um carro de corridas praticamente do zero para bater a toda poderosa Ferrari. Mesmo que o poder do orçamento quase infinito aqui estivesse do lado deles contra um adversário que trabalhava quase que de forma artesanal.

Os pilotos de “Ford vs Ferrari”

O filme ficou tão centrado em Shelby e Miles que praticamente ignorou outros grandes nomes da história do esporte a motor que têm participação direta na epopeia. Miles correu ao lado de Denny Hulme, neozelandês campeão da F1 em 1967 de Brabham contra o próprio Jack Brabham. Não era um zé ninguém.

Outro fator importante. A dupla que ficou com a vitória de 66, Bruce McLaren e Chris Amon, neozelandeses que certamente estão entre os maiores pilotos da história da F1 sem título, corriam também pelo time de Shelby, e não na segunda equipe da Ford, a Holman & Moody, como o filme dá a entender. O preparador estava trabalhando nos dois carros e não só no de Miles e Hulme.

Mesmo assim, precisamos compreender aqui que não existiria tempo de tela o bastante para contar a história de como a Ford entrou no projeto Le Mans, de Shelby, Miles, do GT40 e de todos os outros pilotos e manter o enredo coeso. De novo, não se trata de um documentário, mas de um filme que precisa envolver amantes de carros e também de cinema.

Concentrou-se em Shelby e Miles não só porque eles realmente lideraram boa parte do projeto, mas também porque era a história mais interessante a ser contada. Antes de assistir à produção, tinha muita curiosidade de como se lidaria com o destino do inglês. Fiquei bastante satisfeito de como mantiveram esta parte da história próxima da real, apesar de Miles na verdade não ter aceitado a decisão sobre o resultado de Le Mans-66 tão bem como foi mostrado.

Experiência em “Ford vs Ferrari”

Quando se trata de corrida no cinema, os mais nostálgicos sempre recordam o clássico “Le Mans”, de 1971, produzido e estrelado por ‎Steve McQueen. Pura pornografia automobilística para os fãs. Ou também de “Grand Prix”, feito em 1966, do diretor John Frankenheimer.

O que mais encanta aos fãs de corrida nestes filmes são sem sombra de dúvidas as cenas de corrida. E não é para menos. Ambos foram filmados durante provas reais, utilizando imagens de corridas de verdade. Difícil competir com isso. Por outro lado, a verdade é que o roteiro e história dos dois são fracos. Se você não gosta de automobilismo ou carro, dificilmente vai gostar destes filmes.

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“Ford vs Ferrari” encontra um belo meio termo, assim como aconteceu com “Rush”, de 2013, sobre o campeonato de 1976 da F1. Talvez até mais próximo da realidade (Rush realmente viaja bastante na maior parte do tempo). O filme do diretor James Mangold consegue contar uma bela história que serve a fãs e não fãs de automobilismo, com uma experiência agradável sobre carros de corridas. Sem ser brilhante, em tempos em que o esporte a motor anda no divã por conta de questões ambientais, ele consegue mostrar um pouco ao resto mundo porque gostamos tanto deste negócio.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.