Futuro elétrico, segurança e mais: um papo exclusivo com Felipe Massa

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O Projeto Motor conversou com Felipe Massa com exclusividade em Interlagos, enquanto ele se preparava para sua primeira participação na Stock Car. Neste bate-papo, abordamos com o piloto, recém-aposentado da F1, assuntos como seus novos trabalhos e projetos na Comissão Internacional de Kart e o possível futuro na F-E.

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Além disso, o piloto também colocou suas opiniões sobre o futuro do automobilismo diante do possível fim dos carros impulsionados a motor a combustão, se mostrou favorável a adoção do halo e lembrou os problemas que enfrentou para implementar uma categoria de base no Brasil, a F-Futuro, entre 2010 e 11.

Confira a entrevista com Felipe Massa:

PMotor – O quanto mudou a rotina até agora?

Massa – Estou me preparando para experimentar um carro diferente. Não conheço. Andei em um carro de volta rápida, mas já dei uma analisada e é totalmente diferente desse. Amanhã [nos treinos]vou começar a aprender sobre um carro totalmente diferente do que estou acostumado na maior parte da minha carreira. Mas estou empolgado. Estou tentando conversar, entender ponto por ponto, conversando com o Cacá [Bueno, parceiro de carro na Corrida de Duplas] e com os engenheiros. Tentando entender os detalhes deste aprendizado que terei essa semana.

PMotor – O piloto vai subindo desde o kart até a F1 e vai enfrentando várias mudanças e carros, mas neste caso, de ir do fórmula para um Stock Car é quase mudar de esporte?

Massa – Sim, sim. É igual jogar futebol de campo e depois ir para o futebol de areia ou salão. O jogo é o mesmo, mas tudo em volta é bem diferente. Jogador de futebol de campo, tudo que ele faz no campo é diferente do futebol de salão. A situação é bem parecida. Aqui vou ter que aprender tudo de novo. Terei que aprender todas as técnicas de um carro de Stock Car em relação ao de F1, o jeito de guiar, todas as reações do carro.

Felipe Massa experimenta o carro da Stock Car (Foto: Bruno Terena/RF1)
Felipe Massa experimenta o carro da Stock Car (Foto: Bruno Terena/RF1)

PMotor – Mesmo sendo um carro diferente do que você vai andar, o que mais te chamou a atenção no teste com o Stock que você fez?

Massa – Freada. É um carro muito mais pesado. O F1 chega muito mais rápido e para muito mais rápido. Como percorrer a curva, a velocidade que você carrega, o limite do carro, a velocidade que você coloca na curva e que o carro aceita.

PMotor – Desde que você se aposentou da F1, quando você pensou em parar na primeira aposentadoria e agora, você está fazendo as coisas que imaginava, a sua vida está como você pensou?

Massa – Sim, estou. Para falar a verdade, estou trabalhando bastante. Tiveram muitas coisas. Além desta corrida de Stock Car, fiz um trabalho para a Chevrolet, e também com essa nova ideia de virar presidente da CIK-FIA (Comissão Internacional de Kart da FIA). Fui muitas vezes para Genebra, tive muitas reuniões, até por que é um aprendizado para mim, entender tudo, e tem muita coisa para fazer ali. É algo bem diferente para mim. É corrida, mas é diferente do que estou acostumado. Então, estou contente e feliz.

PMotor – Você está fazendo essa corrida na Stock, mas sempre fala muito na Fórmula E. O que chamou tanto a atenção na Fórmula E?

Massa – Na verdade, o que mais me chamou a atenção na F-E foi o evento. É um evento bacana. Os lugares que eles correm, o formato. Não tanto o carro. O carro tem muito o que melhorar. O carro da próxima temporada é totalmente diferente do que eles usam agora. Então, o que mais me chamou a atenção foi o evento. E, em segundo lugar, é um evento que vai fazer parte do nosso futuro: carros elétricos. Até mesmo no kart, estou batalhando muito para o kart pensar nesse lado elétrico. Hoje em dia existem karts elétricos em kart indoor, mas não de competição. Então, é um trabalho intenso para que isso aconteça o mais rápido possível, dentro da segurança, peso e tudo isso, que é o desenvolvimento que as fabricantes e a CIK têm que aceitar.

PMotor – Você acha que é uma questão de tempo a gente ter que partir para um automobilismo totalmente elétrico ou existirá espaço…

Massa – Acho que sim. ‘Infelizmente’ não é a palavra certa. Mas para quem vem do motor, com pistão e tudo mais, é um aprendizado novo. Mas tenho certeza que é o futuro que teremos em um tempo bem curto. A maioria dos carros de rua serão elétricos e em um futuro curto e, talvez, um pouco mais longo, tudo será. Isso faz parte da nossa mentalidade, e eu sou totalmente a favor por conta do meio ambiente.

PMotor – Você acha que vai sobrar a F-E ou as outras categorias terão que se transformar? Por exemplo, a F1 terá que virar elétrica?

Massa – Vai. A F1 vai ter que entender o que fazer em um período curto de tempo.

PMotor – Eu dei a F1 como exemplo, mas Nascar, Indy, Stock Car…

Massa – Sim, todas as categorias. Acho que não em um período tão curto. Mas não vai demorar para a gente estar aqui sentado conversando de coisas totalmente diferentes.

PMotor – O carro para o piloto é absurdamente diferente de pilotar?

Massa – É, tem características de pilotagem diferentes. Mas é um carro de corrida. É uma competição e um evento bacana. Sem dúvida que me interessa. Não tenho nada acertado, mas em um período curto talvez eu tenha.

Massa posa ao lado do Stock Car que irá usar na Corrida de Duplas, em Interlagos (Bruno Terena/ RF1)
Massa posa ao lado do Stock Car que irá usar na Corrida de Duplas, em Interlagos (Bruno Terena/ RF1)

PMotor – A F1 e a própria F-E terão agora o halo. Não vou te perguntar se você acha se realmente salvará alguém, mas o que você achou da maneira como a FIA implantou? Achou apressado, que talvez deveriam testar mais opções? Ou tinha que colocar logo mesmo por conta da segurança?

Massa – A segurança é o mais importante. Não temos que lutar contra algo que está vindo para salvar vidas. Não sei se no meu acidente teria mudado algo. Mas em outros acidentes, com certeza sim, salvaria a vida dos pilotos que infelizmente não estão mais aqui. Então, eu sou a favor. Se não atrapalhar a visão do piloto, que eles estão treinando agora para ter as informações de maneira clara para que não aconteça nenhum acidente. Acho que daqui um tempo as pessoas vão se acostumar e ninguém vai falar mais disso.

PMotor – Alguns pilotos falaram que entrar ficou complicado, teve até macacão que rasgou…

Massa – Sair de um carro de Stock Car também não é tão simples! Tem que jogar a perna para cima, empurrar… Talvez mais complicado do que entrar e sair de um fórmula. É questão do pessoal acostumar.

PMotor – Você chegou a ver aquele da Indy? Ao estilo do escudo?

Massa – Vi. A F1 fez o teste com algo parecido no carro da Ferrari. Acho que foi o Kimi [nota: foi o Vettel que fez o teste] andou e reclamou da distorção do vidro, o que pode causar problemas. Que é um vidro grosso. É muito mais bonito, mas parece que tiveram problemas.

PMotor – Você está envolvido hoje com a CIK, aqui no Brasil você já esteve envolvido com a criação de uma categoria de base. Parece que é um problema se impulsionar uma categoria de base em qualquer lugar no mundo. Na sua visão, olhando para as dificuldades, erros e acertos da F-Futuro, qual é o caminho para se viabilizar comercialmente e esportivamente uma categoria de base?

Massa – Acho que precisa lógico de empresas que ajudem. Tivemos um pouco. Para você conseguir fazer um campeonato andar para frente, precisa de empresas que ajudem, que tínhamos um pouco, e pilotos interessados. O carro era muito bom, a ideia era muito boa, como escola. A ideia que eu tive era não abrir para equipes para o campeonato ficar mais barato. Era talvez o campeonato mais barato no mundo. O problema é que as equipes não estando, eu tinha engenheiros e mecânicos contratados, onde o piloto dava as dicas e mudava de carro ainda, o carro era sorteado. Era o jeito mais certo. Mas aí, chefes de equipes não eram a favor, pois não estavam no meio. Talvez pessoas do kart também falavam [para os pilotos]“vamos treinar, mas vamos de F-Renault velho porque nesse campeonato as equipes não estão…”. Então, este foi um problema, que na verdade eu fiz da forma certa para deixar mais barato para os pilotos. Mas aí o campeonato não foi para frente.

PMotor – Saiu agora o projeto sobre a privatização de Interlagos que prevê a destruição do kartódromo, construir condomínio, shopping e etc. E o presidente da Câmara dos Vereadores ainda disse que é pouco e que vai alterar o projeto para dar mais liberdade para se construir aqui. Está te assustando esse papo todo?

Massa – Acho que o mais importante, como esportista e piloto, é pensar em primeiro lugar na pista. Você me dizer que talvez destruam o kartódromo de Interlagos é muito triste, pois eu cresci lá. É importante manter o autódromo, isso é o ponto principal. As outras coisas em volta, eu não tenho a experiência para dizer, mas sem dúvida pode afetar o funcionamento e a ideia geral que é o autódromo de Interlagos para corridas e eventos em geral.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.