Quatro Rodas

GD-01: a tentativa fracassada da Dams de entrar na F1

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No último dia quatro de agosto, Jean-Paul Driot morreu, aos 68, deixando o automobilismo em luto. O francês teve participação decisiva na carreira de muitos pilotos através de sua equipe Dams, que desde os anos 90 se tornou uma das grandes potências das categorias de base.

Com sede em Le Mans, a Dams tem um currículo invejável de conquistas como os três títulos na antiga GP2, três da F3000 e dois F-Renault 3.5 Series, entre vários outros. Ela ainda não levou nenhum na nova encarnação da F2, mas sempre está entre as favoritas. O resultado desta participação de sucesso em certames de formação é que 31 pilotos de sua lista já chegaram à F1.

A trajetória de Driot e da Dams não ficaram limitadas às fórmulas menores. O time francês, que nasceu de uma parceria de Driot com o ex-piloto René Arnoux, também participou de categorias de carros esporte e até mesmo das 24 Horas de Le Mans, em parceria com outros times.

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Desde 2014, Driot se juntou a Alain Prost para criar uma equipe na Fórmula E, que se tornou em um primeiro momento o time de fábrica da Renault e que hoje representa a Nissan. E a operação já conquistou dois títulos na categoria.

O que muita gente não lembra é que Driot chegou a tentar levar sua Dams à F1. O passo das categorias de base para o Mundial era algo mais comum até os anos 80 e se tornou por um curto período de tempo, na virada para os anos 90, ainda mais palatável por conta do novo regulamento de motores mais baratos. Porém, na segunda metade daquela década e principalmente no presente século, essa promoção tem se tornado quase que um sonho impossível pela enorme diferença de estrutura de um time da base para uma construtora da F1.

Dams celebra o título de Romain Grosjean na GP2, em 2011 (Foto: Dams)

Fundada em 1988, a Dams se tornou rapidamente uma das melhores equipes da F3000, categoria de acesso imediato à F1. O sucesso fez Driot sonhar com o próximo passo, na esteira do que a Jordan fez em 1991. Em 1994, com a regulamentação que diminuiu a eletrônica na F1, o francês começou a olhar com mais carinho para ideia, acreditando que a categoria poderia se tornar mais barata nos anos seguintes.

Depois de chegar a estudar a compra de uma equipe já estruturada, Driot chegou à conclusão que preferia construir um carro do zero mesmo. O dirigente, no entanto, sabia que dificilmente conseguiria enfrentar a empreitada sozinho e conseguiu convencer a fabricante de chassis Reynard a fazer uma parceria para desenvolver o carro.

A empresa inglesa tinha investido algum tempo em um projeto para entrar na F1 entre 1989 e 91, sob comando do projetista Rory Byrne (que viria depois a desenhar os carros campeões nas mãos de Michael Schumacher tanto pela Benetton quanto na Ferrari), mas desistiu no meio do caminho. A fábrica em que ela chegou a criar a estrutura de sua futura equipe, em Enstone, foi vendida para a Benetton (onde hoje está a Renault) e os dados e direitos sob sua pesquisa foram comercializados com a Ligier. De qualquer maneira, alguma expertise tinha sido criada ali.

Assim, a Dams abriu um escritório próximo da sede da Reynard, na cidade inglesa de Bicester, e a cooperação começou a caminhar nos primeiros meses de 1994 com a ideia de uma estreia na temporada seguinte. O dinheiro era curto e, para piorar, após a morte de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger no GP de San Marino, a FIA impôs uma série de mudanças técnicas na F1 que obrigaram a Reynard a rever parte do projeto no meio do caminho.

Jean-Paul Driot ao lado do monocoque do futuro GD-01, da Dams

O modelo batizado de GD-01 estava sendo projetado por Rob Arnott, ex-Arrows e March, e Claude Galopin, contratado da Ligier. O monocoque foi fabricado na França, pela empresa SNPE. O desenho, porém, não parecia acompanhar algumas das importantes evoluções aerodinâmicas que vinham acontecendo na F1. O bico era baixo e as laterais eram largas e altas. A Reynard mostrou muita preocupação com refrigeração interna e isso levou o modelo ter um formato quadrado, meio desengonçado e fora dos padrões da categoria.

Depois de uma negociação fracassada com a Honda para receber um propulsor preparado pela Mugen, a Dams comprou mesmo um Ford Cosworth ED V8 de 3 litros, nova versão do propulsor que, em sua versão de 3,5 litros, ajudou Schumacher e a Benetton a vencerem o campeonato de 1994. A diminuição do volume era para acompanhar a restrição do novo regulamento de 95.

Erik Comas apresenta o GD-01, da Dams, em Le Mans

Ter o carro é só uma parte do grande projeto de uma equipe de F1. E Driot logo entendeu isso. Assim, ele chegou a conversar com um antigo rival, Gerard Larrousse, que estava em dificuldades com seu time. A Larrousse negociou para utilizar o novo GD-01 em 1995, mas Driot não queria apenas vender o carro para vê-lo correr sob bandeira de outra equipe, mas participar da operação de forma ativa. Assim, nada de acordo entre os dois franceses, o que resultou, inclusive, no fim da Larrousse.

Sem dinheiro ou parceiro, a Dams precisou atrasar sua entrada na F1 e o carro/equipe foi apresentado ao mundo apenas na metade de 1995, já durante a temporada, em um evento no circuito de Le Mans, próximo à sede da escuderia. Erik Comas, que tinha corrido pela Dams nas categorias de base e estava na Larrousse, e Jan Lammers, que aos 39 anos estava fora da F1 há três temporadas, apareceram como os pilotos do time.

Teste do GD-01 em Paul Ricard logo mostraram que o carro da Dams não tinha velocidade para entrar na F1

Em outubro, o GD-01 finalmente foi para a pista para um teste em Paul Ricard. Comas e Lammers andaram com o modelo e logo um problema ficou escancarado: o carro era lento. Muito lento. O desenho gigante criava sérios problemas de velocidade tanto em reta quanto em curvas. Com a nova regra de que apenas competidores que fizessem tempo dentro de 107% em relação ao da pole position poderiam largar nas corridas, a impressão de que o a equipe mal conseguiria se classificar para as provas assustou a todos.

Além disso, com a temporada de 1995 chegando ao fim, a equipe precisaria adaptar o modelo para 96. O dinheiro para desenvolvimento, no entanto, tinha acabado. Driot bateu na porta de diversas empresas francesas atrás de um patrocinador que pudesse bancar a continuidade do projeto, mas não conseguiu nada.

Assim, ele resolveu desistir definitivamente da ideia e o GD-01 acabou entrando para a galeria dos carros de F1 que nunca participariam de um GP. O chassi ficou para sempre estocado na sede da Dams, na França, apesar de todos os projetos e dados de desenvolvimento terem ficado de posse da Reynard, que anos mais tarde conseguiria enfim participar da F1 ao construir os carros da equipe BAR, em 1999.

A Dams nunca correu na F1, mas mesmo assim segue levando adiante seu nome cada vez mais forte em outras categorias.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.