Glickenhaus: a boutique de supercarros que promete ir a Le Mans

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Toyota, Peugeot, talvez a Aston Martin e a Glickenhaus. Glickenhaus? Não, você não leu errado. Uma pequena empresa de superesportivos baseada nos Estados Unidos pretende desafiar grandes marcas do mundo automotivo no Mundial de Endurance e nas 24 Horas de Le Mans pela vitória geral.

O WEC está há alguns anos tentando encontrar uma forma de incentivar montadoras a competirem na sua classe principal. Quando viu a LMP1 ruir com as saídas de Porsche e Audi, começou a desenhar a nova hipercarros (LMH), com a intenção de atrair fabricantes de esportivos deste tipo.

O novo regulamento, apesar de ousado, passou longe de empolgar as montadoras. A Toyota se comprometeu com um programa. Aston Martin chegou a anunciar que iria entrar com seu Valkyrie, modelo desenvolvido em parceria com a Red Bull, mas já congelou o programa, sem uma previsão de quando e se realmente irá participar. A Peugeot foi a única marca nova que resolveu encarar a empreitada, com e entrada prevista para 2022.

Assim, o Automóvel Clube d’Oeste (ACO, organizador das 24 Horas de Le Mans) percebeu que precisaria fazer mais e convenceu o WEC a se aproximar da IMSA (categoria americana de endurance). E os dois lados chegaram a um acordo nos últimos meses para uma espécie de convergência em que os protótipos Daytona passarão a ser aceitos na classe principal, como uma subdivisão LMDh, correndo contra os hipercarros. Assim, fabricantes que estão competindo nos Estados Unidos podem participar das duas competições. A Peugeot, inclusive, já avisou que pode reavaliar o plano de construir um hipercarro para talvez adotar um LMDh.

Bem, no meio de tudo isso, surge a Glickenhaus. Desde que os hipercarros de Le Mans foram anunciados, ela levantou a mão como possível participante. Ninguém deu muita bola, afinal, a marca não passa de uma pequena construtora artesanal no interior de Nova York, que fabrica alguns poucos modelos por ano.

Só que a empresa deu sequência ao seu projeto. E agora no começo de junho avisou que tem a intenção, inclusive, de entrar com uma equipe com dois carros na inauguração da nova classe principal em 2021 e que seus primeiros testes de pista com o modelo SCG 007 irão acontecer até final de 2020.

Modelo SGC 007, que a Glickenhaus pretende usar em Le Mans
Modelo SGC 007, que a Glickenhaus pretende usar em Le Mans (Imagem: SCG)

Precisando de competidores, o WEC resolveu finalmente levar a aventura a sério. “Este anúncio animador enfatiza o fascínio por nossa nova classe principal”, declarou Pierre Fillon, presidente da ACO. “Preciso destacar o grande feito da Glickenhaus de tanto construir como promover esse carro. Eu gostaria também de agradecer a Glickenhaus e todas as nossas montadoras pela contribuição, disciplina e confiança em nossos planos para o futuro das corridas de endurance”, seguiu.

Quem é a Glickenhaus

A marca é de propriedade de James Glickenhaus, filho de Seth Glickenhaus, um famoso investidor de Wall Street. Os dois fundaram a empresa Glickenhaus & Co, que administra ativos de milionários.

Com a vida tranquila e bem encaminhada pelos ganhos no mercado financeiro, James Glickenhaus teve tempo para algumas carreiras em setores de seu interesse. Nos anos 80 e 90, por exemplo, se aventurou como diretor, produtor e roteirista de alguns pequenos filmes de Hollywood.

Seu segundo empreendimento, no entanto, é o que mais nos interessa aqui. A marca de carros Glickenhaus. Acontece que James é um grande colecionador de esportivos. Não estamos falando apenas de modelos raros, mas de alguns especificamente incríveis mesmo, muitos de competição utilizados em pista. Como um Ford MKIV J6 utilizado por Bruce McLaren e Mark Donohue. O modelo Lola T-70 Sl 71-32 de corrida, além de algumas Ferrari como uma P3/4 de 1966, 412P de 67 e por aí vai. Você já deve ter entendido o estilo do cara.

Uma de suas diversões era modificar e atualizar alguns desses modelos para deixá-los legalmente utilizáveis nas ruas. Foi quando ele começou seu relacionamento com o renomado estúdio italiano Pininfarina, que se tornaria uma parceria próxima. Juntos, produziram a Ferrari P 4/5, uma releitura moderna da série P de protótipos da montadora italiana dos anos 60.

Bem, uns anos atrás, James se levantou da cama e pensou: “Por que não começar a fabricar meus próprios carros?”. Ele nunca teve a intenção de se tornar uma montadora propriamente, mas uma fabricante de carros de corrida e que, em formato de boutique, também teria seus modelos com uma versão legal para as ruas, com um número de produção bastante limitado.

Modelo 003 da Glickenhaus em competição
Modelo 003 da Glickenhaus em competição (Foto: SCG)

O primeiro projeto foi o SCG 003, projetado por Paolo Garella, ex-Pininfarina. O conceito do carro foi de pegar as regras GTE e GT3 da FIA, mas aplicar um desenho com maior ganho aerodinâmico. O carro utiliza um motor Honda produzido para protótipos Daytona da IMSA, de seis cilindros, preparado pela Autotechnica Motori. O propulsor tem capacidade de produzir 500 cavalos de potência, limitado pela regulamentação da FIA. A versão de rua anda com um motor BMW de oito cilindros twin-turbocharged, de 4,4 litros, que chega a produzir 750 cavalos.

O SCG 003 foi apresentado ao mundo no Salão de Genebra de 2015. Desde então, tem competido em provas de endurance na Europa, principalmente nas 24 Horas de Nurburgring, entre outros eventos do tipo. Em 2019, conseguiu seu resultado mais importante, com o oitavo lugar na geral da prova alemã.

Em 2017, a Glickenhaus recebeu a autorização do governo americano de “Montadora de Baixo Volume”. Ou seja, os carros finalmente puderam passar a ser produzidos para clientes, porém, com uma produção máxima de 325 carros por ano. Os carros eram montados artesanalmente em um galpão em Sleepy Hollow, em Nova York, e custam cerca de 2 milhões de dólares.

SCG Root: o baja da Glickenhau
SCG Root: o baja da Glickenhaus (Foto: SCG)

A empresa está ampliando. Glickenhaus comprou a área de um antigo aeroporto em Danbury, no estado de Connecticut, onde está montando uma fábrica maior. Lá, ele poderá produzir os 325 modelos por ano, que hoje ele não chega nem perto de capacidade, e até mais. Em funcionamento pleno, a empresa fiz que a nova planta poderia chegar a mais de 700 carros por ano, mas, por enquanto, essa não é a ideia e nem está nos planos.

E a Glickenhaus não está parada. Lançou em 2019 o SCG 004 e um o Root, um baja que faz uma releitura do modelo do tipo que Steve McQueen usou no final dos anos 60. Todos os modelos têm a versão legal para rua e de competição.

Le Mans e WEC

Assim que o novo regulamento dos hipercarros do WEC foi lançado, a Glickenhaus avisou estaria lá em 2021. Ninguém levou muito a sério. Aos poucos, a empresa vem mostrando a evolução do projeto, e vai convencendo que pode estar sim na corrida. Em entrevistas à imprensa especializada americana, James afirma que tem um contrato de patrocínio que lhe garante um orçamento de U$ 25 milhões para a empreitada. Mesmo assim, convenhamos, enquanto ninguém ver um carro mesmo, difícil afirmar que que o projeto realmente será concretizado.

Projeto do hiper carro da Glickenhaus, 007, desenvolvido para Le Mans e o WEC (Imagem: SCG)

O SCG 007 está sendo desenvolvido por uma equipe formada por diversos engenheiros com experiência tanto na indústria automotiva como no esporte a motor. Um dos principais projetistas é Mark Tatham, com passagens pelas equipes de F1 Tyrrell (1994-96), Williams (1996-2005), Toyota (2006-09), HRT (2012), projeto Honda na McLaren (2015) e Toro Rosso (2016 a 18).

O chassi está sendo desenvolvido pela empresa italiana Podium Advanced Technologies, que também foi a responsável o SCG 003. “Completamos nossos primeiros testes físicos em túnel de vento. Já alcançamos diversos dos nossos objetivos de engenharia, e estamos aplicando as lições que aprendemos e avançando para nossos objetivos”, explicou a empresa em comunicado oficial no último dia 4 de junho.

Rascunho do esquema do motor do SCG 007 (Imagem: SCG)

O motor do carro não terá sistema híbrido e será desenvolvido pela francesa Pipo Moteurs, mais conhecida por desenvolver propulsores para o rali, incluindo os modelos Hyundai i20, Ford Focus e Peugeot 206, todos do Mundial de Rali (WRC), mas também com clientes nas pistas como a Bentley no GT3. A arquitetura escolhida será um V8 twin-turbo, que, segundo a Glickenhaus, entra em fase de testes no dinamômetro em julho.

Agora, é aguardar os pequenos passos desta garagista que pelo menos promete encarar o desafio de produzir um carro específico para as 24 Horas de Le Mans. Lembrando que o último carro americano a vencer a corrida de Sathe foi o Ford GT, em 1969. Mas só de ver esse carro na pista, de uma forma competitiva, já seria incrível.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.