GP da Austrália com carros de F1 nos anos 50? Rolou, e mais de uma vez

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O douto leitor com certeza conhece a história contemporânea do GP da Austrália: ingressou como etapa oficial da F1 em 1985, no circuito citadino de Adelaide, e em 96 migrou para a pista semi-urbana de Albert Park, onde as últimas 22 edições foram realizadas anualmente de maneira ininterrupta. A 23ª acontecerá no próximo fim de semana.

Só que nem a história do GP da Austrália nem a do circuito Albert Park se resumem a isso. O local já havia recebido uma edição do GP da Austrália (extra-oficial), incluindo particioação de bólidos de, F1 40 anos antes de estrear no calendário do Campeonato Mundial. Pouco depois, repetiria a dose com um evento denominado “GP de Melbourne”. Na verdade nem se trata de um caso tão obscuro assim. É apenas mais uma pequena parte do pouco explorado livro de acontecimentos dos anos 50, que o Projeto Motor vem aos poucos tentando desvelar.

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Nosso “causo” principia em 1953. Sabemos que o maior país da Oceania sempre dispôs de um automobilismo local pujante. Natural, portanto, que diversos páreos fossem organizados nas principais cidades da gigantesca ilha. Um deles, o mais prestigiado de todos, era o GP da Austrália, realizado desde 1928 – com um hiato entre 1940 e 47, pela óbvia razão de que estava ocorrendo uma guerra de proporções mundiais nesse período.

Embora não fizesse parte do calendário da F1, era um evento forte o bastante para carregar o status de Grand Prix. Sua realização era revezada entre os principais centros urbanos australianos e em 53 coube a Melbourne tal responsabilidade. Os organizadores decidiram, então, aproveitar um conjunto de ruas que margeava o lago do Albert Park, bem perto da orla da baía de Porto Felipe.

Traçado original do circuito Albert Park: apesar das semelhanças, o sentido era o oposto do que é usado hoje pela F1
Traçado original do circuito Albert Park: apesar das semelhanças, o sentido era o oposto do que é usado hoje pela F1

O traçado possuía pouco mais de 5 km de extensão e desenho muito similar ao que é utilizado nos dias de hoje (só que com menos curvas e sentido anti-horário. Quer saber? Era uma configuração mais simples, legal e desafiadora do que a atual). Aquela edição contou apenas com ases australianos e monopostos configurados (para não dizer improvisados) localmente. A vitória ficou com Doug Whiteford, a bordo de um Talbot Lago T26C.

A pista permaneceu sem uso em competições até 1956, quando a mágica aconteceu: no esteio da realização dos Jogos Olímpicos daquele ano, justamente em Melbourne, a Confederação Australiana de Automobilismo resolveu realizar um evento de duas semanas no Albert Park, que incluiria um festival de carros de turismo e, de novo, um GP da Austrália mesclando monopostos e protótipos.

Grande diferença é que agora haveria gente de peso no cenário automobilístico global presente, com especial destaque para a Maserati e seus ilustres titulares, Stirling Moss e Jean Behra. Outros nomes fortes na Europa, como Reg Parnell e Peter Whitehead, também compareceram. Só que nem eles nem os volantes locais tiveram qualquer chance contra os Maserati de Sir Moss e Behra. No primeiro páreo, denominado “Troféu Australiano de Turismo”, o britânico sobrou e venceu em dobradinha com o companheiro francês, ambos a bordo do modelo 300S.

No domingo seguinte, 2 de dezembro de 1956, foi realizado enfim o segundo GP da Austrália da história de Albert Park. Moss e Behra disputaram-na utilizando o famoso Maserati 250F (que contribuiu para dois dos cinco títulos de Juan Manuel Fangio, em 1954 e 57), o que significa que, pela primeira vez, um bólido oficial de F1 andava sobre aquele asfalto. Como a prova foi disputada sob o regulamento “Fórmula Livre”, havia permissão para que monopostos de vários tipos e até modelos esporte-protótipos se mesclassem na festa (como o próprio nome sugere). Outros tempos, definitivamente…

Moss contornando a curva "Jaguar", última do circuito, durante o chuvoso GP da Austrália de 56. Repare na quantidade de detritos na pista, consequência de um acidente ocorrido ali pouco antes, e no fiscal tentando atravessar a pista com um extintor de incêndio na mão em meio à corrida. Tom Pryce mandou lembranças a esta cena. Bandeira amarela? Óbvio que não
Moss contornando a curva “Jaguar”, última do circuito, durante o chuvoso GP da Austrália de 56. Repare na quantidade de detritos na pista, consequência de um acidente ocorrido ali pouco antes, e no fiscal tentando atravessar a pista com um extintor de incêndio na mão em meio à corrida. Tom Pryce mandou lembranças a esta cena. Bandeira amarela? Óbvio que não

Em meio a uma competição atrapalhada pela chuva, o domínio da semana anterior não apenas foi mantido como ampliado por Moss. Este completou o percurso de 80 voltas e 400 km em pouco mais de duas horas e meia, tendo quase um giro de vantagem sobre Behra. O colega francês, aliás, foi o único que conseguiu escapar de virar retardatário. Whitehead completou o pódio competindo com uma Ferrari 555. Tudo isso sob o olhar atento de nada menos que 120 mil espectadores.

O sucesso foi tamanho que o Comitê de Administração de Albert Park resolveu criar um evento independente, chamado “GP de Melbourne”, organizado para ter sua primeira edição em 1958 e patrocinado pela petrolífera BP. Moss novamente foi convidado e aceitou, desta vez trazendo consigo o Cooper T45 e seu motor Coventry Climax montado em posição central-traseira, inscrito pela equipe Rob Walker. Seu principal adversário seria o ídolo local em ascensão Jack Brabham, também manejando um T45, só que sob inscrição de time próprio.

Quadro emoldurado com uma fotografia da largada do GP de Melbourne de 58. Repare ao fundo como havia protótipos com rodas cobertas largando no mesmo grid dos F1
Quadro emoldurado com uma fotografia da largada do GP de Melbourne de 58. Repare ao fundo como havia protótipos com rodas cobertas largando no mesmo grid dos F1

Realizado na manhã de 30 de novembro de 58, um domingo, o evento ocorreu novamente sob o regulamento “Fórmula Livre”, só que com extensão encurtada para 32 voltas e 160 km. O calor era intenso a ponto de Moss detectar um superaquecimento no motor. A causa: cabeçote estava esquentando demais e provocando evaporação da água do radiador. Como não daria tempo de consertar, a equipe tomou uma decisão que lhe traria importante vantagem: correr sem carenagem cobrindo o motor. Brabham até assumiu a liderança na largada, mas Stirling ultrapassou-o como um foguete e começou a abrir cerca de 2 segundos por volta, até alcançar vasta diferença na casa de 50 segundos.

A tática do “coelho em disparada” deu certo, porque a água do radiador acabou restando oito passagens para a bandeirada e o bretão teve, então, que reduzir o ritmo. Como a vatangem era enorme, ele pôde administrá-la sem sustos e recebeu a bandeira da vitória ainda 30 segundos à frente do rival. Doug Whiteford – lembra dele, o vencedor da edição de 53? – completou em terceiro dirigindo um Maserati 300S esporte-protótipo. No YouTube há um vídeo muito bem produzido pela BP com um resumo bastante detalhado e com boa seleção de imagens da corrida, algo raríssimo para aquela época. Assista abaixo:

O problema é que o público caiu quase pela metade em relação a dois antes, cerca de 70 mil presentes, e isso desestimulou promotores a seguirem adiante com o evento. A imagem derradeira que ficou foi a de Moss, celebrado pelos fãs e ostentando a coroa do vencedor sobre os ombros, acendendo um cigarro enquanto esperava o helicóptero que o levaria direto ao aeroporto. Dali ele iria para as Bahamas, onde disputaria outro páreo na semana seguinte. E a F1 só se reencontraria com Albert Park e as ruas que margeiam seu belo lago quase 40 anos depois.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.