GP da Áustria, a prova que transformava Schumacher em um piloto comum

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Não é segredo algum que Michael Schumacher é o grande protagonista do livro de recordes da F1. Para ser mais preciso, o alemão encabeça as estatísticas nos quesitos títulos mundiais (7), vitórias (91), poles (68), pódios (155), melhores voltas (77), além de uma série de outros requisitos de importância secundária.

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Schumi também se destaca quando são analisados os números individuais de cada prova que disputou. Por exemplo, ele é o recordista de vitórias nos GPs da Alemanha (4), Austrália (4), Bélgica (6), Canadá (7), Espanha (6), Europa (6) França (8), Itália (5), Japão (6) e San Marino (7). No entanto, há uma etapa em seu currículo em que o heptacampeão não registrou nem números tão expressivos, nem desempenhos dignos de seu talento: o GP da Áustria.

Retrospecto de Schumacher na Áustria incluiu diversos contratempos (Getty Images)
Retrospecto de Schumacher na Áustria incluiu diversos contratempos (Getty Images)

O heptacampeão largou em seis corridas na Áustria, com duas vitórias, duas pole positions e outros dois pódios. À primeira vista, os números não são dos piores. Porém, analisando mais a fundo, as atuações de Schumi em Spielberg tiveram erros de pilotagem importantes e alguns infortúnios, além daquele que foi indiscutivelmente o maior vexame da carreira do piloto.

“As pessoas sempre me perguntam por que nunca me dei bem na Áustria. As pessoas acham que eu não gosto desta pista, mas não é verdade. É que as coisas nunca se encaixaram perfeitamente para mim. A pista não é das mais difíceis, nem das mais rápidas, mas é definitivamente interessante.”

“Mas como assim?”, você pode perguntar. Calma, nós vamos entrar em detalhes. O Projeto Motor relembra, uma a uma, cada atuação de Schumacher em Spielberg, a pista que transformava o heptacampeão em um piloto comum. Confira abaixo!

1997, o descuido que pode ter custado o título

Depois de passar por uma longa reforma, o circuito de Spielberg (chamado na época de A1 Ring) retornava à F1 em 1997. A relação de forças parecia bagunçada desde a classificação, com bons desempenhos dos carros equipados com pneus Bridgestone – no caso, a Prost de Jarno Trulli, o terceiro no grid, e as Stewart de Rubens Barrichello (quinto) e Jan Magnussen (sexto).

Schumacher ficou sem combustível durante sua última volta rápida no treino, o que o colocou em um modesto nono lugar no grid. Foi a única vez naquele ano em que o alemão foi superado em qualificação por seu companheiro de Ferrari, Eddie Irvine, o oitavo.

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Calçado com os pneus mais duros da Goodyear, Schumacher fez boa prova de recuperação e estava na disputa por um pódio. Contudo, ele cometeu um erro incomum na volta 39, quando ultrapassou a Williams de Heinz-Harald Frentzen sob bandeira amarela. Resultado: Schumacher precisou pagar um stop-and-go e viu um potencial terceiro lugar se transformar em um sexto. Certamente os três pontos que deixou de marcar fizeram falta na disputa do título do ano, que acabou nas mãos de Jacques Villeneuve.

1998, ajudado pelo companheiro (parte 1)

Nas primeiras provas do campeonato de 98, Schumacher parecia impotente diante da árdua missão de parar a McLaren de Mika Hakkinen. E, no GP da Áustria, o alemão se deixou afobar e novamente cedeu a um erro de pilotagem que não costumava cometer.

Devido à chuva no treino classificatório, o grid para a prova estava bagunçado. Porém, Hakkinen e Schumacher conseguiram disparar na ponta pouco depois da largada, protagonizando as ações em primeiro e segundo, respectivamente.

O alemão estava no encalço de Hakkinen na disputa pela liderança do campeonato, e sabia que uma vitória em Spielberg deixaria mais vivo que nunca o sonho do improvável título. Justamente por isso, Schumacher esbanjava agressividade ao volante, tentando ultrapassar o finlandês de todo jeito. Na volta 17, entretanto, o ferrarista foi longe demais: passou reto na penúltima curva, o que destruiu seu aerofólio do carro quando pegou o “degrau” da transição da grama para a caixa de brita.

Para piorar, o incidente ocorreu justamente metros depois da entrada dos boxes, o que obrigou Schumacher a completar uma volta inteira com o carro destruído. Quando enfim foi à garagem para fazer os reparos, o alemão voltou em último e fez boa prova de recuperação. Contudo, o pódio só foi possível graças à ajudinha de Irvine, que cedeu o terceiro posto ao colega a quatro voltas do fim.

2000, “zica” do começo ao fim

A Ferrari só veio a triunfar em Spielberg em 1999, com Irvine, na primeira corrida após a fratura na perna de Schumacher em Silverstone. Para 2000, assim, esperava-se que a Ferrari pudesse dar ao alemão sua primeira vitória no circuito e espantar a maré de azar.

O que aconteceu foi o contrário. No sábado, Schumacher foi superado por seu companheiro Rubens Barrichello, sendo relegado ao quarto posto do grid. E, logo na largada, quando tentava se recuperar – ele já contornava a curva 1 à frente do brasileiro –, o alemão foi tirado da prova por Ricardo Zonta, que perdeu o ponto de freada e deu um “totó” na traseira da Ferrari.

2001, ajudado pelo companheiro (parte 2)

Schumacher anotou sua primeira pole em Spielberg em 2001 e parecia destinado a enfim vencer o GP da Áustria. Mas, assim como no ano antes, o alemão viu suas chances diminuírem logo nos metros iniciais, quando foi superado pelas Williams de Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher antes mesmo da primeira curva.

Barrichello cedeu posição a Schumacher em 2001 (Ferrari)
Barrichello cedeu posição a Schumacher em 2001 (Ferrari)

O piloto da Ferrari assumiu o segundo posto com um erro de seu irmão mais novo, e, voando baixo, passou a “fungar no cangote” do colombiano pela primeira posição. Na volta 15, Schumacher tentou passar Montoya por fora, sendo que o piloto da Williams fechou a porta e fez com que os dois passassem reto.

O alemão, então, teve de se recuperar e ultrapassar Olivier Panis e Kimi Raikkonen. Porém, ele não conseguiu ir além do terceiro lugar, atrás de David Coulthard, o líder, e Barrichello. O brasileiro, sob ordens da Ferrari, cedeu o segundo lugar ao colega a metros do fim. Era apenas uma palhinha do que viria por aí.

2002, a vitória com gosto de derrota

A história do GP da Áustria de 2002 é amplamente conhecida até mesmo por aqueles que não acompanham a F1 tão a fundo. Nos livros de estatística, a prova marcou o fim do jejum de Schumacher no circuito de Spielberg, mas, na prática, foi um dos pontos mais baixos da vitoriosa carreira do alemão.

Áustria 2002

Na pista, todos lembram do que aconteceu: Barrichello marcou a pole e liderou Schumacher do começo ao fim, mas assim como aconteceu no ano anterior, cedeu a posição ao colega nos metros finais. Como os holofotes eram maiores por se tratar da primeira posição, a repercussão foi tenebrosa para a imagem de todos os envolvidos.

Naquele episódio lamentável, pode-se questionar o papel de todas as partes: da Ferrari, pela ordem em si, e até mesmo de Barrichello, que, mesmo ciente de seu papel, fez questão de ceder a posição somente no fim, o que colocou a Ferrari em uma saia justa imensamente maior do que já ocorreu em outras ordens de equipe que foram cumpridas de forma mais discreta.

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Porém, Schumacher também agiu de maneira lamentável. Não que o alemão devesse recusar a vitória: vários e vários pilotos de destaque já ganharam posições de bandeja através de ordens de equipe. Contudo, Schumi sucumbiu diante da reação negativa da torcida no autódromo, e, em vez de assumir as consequências da vitória que recebeu, comportou-se como se tivesse sido mais uma vítima de todo episódio. Certamente foram os 10 pontos mais maléficos de toda a carreira de Schumacher.

2003, a redenção no adeus

Áustria 2003

Era a despedida do circuito de Spielberg da F1, o que representava a última chance de Schumacher obter uma vitória real no local. E, justamente, foi a única vez em que tudo se encaixou a seu favor.

Para não dizer que não houve contratempos, Schumacher teve de superar um princípio de incêndio em um de seus pitstops de reabastecimento. Mas, fora isso, o alemão teve atuação impecável, com direito a pole position e liderança dominante, inclusive vendo um potencial rival à vitória, Montoya, parar no caminho.

Depois disso, o circuito da Áustria deixou a F1 e só veio a retornar dez anos mais tarde. Ainda bem: apesar de simples para os padrões da categoria, é uma pista que pode ser uma pedra no sapato até para os mais geniais pilotos.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.