Grand Prix Masters, a breve categoria que reviveu lendas da F1

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O tempo médio de carreira de um piloto na F1 pode ser considerado curto se comparado ao que acontece em outras profissões. Se em outras áreas é possível estar em plena forma durante a entrada na terceira idade, no automobilismo (e em esportes em geral, diga-se) a aposentadoria já começa a ser cogitada para aqueles que superam os 35 anos de idade.

Isso quase sempre frustra os competidores que ainda consideram ter “lenha para queimar”, já que muitas vezes são descartados pelas equipes quando os próprios ainda consideram ter o desejo e condições de competir. Este foi basicamente o raciocínio por trás da Grand Prix Masters, categoria que, na década passada, serviu como o reencontro de veteranos da F1.

Tudo começou a ser confabulado no final de 2003, quando Scott Poulter, ex-profissional do windsurfe e executivo de uma empresa de marketing com atuação no automobilismo, se inspirou em torneios de veteranos no tênis e no golfe para criar uma competição equivalente no mundo das corridas.

GP Masters Testing
Manuel venceu duas das três corridas realizadas pela GP Masters (Divulgação)

Assim, a Grand Prix Masters, lançada oficialmente em março de 2005, serviria para os decanos como uma última oportunidade para apagar a chama pelas competições. Para poder participar, o piloto precisaria ter encerrado sua passagem pela F1 há pelo menos dois anos e ter no mínimo 45 de idade no dia 1º de janeiro de 2006.

A fim de deixar a competição mais equilibrada, a categoria forneceria carros idênticos a todos os pilotos. O modelo, inspirado nos carros da CART do fim dos anos 1990, foi fabricado pela Delta Motorsport, formada por antigos funcionários da Reynard. Ele era equipado com um motor Cosworth V8, capaz de gerar mais de 600 cv e atingir 320 km/h. Com exceção do câmbio semiautomático de seis marchas, tratava-se de um carro à moda antiga, sem recursos eletrônicos e com freios de aço.

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Um dos primeiros a ser sondado, Nigel Mansell não só aceitou o convite como também atuou como um dos principais embaixadores da GP Masters. Emerson Fittipaldi inicialmente hesitou, tanto por preocupações com a segurança quanto por motivos médicos devido ao acidente que havia encerrado sua carreira na Indy, em Michigan em 1996. Depois de testar o carro da categoria, o bicampeão mundial topou o desafio.

GP Masters Testing
A GP Masters esperava receber 20 pilotos em sua temporada de estreia (Divulgação)

A GP Masters, no entanto, não conseguiu atrair todos os campeões mundiais que almejava. Alain Prost chegou a se comprometer verbalmente à categoria, mas não chegou a competir, enquanto que Damon Hill (que experimentou o carro em Silverstone) rejeitou o convite a fim de evitar correr riscos nas pistas. Algo semelhante aconteceu com Alan Jones, que desistiu de correr ao perceber que seu pescoço não aguentava mais as exigências de um monoposto.

Apesar das recusas, o grid inicial da categoria era de respeito. Além dos campeões Mansell e Fittipaldi, também participaram Riccardo Patrese, Patrick Tambay, Jacques Laffite, René Arnoux, Derek Warwick, Stefan Johansson, Andrea de Cesaris, Jan Lammers, Eddie Cheever, Hans-Joachim Stuck, Christian Danner e Eliseo Salazar – sim, aquele mesmo. E, com a confirmação de que o lendário narrador inglês Murray Walker conduziria a transmissão oficial para a primeira corrida, o clima de nostalgia estava completo.

Carros na pista

A GP Masters realizou um evento teste entre 11 e 13 de novembro de 2005, no circuito de Kyalami, na África do Sul. A prova não contaria pontos para o campeonato, mas serviria para experimentar o formato da categoria e verificar o rendimento não só do novo carro, mas também dos enferrujados pilotos.

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O resultado não poderia ser melhor. O conjunto apresentou pouquíssimas falhas mecânicas e os pilotos “aguentaram o tranco” da prova. A presença de nomes de destaque atraíram 78 mil torcedores à pista, número consideravelmente maior em relação à última corrida de F1 no local, em 1993.

Mansell conquistou a pole position e venceu de ponta a ponta, suportando uma pressão implacável de Fittipaldi, que cruzou a linha de chegada 0s4 atrás. Os antigos rivais da Indy fizeram corrida à parte, já que o terceiro colocado, Patrese, ficou mais de 20s em atraso.

A corrida seguinte já serviria de abertura para a temporada de 2006. No fim de abril, a categoria foi a Losail, no Qatar, e viu um novo domínio do campeão de 92: pole position e vitória de ponta a ponta. Christian Danner foi o segundo, e Fittipaldi, discreto, foi apenas o 12º.

Em seguida, a GP Masters iria a Monza, em julho, mas as leis antirruídos locais provocaram o cancelamento da etapa. Assim, a próxima corrida somente aconteceu em agosto, em Silverstone.

Mansell parecia destinado a mais uma pole position, mas seu carro quebrou em plena volta lançada. Assim, a posição de honra ficou Danner, e Eddie Cheever cravou a vitória sob chuva.

O fim da jornada

Depois da corrida em Silverstone, a categoria começou a minguar do noticiário. A prova na África do Sul, que concluiria a temporada, em novembro, não aconteceu após desentendimentos com os organizadores locais. Além disso, a GP Masters perdeu o embalo com o público pelo lançamento de outras categorias, como a Superleague, que envolveria times de futebol, e a Speedcar, que também atraiu pilotos veteranos.

Rivais na Indy, Mansell e Fittipaldi travaram breve duelo na GP Masters
Rivais na Indy, Mansell e Fittipaldi travaram breve duelo na GP Masters

Mesmo assim, a GP Masters fazia planos para a temporada de 2007, com a substituição dos motores (que passariam a ser unidades Mecachrome 4 litros) e um calendário que previa corridas na Romênia e no Qatar. Os problemas financeiros, no entanto, continuaram atrapalhando os planos, e Delta Motorsport pediu pela falência da categoria em novembro, pouco mais de dois anos depois do sucesso em Kyalami.

Para a tristeza dos mais nostálgicos, a GP Masters não conseguiu o sucesso que se esperava incialmente, e desde então não houve mais nenhuma categoria que colocou veteranos em igualdade de condições na pista. Ao menos, a jornada serviu para mostrar às novas gerações um pouco do talento de grandes nomes do automobilismo que marcaram história nas pistas.

Assista ao Debate Motor #24 com a análise do início da temporada da F1:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • MarcioD

    Achei a ideia muito interessante. Gostei da igualdade de equipamentos, da ausência de recursos eletrônicos( exceto o câmbio), das disputas, do ronco bacana do “velho” Cosworth.

    Agora se a aposentadoria na F-1 é por volta dos 35, então vejo que deveriam ter começado com 40 e
    não 45, porque teríamos um lapso de tempo bem menor e pilotos mais “animados”.

    Acredito eu que se tivessem começado somente na Europa, principalmente incluindo circuitos como Zandvoort, Brands Hatch, Estoril e etc. que não são mais utilizados na F-1 ou até mesmo Mugello, resgatariam um certo saudosismo que ajudaria a categoria a crescer e ai então isso seria usado como “Marketing” para correr fora da Europa.

    Mas já de cara incluíram circuitos fora do velho continente e ai acho que acabaram se complicando.

    • Concordo plenamente com você, Márcio. O exemplo da GP Masters mostra que, com 45 anos de idade e sem competir há dois anos, o piloto já perdeu o embalo e começou a se preocupar com coisas que normalmente não se preocuparia se estivesse em atividade.

      Foi o que aconteceu com o Damon Hill, que não quis correr para evitar riscos, e até mesmo com o Alan Jones, que topou o convite, mas não teve condições físicas. Com 40 anos, o piloto ainda tem uma forma física considerável e muitos ainda possuem o desejo pela competição quase que intacto.

      Eu acho que seria legal demais uma categoria hoje em dia com Hakkinen, Coulthard, Barrichello, Villeneuve, e até mesmo algumas figuras mais antigas como Alesi, Brundle, Berger ou Herbert. Na GP Masters, como a idade era um pouco mais avançada, havia uma disparidade muito grande de performance, já que havia alguns ali que beiravam os 60.

      Talvez seria bacana se uma categoria nesses moldes fizesse uma prova preliminar da F1. Não necessariamente no campeonato inteiro, já que é logisticamente mais difícil, mas em algum fim de semana em específico. Seria interessante se virasse uma espécie de tradição ter uma corrida de veteranos em Silverstone, Monza ou Spa. Seria bom para os fãs e para os pilotos também. Abraços!