Grandes Carros #7: MP4/2, o início de uma era de vitórias na McLaren

1

A McLaren teve belos momentos nos anos 60 com seu fundador, Bruce, e se tornou uma equipe importante na década de 70 quando venceu seus primeiros títulos, com Emerson Fittipaldi e depois James Hunt. Mas o time só se transformou em um gigante mesmo dentro da história da F1 a partir de meados dos 80, quando passou a vencer ou estar sempre na briga dos campeonatos.

E o carro que iniciou essa nova era na McLaren foi, sem dúvida nenhuma, o MP4/2, o modelo que não só dominou a temporada de 1984, como foi base para os triunfos de 85 e 86, deixando um legado que impulsionaria a equipe por mais vitórias nos anos subsequentes.

Para chegar a este modelo, porém, a McLaren teve que passar por transformações importantes. No final da década de 70, a equipe liderada por Teddy Mayer deixou de existir. A fusão com a Project Four, de Ron Dennis, começou a mudar as coisas. O americano deixou definitivamente o time em 82, deixando espaço para um novo investidor, Mansour Ojjeh, um dos donos da empresa de engenharia e tecnologia TAG, em 83.

Dennis percebeu que após a arrumação administrativa e de engenharia, durante os primeiros anos da década, precisava de um motor que pudesse fazer frente aos potentes turbos de Ferrari, Renault e BMW. Assim, convenceu Ojjeh a investir na preparação de um propulsor V6 turbo da Porsche, que seria rebatizado de TAG, para substituir os ultrapassados Cosworth.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Assim, começou a tomar forma um projeto ousado para 1984. A McLaren levou os novos motores para GPs já no final de 83 para ter tempo de desenvolvimento. Paralelamente, o projetista John Barnard, que chegou ao time junto com Dennis em 80, trabalhou no novo chassi. Com o MP4/1 já precisando de uma evolução maior do que suas variações B, C e E, usadas de 81 a 83, com a chegada do novo motor fazia todo sentido partir para uma nova base.

O desenvolvimento do MP4/2 partiu de uma evolução do MP4/1E, que foi o primeiro carro a receber os motores TAG-Porsche, nas quatro provas finais de 83. O carro já era basicamente um ensaio para o modelo do ano seguinte, com testes na instalação do propulsor e conceitos aerodinâmicos já bem mais próximos do que viria a ser o novo bólido do que seus predecessores.

A evolução tanto do chassi quanto do motor ficou bem aparente com o bom desempenho na etapa final daquele ano, em que Niki Lauda chegou a brigar pela vitória na África do Sul. Agora, faltariam os acertos finais para a época seguinte. E Barnard e a McLaren acertaram em cheio em suas apostas.

O foco ficou em fazer um carro consistente e que pudesse se adaptar a todo tipo de pista. O motor era menor do que o antecessor e o turbocharger ficou posicionado o mais para frente possível enquanto a caixa de câmbio se aproximou do propulsor na parte de trás, livrando um espaço maior na traseira do carro para um desenho mais aerodinâmico. Barnard trabalhou nisso para que o modelo tivesse uma boa tração e uma traseira o mais no chão, o que fazia do MP4/2 o melhor carro no grid em curvas longas e de alta velocidade.

Com a parte traseira mais estreia e aerodinâmica, além de uma asa refinada e com aletas, o McLaren MP4/2 era muito forte em curvas de média e alta velocidade

A TAG também fez um bom trabalho. Mesmo que o carro não tivesse a mesma força na classificação da BMW, o que levou Nelson Piquet a fazer nove pole positions em 1984 com a Brabham, o motor empurrava muito bem em condições de corrida e ainda sofria poucos problemas. Um dos segredos era a ótima eficiência no consumo de combustível durante as provas, deixando os pilotos à vontade para usarem mais pressão do turbo. A confiabilidade do carro, no geral, era muito boa, em tempos de quebras a rodo na F1.

Para completar o pacote, a equipe ainda contratou Alain Prost para correr ao lado do experiente Niki Lauda, juntando dois pilotos que eram conhecidos pelo bom trabalho de desenvolvimento dentro e fora da pista.

Com esta receita, a McLaren teve a sua primeira temporada dominadora. O time venceu 12 das 16 corridas do ano. Duas das dobradinhas foram marcantes pela diferença para os oponentes, com apenas os dois carros da equipe na mesma volta na África do Sul, e uma diferença de mais de um minuto para o terceiro colocado na Holanda. No total, foram quatro finais com primeiro e segundo lugares, o que na época era o novo recorde.

O motor Porsche preparado pela Porsche foi fundamental para o sucesso do McLaren MP4/2

As poucas derrotas aconteceram em circuitos em que o tempo estava muito quente ou que existiam muitas curvas de baixa, casos principalmente dos circuitos de rua de Dallas, Detroit e Montreal, onde os freios de carbono do MP4/4 sofriam mais do que os de aço, utilizados pela maioria das outros equipes do grid na época.

Como o material ainda era relativamente uma novidade para no uso da peça, a McLaren demorou um pouco para se encontrar na questão de resfriamento dos freios através de diferentes desenhos de dutos de ar, sofrendo boa parte do ano com superaquecimento e desgaste acima do normal do sistema nestas pistas. Outra fraqueza era a caixa de câmbio, que ainda era a mesma projetada na época do motor Cosworth e que não estava devidamente dimensionada para a força maior do TAG-Porsche.

No final da temporada, Lauda foi campeão por meio ponto sobre o companheiro Prost e o time levou o campeonato de construtores com 143,5 pontos contra 57,5 da vice, a Ferrari. Um passeio.

Prost e Lauda sobraram em 1984 com a McLaren MP4/2

Para 1985, a equipe precisou redesenhar algumas partes e peças aerodinâmicas para se adaptar ao novo regulamento, que baniu aletas na asa traseira. Mesmo com novos detalhes, a base era a mesma e por isso levou o nome de MP4/2B. Os rivais se aproximaram bastante em relação ao que foi o ano anterior, mesmo assim, não o bastante para barrar novas conquistas da McLaren. Desta vez, Prost finalmente conquistou seu primeiro título, com 20 pontos de vantagem sobre o vice, Michele Alboreto, de Ferrari.

Mesmo com pouca ajuda de Lauda, que teve uma época bastante difícil prestes a abandonar de vez as pistas ao final do campeonato, o time inglês ainda levou a competição entre os construtores com 90 tentos contra 82 da escuderia de Maranello.

Por conta do novo regulamento para 1985, a McLaren teve que redesenhar asas traseira e dianteira do MP4/2 para 1985, as deixando mais simples

A temporada de 1986 foi certamente a mais difícil para o MP4/2. O modelo C tinha apenas alguns ajustes na parte aerodinâmica e basicamente era o mesmo do ano anterior. O campeão de 1982, Keke Rosberg, chegou à McLaren substituindo Lauda.

A Williams, porém, tinha certamente o melhor carro para o campeonato com seu novo FW11. O título de pilotos, mesmo assim, acabou ficando com Prost, que se utilizou de seu bom encaixe de estilo de pilotagem suave exigida pelo carro da McLaren e se manteve constante o ano inteiro. Do outro lado, a nova dupla do time rival, formada por Nelson Piquet e Nigel Mansell, dividiam os pontos em uma briga interna.

Prost terminou a temporada levantando o caneco na última corrida, em Adelaide, com dois pontos de vantagem sobre Mansell e três para Piquet, principalmente por conta de problemas dos adversários. Entre as equipes, a McLaren foi amplamente superada pela Williams, marcando apenas 96 pontos contra 141 da adversária, já que Rosberg pouco conseguiu fazer com o carro, pois seu estilo mais arrojado de freadas dentro das curvas não casou com o MP4/2.

De qualquer maneira, ficava evidente que a base do projeto estava superada e que algo novo precisava ser feito para 1987. Com a saída de Barnard para a Ferrari, a McLaren investiu em um novo projetista, Steve Nichols, que investiu em novos conceitos para os anos seguintes, aposentando o MP4/2.

O legado, de qualquer maneira, foi de três títulos de pilotos e dois de construtores em três temporadas e 22 vitórias em 48 corridas. Por muitos anos, esta foi a base para o sucesso da McLaren nos anos vindouros.

Confira outros textos da série “Grandes Carros”:
McLaren MP4/4, o compacto que quase atingiu a perfeição na F1
312T, a série que recolocou a Ferrari no topo da F1
– O Williams “de outro planeta” que humilhou a concorrência
– Ferrari 500, um F2 que dominou a F1 nos anos 50
– Lotus 72, o modelo que marcou uma geração na F1
– F2002, a obra de arte da Ferrari que dominou a F1


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.