Grandes Carros de Le Mans #4: R8 e R10 colocam a Audi no topo

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Não existe dúvida que nos últimos 16 anos a Audi é a grande marca a dominar Le Mans. Desde 2000, apenas outras três fabricantes conseguiram furar a sequência dos carros das argolas: Bentley, em 2003, em uma parceria com a própria empresa alemã, Peugeot, em 2009, e a Porsche, em 2015.

Neste período, são 13 triunfos na corrida de Sarthe, o que alçou a companhia de Ingolstadt à segunda colocação no ranking histórico de triunfos da prova, atrás apenas da prima Porsche, com 17.

Para este domínio, muito dinheiro e trabalho foi empregado para o desenvolvimento de diversos modelos, em especial os vitoriosos: o R8, R10 TDI, R15 TDI plus , R18 TDI e R18 e-tron quattro. Não há dúvidas que os três últimos são carros fantásticos, ápice de uma engenharia focada no evento de 24 Horas francês. Mas os dois primeiros ganham um maior destaque em nossa série pelos seus números e representatividade.

Leia os outros textos da série:
– A potente Alfa 8C e o revolucionário D-Type
– O vingativo Ford GT e o icônico Porsche 917
– O unânime Porsche 956 e o polêmico Mazda 787B

Vamos lá:

R8

O modelo é o primeiro da Audi a vencer uma corrida em Le Mans, em 2000, e, até hoje, é o maior ganhador da história, levando para a conta da empresa cinco triunfos até 2005.

Pode-se dizer que o seu desenvolvimento começou em 1998, quando a companhia tomou a decisão de entrar na edição do ano seguinte, diante da participação de tantas outras montadoras, como Mercedes, Porsche, Nissan, Toyota, BMW, entre outras. Além disso, com a formação da American Le Mans Series, um carro que pudesse competir nos dois lados do Atlântico passou a fazer ainda mais sentido mercadologicamente.

Audi R8R, de 1999
Audi R8R, de 1999

Dois modelos foram construídos: o R8R, protótipo aberto equipado encomendado à Dallara, com um motor V8 biturbo de 3,8 litros de cerca de 540 cavalos, e o R8C, protótipo fechado, seguindo o regulamento LM-GTP, recém-criada no lugar da GT1 e que permitia maiores restritores de ar, o que levava o mesmo propulsor a gerar aproximadamente 600 cv. Por outro lado, esses carros deveriam utilizar pneus e tanques de combustível menores.

O R8R terminou na terceira e quarta colocações na geral, porém, mais por sobreviver à corrida e herdar posições do que por uma boa atuação. Já os R8Cs foram mal, não conseguindo em nenhum momento mostrar um bom desempenho, e abandonando com problemas na caixa de câmbio.

A Audi resolveu seguir investindo para 2000, com o R8R se tornando base para um novo protótipo, enquanto o R8C era aposentado (ele se tornaria ainda alicerce para o Bentley Speed 8, vencedor da corrida em 2003, mas isso é outra história).

O departamento esportivo da empresa entrou ainda mais forte no projeto, seguindo com a parceria com a Dallara e especialmente com a tradicional equipe Joest. O R8 teve o chassi redesenhado, com um novo monocoque, em fibra de carbono. O chassi foi pensado para poder receber reparos, consertos e trocas de peças rápidas, para não se perder tempo durante a prova.

Tom Kristensen, no Audi R8 durante as 24 Horas de Le Mans de 2000
Tom Kristensen, no Audi R8 durante as 24 Horas de Le Mans de 2000

Para isso, toda a parte traseira, incluindo a suspensão, foi concebida como um seguimento único. Por isso, a equipe poderia simplesmente retirar a traseira inteira e colocar uma nova no lugar. O modelo acabou ganhando até um apelido de carro-Lego pelo conceito.

O R8 ainda recebeu um motor V8, de 3,6 litros, com tecnologia FSI, uma variação do sistema de injeção direta de gasolina desenvolvido pela Volkswagen. Oficialmente, ele gerava 610 cavalos, mas rumores da época encontrados em várias fontes apontam para uma potência de até 670 em sua versão para a pista de Le Mans.

A estreia em 2000 foi um verdadeiro passeio, com a Audi abocanhando as três primeiras colocações na geral, com uma diferença de 21 voltas (!) entre o seu R8 que ficou em terceiro e o Courage C52 da Pescarolo, quarto. Só que a vitória acabou sendo bastante facilitada pela falta de competidores ligados a outras marcas, já que muitas abandonaram a competição.

Em 2001 e 2002, o carro seguiu dominando Le Mans, batendo a Bentley, que entrou com seu novo modelo Speed 8, construído com assistência da própria Audi. Por outro lado, o R8 acabou ficando marcado pela trágica morte do italiano Michele Alboreto, durante um teste em 2001, após um estouro de pneu que resultou em uma forte batida, durante um teste no circuito de Lausitzring.

Em 2003, a empresa alemã resolveu não inscrever nenhum carro em equipe de fábrica, deixando os R8 nas mãos apenas de times privados. O resultado foi que, sem outra ameaça, a Bentley conseguiu cumprir o objetivo de seu projeto de levar a vitória na prova.

Novamente sem outro rival à altura por conta da desistência da Bentley, o R8 voltou a vencer as 24 Horas em 2004, pela Audi Japão, mas sem apoio oficial da empresa alemã, mostrando que o modelo ainda era o principal de sua era. Só que isso começou a mudar no ano seguinte, quando, apesar do triunfo, o carro recebeu alguma pressão de outros competidores.

Isso aconteceu não só pela idade do projeto, mas também pelas restrições cada vez maiores impostas pela ACO, que tentava equilibrar a disputa. A Audi então anunciou que, após seis anos, iria aposentar o R8 e que estava se preparando para retornar com equipe oficial e um modelo completamente novo.

R10 TDI

Se você pesquisar a história deste carro, vai ver inúmeras entrevistas de pilotos como Tom Kristensen, Rinaldo Capello e Allan McNish em que o destacam como um modelo verdadeiramente especial.

O projeto começou a ser desenvolvido em segredo em 2003, quando a Audi resolveu deixar seus R8 nas mãos apenas de times privados em Le Mans. O R10 TDI já chegou trazendo de cara um conceito que esperava revolucionar as 24 Horas de Le Mans: o motor à diesel. Em 2006, em sua estreia, ele se tornou o primeiro vencedor da corrida a usar um combustível alternativo.

Audi colheu várias vitórias pelo mundo com seu R10 TDI
Audi colheu várias vitórias pelo mundo com seu R10 TDI

O propulsor era um monstro de 12 cilindros biturbo com capacidade de deslocamento de 5,5 litros com bloco em alumínio, para minimizar ao máximo o peso. O “TDI” do nome do carro vem de “Injeção Direta Turbocharged”, tecnologia desenvolvida para motores a diesel da Volkswagen. O motor entregava por volta de 650 cavalos.

A decisão de adotaro motor a diesel foi comercial, aproveitando-se do incentivo que FIA a ACO (Automóvel Clube do Oeste, organizador das 24 Horas) ao aproveitamento de novas fontes de energia no lugar da gasolina. A Audi queria vender sua tecnologia ao mostrar que esportivos também poderiam andar com sucesso com este tipo de combustível.

24h Le Mans 2008O chassi foi desenvolvido pela Audi, mais uma vez em parceria com a Dallara, que ficou responsável pela construção de 10% do carro. O seu maior problema era o peso, principalmente por conta do V12, o que chegou a deixá-lo, em sua primeira versão para 2006, com um sobrepeso de 25 Kg. A questão prejudicava o acerto porque não permitia que os engenheiros utilizassem lastro para equilíbrio do carro, mas foi resolvida ao longo do tempo.

Os pilotos que andaram com o R10 o chamavam de “besta” pela sua força. Ao mesmo tempo, diziam que era um carro que exigia uma pilotagem bastante agressiva todo o tempo. Em um texto para a revista inglesa Motorsport, McNish chegou a destacar que o estilo de condução do modelo em Le Mans era o mesmo em volta única e durante as 24 Horas de corrida.

Você tinha que atacar, em todas as voltas da corrida. E o fenômeno mais bizarro era que você poderia pilotar o carro na corrida na mesma velocidade da classificação. Às vezes não largávamos na frente, mas sabíamos que em ritmo de corrida, estaríamos de novo na briga.

Sem concorrência de outras marcas, a Audi levou o R10 à vitória em sua estreia em 2006. No ano seguinte, porém, os alemães tiveram que enfrentar a Peugeot, que chegava com seu novo 908 HDi FAP, também movido a diesel. Sem problemas: a empresa das argolas derrotou a rival por dois anos seguidos, em uma briga brutal e de alto nível. Em 2008, a diferença entre o trio vencedor da Audi para o da marca francesa que ficou em segundo foi de apenas 4 minutos.

Com três triunfos em três anos, a Audi resolveu aposentar o R10 para investir em uma evolução, o R15 TDI, terminando a história deste fantástico carro em Le Mans de forma invicta.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.