Guy Ligier, o empreendedor do pós-guerra que virou chefe de equipe na F1

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Morreu, no último domingo (23), um dos protagonistas da história da F1: Guy Ligier. Pelo sobrenome, sua figura já dispensa apresentações. Entre 1976 e 1992, Guy liderou a simpática escuderia que, por muito tempo, especialmente nos últimos anos, foi sinônimo da França no esporte. Um epíteto que, como veremos a seguir, era perfeitamente justificável pelas sensíveis ligações do time com o governo do país.

De qualquer forma, voltemos a Guy Ligier. Nascido em Vichy, região do Auvergne – a terra do famoso Vercingetórix, terror dos romanos –, a 12 de julho de 1930, Guy era um daqueles sujeitos cuja vida parecia predita à penúria. Órfão, seus primeiros anos se passaram num açougue, como aprendiz. Em paralelo, no entanto, sua carreira esportiva deslanchou ainda na adolescência, quando se sagrou campeão francês de remo e, pouco depois, integrou a seleção B de rúgbi do país.

Ambicioso, o jovem atleta entesourou fundos suficientes para comprar uma escavadeira de segunda mão com a qual deu início a uma rentável empresa no ramo da construção civil. Desta forma, ainda nos anos 50, Ligier se tornou um nome de sucesso na França – uma das empresas responsáveis por reconstruir as autoestradas do país no problemático período do pós-guerra. Ao seu lado, a preciosa ajuda de um ascendente político no país: François Mitterrand.

Ligier atrás de Clark no GP da Bélgica de 67 (Divulgação)
Ligier atrás de Clark no GP da Bélgica de 67 (Divulgação)

Guy, porém, não se esqueceu de suas ambições esportivas. No início da década de 60, já com mais de 30 anos, começou sua carreira no automobilismo. Primeiro tentou a sorte na F-Junior e, em 1964, estreou nas 24 Horas de Le Mans. Para um estreante quase amador, seu primeiro resultado foi impactante: 7º lugar na classificação geral, pilotando um Porsche 904 movido por um flat-4 de dois litros.

Animado com o desfecho em Sarthe, Ligier se viu incentivado a migrar para a F1. Ele terminou o GP da Holanda em nono na sua primeira temporada (1966) antes de se acidentar, semanas depois, no Nurburgring, a bordo de um Cooper-Maserati T81. No ano seguinte, Guy trocou o Cooper por um Brabham-Repco BT20 e obteve seu melhor resultado na categoria-mãe: um sexto lugar justamente no GP da Alemanha.

Ligier logo percebeu que não seria páreo sequer para os pilotos medianos na F1 e fez um downgrade na carreira, adquirindo um par de McLarens para disputar a temporada 1968 da F2. Na nova empreitada, ele se uniu ao amigo e compatriota Jo Schlesser. Mas Schlesser morreu em julho deste ano, disputando o GP da França de F1 pela Honda (ver no vídeo abaixo), e Guy decidiu abandonar a carreira de piloto para se concentrar na construção de carros.

Em 69, nasceu então o simpático JS1, batizado com as iniciais de Schlesser e projetado por Michel Tétu. Propulsado por um Ford inline de 1,8 litros, o sportscar estreou nas 24 Horas de Le Mans no ano seguinte nas mãos do próprio Ligier e do piloto de rali Jean-Claude Andruet, mas não completou o percurso. Seu sucessor, o JS2, porém, foi mais bem-sucedido e terminou a clássica prova em segundo em 1975, com Jean-Louis Lafosse e Guy Chasseuil dividindo o volante.

Veio então a mudança para a F1. No fim de 74, Ligier comprou os espólios da Matra após a marca francesa abandonar a categoria. Com ajuda do Partido Socialista, então liderado por Mitterrand, o empresário descolou o suporte financeiro da estatal tabagista Seita, dona da Gitanes, e estreou no Mundial em 1976, com Jacques Laffite como primeiro piloto.

Guy Ligier com o francês Patrick Depailler, no fim dos anos 70 (Divulgação)
Guy Ligier com o francês Patrick Depailler, no fim dos anos 70 (Divulgação)

O sucesso não demorou: logo na segunda temporada, Laffite venceu o GP da Suécia em Anderstorp. Depois, em 79, movido pelo tradicional V8 3.0 da Cosworth, o JS11 de Gérard Ducarouge foi um dos melhores carros do ano, com Laffite triunfando nas duas primeiras rodadas e Patrick Depailler levando o GP da Espanha. Mas Depailler machucou as pernas num acidente de hang-glide, Laffite sofreu falhas técnicas e o time perdeu o embalo, sendo superado na sequência por Ferrari e Williams.

O que inicialmente parecia uma temporada pioneira acabou por ser o auge da Ligier na F1. Houve sucessos ainda em 80 e 81, mas já no meio da década, a equipe passou por uma grave crise financeira que se estendeu até o fim de sua trajetória, em 1996. Nestas temporadas de penúria, Ligier só conseguiu se sustentar no esporte por causa da ajuda do velho amigo Mitterrand, que se tornou presidente da França em 81 e não apenas financiava a operação com investimentos estatais como garantia o aporte técnico dos motores Renault.

Panis em Mônaco-96 (Divulgação)
Panis em Mônaco-96 (Divulgação)

Em 92, hostilizado pelas multidões em Mônaco por apoiar o governo socialista do amigo, Ligier desistiu da F1 e vendeu sua operação para o empresário e político Cyril de Rouvre. Sob nova administração, a escuderia francesa ainda viveu um rápido renascimento com um quarto lugar no Mundial de Construtores em 93 e a vitória de Olivier Panis em Mônaco, três anos depois. No ano seguinte, porém, Alain Prost assumiu o time e o rebatizou com seu sobrenome, encerrando a história da Ligier no esporte.

Guy, por sua vez, reinvestiu o lucro da venda de sua paixão no ramo de fertilizantes e tornou-se ainda mais rico. Já no fim da vida, ele retornou ao ramo automotivo, financiando a produção de microcarros.

Considerado um dos últimos garagistas autênticos na história da F1, Ligier morreu aos 85 anos em Nevers, cidade localizada próxima ao circuito de Magny-Cours. A causa mortis ainda não foi divulgada pela família.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.