Há 10 anos, Alonso conquistava um título mais tranquilo do que se pensa

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Exatamente dez anos atrás, Fernando Alonso vencia pela primeira vez o Mundial de F1. Com um terceiro lugar no GP do Brasil, em Interlagos, o espanhol, aos 24 anos, 1 mês e 27 dias, se tornou na época o mais jovem campeão da história, superando recorde firmado por Emerson Fittipaldi havia mais de três décadas.

Alonso com o R25 em Ímola (Divulgação)
Alonso com o R25 em Ímola (Divulgação)

Como o leitor obviamente sabe, a marca seria batida alguns anos depois por Lewis Hamilton e, na sequência, Sebastian Vettel. Mas ali, no meio dos anos 2000, a impressão que se tinha é que a F1 estava diante de um fenômeno sem precedentes. Alguém finalmente desbancara Michael Schumacher. E esse sujeito partira de um país sem nenhuma tradição no esporte, a bordo de um carro que curiosamente já tinha sido pilotado pelo germânico.

A Renault fez sua parte, trazendo camisetas com os dizeres “Schumacher who?” (em inglês, “Schumacher quem?”) para as comemorações no pódio de Interlagos. E o próprio Alonso, àquela altura, também parecia estar disposto a enterrar o mito que dominara a F1 nos dez anos anteriores:

“Vencer o campeonato agora, duelando com o Kimi [Raikkonen, à época ás nº 1 da McLaren], é mais do que Schumacher fez nos últimos anos. E ganhei com o Schumacher na pista. Se eu tivesse vencido com ele aposentado, diriam que não teve graça.”

Fato. Foram por atuações como a de San Marino, em que o espanhol segurou Schumacher por 12 voltas em um dos duelos mais apertados da história da F1 (veja no vídeo abaixo), que o público começou a reverenciá-lo de forma diferente. Mas o duelo com a McLaren de Kimi Raikkonen nunca chegou a se concretizar.

Desde o início da pré-temporada, o Renault R25 já se mostrava o conjunto mais rápido no grid e, assim, não houve muita surpresa quando o carro francês dominou os quatro primeiros GPs – Giancarlo Fisichella em Melbourne e Alonso em Sepang, Sakhir e Ímola.

Na segunda metade da temporada, é verdade, as McLarens de Raikkonen e de Juan Pablo Montoya melhoraram, mas a instabilidade técnica no modelo de Woking nunca traduziu a velocidade pura do carro num desafio real pelo título. Foi por isso que, no Brasil, a três etapas do fim da temporada, Alonso só precisava marcar seis pontos – o equivalente a um terceiro lugar – para garantir seu primeiro título mundial.

Raikkonen: instabilidade do MP4-20 o impediu de lutar pelo título em 2005 (Hoch Zwei)
Raikkonen: instabilidade do MP4-20 o impediu de lutar pelo título em 2005 (Hoch Zwei)

Ou seja, o confronto com Raikkonen foi muito mais um mise-en-scène nas manchetes do jornal do que um embate real. Quando a McLaren finalmente engatou três vitórias consecutivas em Budapeste, Istambul e Monza, Alonso acumulara mais de 25 pontos em relação ao finlandês na tabela do campeonato – uma distância de mais de duas vitórias. Seu primeiro título se concretizaria de forma tranquila e saudável.

Na teoria, talvez o único que pudesse tirar o título do espanhol fosse Michael Schumacher. Contudo, graças a uma mudança no regulamento para 2005, um dos pilares no vitorioso desempenho da Ferrari nos anos anteriores – a performance e a durabilidade dos pneus Bridgestone – foi anulado.

Com o objetivo de cortar custos para os times, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) proibiu a troca de pneus durante as corridas naquela temporada e estabeleceu que os compostos teriam que resistir à segunda sessão de treinos classificatórios (realizados na manhã do domingo) e a um GP inteiro. Como a Bridgestone nunca conseguiu chegar a um equilíbrio entre performance e confiabilidade com os novos pneus, Schumacher e Barrichello foram duramente prejudicados.

Com problemas da Bridgestone, Schumacher (esq.) ficou fora da briga pelo título em 2005 (Divulgação)
Com problemas da Bridgestone, Schumacher (esq.) ficou fora da briga pelo título em 2005 (Divulgação)

Não fosse pela Michelin desistir de correr nos Estados Unidos, as Ferraris provavelmente teriam terminado a temporada sem nenhuma vitória na conta.

Ainda assim, Schumi viveu um ou outro brilhareco: em Imola, onde saiu de 13º na largada para lutar pela vitória, e em Hungaroring, em que obteve a única pole position para Maranello na temporada.

De qualquer forma, o ano era de Alonso. Menino-prodígio do momento, o espanhol já havia se tornado o mais jovem a obter uma pole position e vencer uma corrida em 2003 e agora era também o campeão mais precoce. De quebra, também deu o primeiro campeonato de F1 à Renault, algo que um gênio do esporte, Alain Prost, não conseguiu no início dos anos 80.

Hoje, dez anos depois, o surgimento de uma nova geração, a nascida no fim da década de 80, modificou o cenário da categoria assim como o julgamento que comumente se tem sobre a carreira de Alonso. Temperamental, o espanhol ainda obteve mais um título no ano seguinte antes de embarcar numa espiral de polêmicas e derrotas que transformaram sua carreira em uma das mais controversas na história da F1. Mas isso é um assunto para outro texto.

Alonso comemora título no pódio de Interlagos (Divulgação)
Aos 24 anos, Alonso se tornou à época o campeão mais jovem da história da F1 (Divulgação)

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Jean Ricardo

    Eu também discordo totalmente dessa versão de que o campeonato de 2005, foi vencido com facilidade. A prova que Kimi fez em Suzuka, não é uma prova que se faz em um carro “ruim”. Por maior que fosse o talento de Kimi, nunca um piloto sairia tão de trás e chegaria a vitória com um carro que é muito inferior ao concorrente direto ao título. A forma como Kimi disparou na frente em Hochenheim, é uma outra amostra.

    O carro da McLaren tinha pontos fracos. O campeonato daquele ano, não prestigiava o mais rápido (McLaren), mas o que era mais regular, até pelas regras de uso de pneu… Era nesse quesito em que a McLaren pecava por tantas quebras.

  • Gustavo Segamarchi

    Impagável a reação do Flávio Briatore dos 1:09 aos 1:14 do vídeo! KKKKKKK.

    Não sei por quê, mas eu gostaria de ver o Flávio Briatore de volta à equipe Renault, KKK.

  • André Luiz Félix

    Bem escrito o texto, como a maioria dos divulgados, mas discordo de você. Não tem nada de tranquilo nesse campeonato. Mas reflete sua opinião e eu respeito.

    • Jean Ricardo

      Concordo com você André.

    • Hecto Silva

      Eu até vou mais adiante acredito que a McLaren tinha o melhor carro, pois venceu muito mais corridas, foram 10 a 8, também a McLaren largou mais vezes na frente. Não da para comparar a pilotagem do Alonso contra o Raikonen, Montoya ou Fisichela. O Alonso venceu na regularidade foi disparado o piloto que menos quebrou ou bateu…acredito que se a Ferrari de Schumacher tivesse pneus Michelin em 2005 ele entraria na briga. Os anos de 2005-2006 os Michelin foram superiores aos Bridgestone.

      • Eu sempre alerto para sabermos a diferença entre “carro mais rápido” e “melhor carro”. O carro da McLaren foi o mais rápido em boa parte de 2005, mas também desperdiçou muitos pontos por quebras. Confiabilidade é um fator importante para um carro competitivo, então, não adianta nada o carro ser rápido se ele também for frágil.

        Neste ponto, a Renault se destacou muito em 2005: tinha velocidade, muitas vezes capaz de superar a McLaren, e, ainda por cima, não deixou o Alonso na mão. Isso, na pontuação de uma temporada inteira, faz muita diferença.