Há 15 anos, Barrichello espantava o azar e vencia pela primeira vez na F1

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Vencer na F1 é laborioso. Quantos bons volantes passaram em branco, sem um único triunfo, pelo esporte? De prima, dá para relacionar pilotos de bom calibre como Chris Amon, Henri Pescarolo e Hermann Lang.

No meio dos anos 90, provavelmente passou pela cabeça de Rubens Barrichello: e se eu, maior promessa do automobilismo brasileiro pós-Ayrton Senna, nunca vencer nessa categoria? Havia esse risco no fim das contas. Sete temporadas e nove pódios em times médios – Jordan e Stewart – deixaram o paulistano próximo da vitória em raríssimas ocasiões. E, para seu infortúnio, nestas parcas vezes o equipamento o traiu.

À primeira vista, a transferência para a Ferrari, na virada do milênio, poderia ser a salvação na trajetória de Barrichello. Mas o brasileiro tinha à frente o maior titã de monopostos da história, Michael Schumacher, e bater o germânico praticamente se tornou uma proeza impossível. Menos em Hockenheim, sede do GP da Alemanha, em 30 de julho de 2000.

Naquele dia, não apenas Barrichello viveu uma plena catarse, como todo torcedor mais nacionalista. Fazia quase sete anos, àquela altura, que um piloto tupiniquim não vencia na F1 – o último triunfo ocorrera no GP da Austrália de 1993, com Ayrton Senna – e, principalmente da parte do paulistano, a euforia foi quase religiosa. Com direito a choro no pódio e discurso de desafogo.

“Eu me sinto muito mais leve. Hoje posso falar que a morte do Senna me fez muito mal. Foi um peso que carreguei e que foi embora. Agora ele está voando por algum lugar. Não está mais em mim.”

O cenário de Barrichello na temporada não era nada favorável. À exceção de Silverstone e Spielberg, o brasileiro havia sido mais lento do que Schumacher em todos os circuitos. Na tabela de pontuação, o placar a favor do germânico era de 56 x 36 – quase o dobro de pontos de diferença para o sul-americano.

Rubens Barrichello, durante o GP da Alemanha de 2000
Rubens Barrichello, durante o GP da Alemanha de 2000

E o final de semana de Hockenheim indicava que seria mais um em que Barrichello passaria em branco. Na saída para a classificação, o brasileiro teve um problema mecânico em sua Ferrari e não conseguiu registrar uma volta rápida. O tempo não ajudava, e a chuva, que na sexta-feira já tinha alagado até o paddock, voltou a apertar. Quando o paulista conseguiu voltar à pista, as condições eram terríveis, e parecia até que ele não conseguiria se classificar para a prova. Acabou arrancando uma 18ª posição para o grid.

O domingo parecia que seria mais um de briga de Schumacher contra as McLarens enquanto o brasileiro tentaria uma prova de recuperação para, quem sabe, marcar alguns bons pontos. Mas ninguém poderia imaginar o que estava por vir.

Logo na largada, Schumacher bateu em Giancarlo Fisichella, da Benetton, e abandonou a corrida. A dupla Mika Hakkinen e David Coulthard assumiram a ponta e foram embora.

Mais atrás, Rubens começava sua recuperação. Com o carro mais leve, para uma estratégia de duas paradas, enquanto quase todos os outros pilotos se prepararam para fazer apenas uma, ultrapassou cinco pilotos no primeiro giro e, no seguinte, deixou mais dois para trás. Na 15ª volta, o brasileiro já ocupava a terceira colocação, atrás apenas das McLarens. Fez então seu primeiro pit e caiu novamente para sexto.

Pouco depois, um insólito episódio mudou totalmente a corrida: trajando uma capa, com palavras de protesto à Mercedes-Benz, um francês invadiu a pista e obrigou a entrada do carro de segurança. Aproveitando-se da situação, Barrichello se encaminhou aos boxes para colocar combustível suficiente até o fim do percurso, igualando a sua condição a dos outros.

A McLaren trouxe Hakkinen para o box, mas fez com que Coulthard parasse apenas na volta seguinte, tendo que andar todo o percurso atrás do safety car, perdendo muito tempo. Assim, quando o carro de segurança deixou a pista, Hakkinen liderava, mas agora tinha Jarno Trulli, de Jordan, em segundo, e Barrichello em terceiro, enquanto o escocês caiu para sexto.

Mais algumas voltas e a chuva que tinha sido personagem em todo o final de semana, voltou a cair em Hockenheim. Contando que ela seria da mesma intensidade dos outros dias, rapidamente a maioria dos pilotos foi para os boxes para colocar seus pneus de chuva. As exceções acabaram sendo Barrichello, Heinz-Harald Frentzen, da Jordan, Coulthard e Ricardo Zonta, da BAR, que perceberam que a pista não estava tão molhada e assumiram as primeiras posições.

Barrichello começou a imprimir um ritmo mais forte e abrir na ponta. Zonta acabou batendo ao perder o carro no trecho do estádio, em que a chuva era mais forte. Frentzen e Coulthard brigavam pela segunda posição, quando o piloto da McLaren quase saiu da pista também e resolveu parar para a troca de compostos. E logo em seguida, Hakkinen vinha como um louco tirando a vantagem, dando a entender que era uma questão de tempo para reassumir a ponta.

Hakkinen e Coulthard homenageiam Barrichello no pódio do GP da Alemanha de 2000
Hakkinen e Coulthard homenageiam Barrichello no pódio do GP da Alemanha de 2000

Pouco após assumir a segunda posição, no entanto, com a maior parte da pista ainda seca, os pneus de chuva do finlandês começaram a superaquecer. Barrichello, desfilando seu talento no controle do carro na parte molhada, conseguia compensar a perda tempo com seus slicks na parte de alta.

Nas duas últimas voltas, a situação já se mostrava totalmente favorável ao piloto da Ferrari, que encarou o desafio de não parar para a troca. Com muita comemoração da Ferrari e nas arquibancadas alemãs (o resultado evitou que Schumacher perdesse a ponta do campeonato para Hakkinen), o brasileiro recebeu a bandeira quadriculada em primeiro. E como era de se esperar, caiu no choro ainda no carro, tomado pela emoção.

No pódio, foi reverenciado por Hakkinen e Coulthard. O automobilismo brasileiro deixava a fila após sete anos. Barrichello, chacota nacional, inclusive na própria TV Globo, no programa Casseta e Planeta, que o imortalizou como “Pé de Chinelo”, finalmente tinha seu dia de herói nacional.

Voltou-se a criar uma grande expectativa no país de que ele, enfim, tomaria seu lugar de protagonista da F1, como se esperava quando ele surgiu como grande revelação, em 1993.

Barrichello, após o triunfo na Alemanha, voltou a vencer em mais dez oportunidades na F1. Mas sua carreira seguiu com seus altos – como Silverstone-03 e Valência-09 – e muitos baixos, o que acabou não o deixando concretizar o sonho do título mundial. Mesmo assim, aquele 30 de julho de 2000, acabou ficando marcado como uma das melhores atuações de um brasileiro na F1.

*Colaborou Lucas Santochi

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.