Há 30 anos, Prost passava de colecionador de fracassos a Professor da F1

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Quatro títulos mundiais, 33 poles, 106 pódios e 51 vitórias. Segundo maior vencedor da história da F1, Alain Prost se aposentou em 1993, mas ainda hoje é considerado um dos ases mais geniais que já passaram pelo automobilismo. Não apenas pelo seu grandioso talento natural: o pequeno francês era um estudioso do esporte, capaz de observar e adaptar sua pilotagem a cada fim de semana de acordo com as condições apresentadas.

Um tanto ciânico para os adversários, é verdade, já que sua ênfase em evitar erros e garantir resultados lhe renderam comentários negativos ao longo da carreira. No auge das hostilidades, Prost foi tachado de mecanicista e covarde. Mas suas convicções se mostravam incólumes.

“Eu sempre trabalho da mesma forma, desde o início do fim de semana. Assim eu sei, no início da corrida, de tudo que analisei ao longo dos treinos livres, se vou ganhar a corrida ou não.”

O renome de metrônomo humano demorou. A grosso modo, antes de conquistar seu título mundial, cujo aniversário de 30 anos ocorre nesta terça-feira (5), o Professor era mais conhecido como um piloto que morre na beira, um “amarelão”, como você queira classificá-lo, do que uma máquina de resultados.

Prost com a Renault em 1983 (Divulgação)
Prost com a Renault em 1983 (Divulgação)

Ainda na Renault, escuderia que defendeu em seus primeiros anos na F1, o francês virou motivo de chacota ao perder um título certo em 1983. Naquele ano, foi superado por Nelson Piquet com um carro claramente superior ao do adversário. Foram quatro vitórias contra três do brasileiro, mas um último terço de temporada sofrível, em que marcou 15 pontos contra 26 do rival. O revés acabou significando sua demissão da equipe francesa.

Já na McLaren, no ano seguinte, a derrota foi mais austera. Num duelo apertado com o companheiro Niki Lauda, Prost perdeu o caneco por meio ponto – a menor margem na história da F1 –, mesmo vencendo sete corridas contra cinco do austríaco. Parecia, à época, que o destino do ex-protegido da Renault seria se tornar mesmo o piloto dos vice-campeonatos. Mas o ano de 1985 guardava uma redenção para Alain.

Prost com a MP4/2B em Brands Hatch (Divulgação)
Prost com a MP4/2B em Brands Hatch (Divulgação)

Pelo lado técnico, o motor Porsche do MP4/2 ganhou 200 cv a mais do que na temporada anterior, oferecendo uma boa vantagem para a McLaren em circuitos de alta velocidade. Na esfera esportiva, Niki Lauda já não era o mesmo de 1984, mais preocupado em administrar sua companhia aérea do que dirigir um carro de corrida. Assim, o caminho estava aberto para Prost se tornar o piloto nº 1 de Woking.

Mas o início da temporada foi claudicante. O Professor venceu no Brasil, mas um acidente na chuva em Portugal e uma desqualificação em Ímola – logo após ter vencido a corrida – o jogaram para a quinta posição na tabela de pontos, permitindo o avanço de Michele Alboreto, da Ferrari.

Prost comemora o título de 85 (Divulgação)
Prost comemora o título de 85 (Divulgação)

O terço intermediário do campeonato acabou sendo mais complicado do que a McLaren imaginara. Alboreto venceu no Canadá e na Alemanha e coletou oito pódios, enquanto Prost triunfou em Mônaco, Inglaterra e Áustria e ocupou o top 3 por sete vezes. Com seis etapas para o fim do campeonato, os dois estavam rigorosamente empatados com 50 pontos.

Até que a campanha da Ferrari começou a murchar. Em Zandvoort, enquanto Prost fechou uma dobradinha com Lauda na linha de frente, o italiano chegou em quarto. No GP seguinte, em Monza, o golpe de misericórdia: o francês venceu e Alboreto, com problemas no turbo da 156/85, foi obrigado a abandonar com cinco giros para o fim.

Depois disso, Maranello nunca mais conseguiu se recuperar. Em Spa-Francorchamps, Alboreto abandonou com um dano na embreagem e Prost chegou em terceiro, atrás de Ayrton Senna, da Lotus, e Nigel Mansell, da Williams. Isso significava que, em Brands Hatch, três semanas depois, o francês só precisava chegar em quinto e torcer por uma quebra do ferrarista para confirmar o título.

Foi o que aconteceu. Em Brands Hatch, Prost se qualificou em sexto e Alboreto em 15º. O piloto da McLaren começou mal a prova, despencando para 14º, mas em pouco mais de cinco giros, já estava de volta ao pelotão principal. Enquanto isso, Alboreto tentava alcançar os mais rápidos até ser obrigado a parar nos boxes por causa de um pneu furado. De volta à pista, mais um azar: o turbo da Ferrari explodiu em chamas; junto com ele, o sonho do título mundial (veja o momento no vídeo abaixo, às 9min30s).

Com a saída do milanês, Prost sabia que não precisava forçar a barra e adotou uma postura conservadora, passando boa parte do percurso no grupo intermediário. Após os abandonos de Marc Surer, da Brabham, e Stefan Johansson, da Ferrari, o francês alcançou o quinto lugar, amealhando os pontos que precisava para conquistar o campeonato. Ele ainda tinha condições de lutar pelo pódio depois de superar a Lotus de Elio de Angelis, mas preferiu ficar com a quarta colocação e garantir o título.

Pela primeira vez na história da F1, um francês se sagrava campeão mundial. O país já tinha batido na trave várias vezes por meio de nomes como Jean Behra e Jacques Laffite. Nenhum desses, porém, teve a frieza necessária e a tenacidade de Prost para superar fracassos anteriores e continuar insistindo no sonho do campeonato. Não é por acaso que ele ainda conferiu mais três campeonatos e ganhou a alcunha de “Professor”.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.