Há 50 anos, Stewart vencia briga mais maluca já vista em um GP de F1

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John Young “Jackie” Stewart foi um automobilista de inegável sucesso na F1. Dono de três títulos mundiais, responsável pelas únicas conquistas de Matra e Tyrrell no certame e detentor do recorde de vitórias na categoria por 14 anos, de 1973 a 87, o britânico nascido na pequena vila de Milton, na Escócia, ocupa cadeira cativa no rol dos dez maiores pilotos que já passaram pelo certame.

Em 65, Stewart era apenas um jovem de 26 anos que tentava se consolidar na F1
Em 65, Stewart era apenas um jovem de 26 anos que tentava se consolidar na F1

Antes de se vestir de azul para alcançar o pináculo da glória, o escocês teve uma passagem pouco lembrada pela BRM, entre 1965 e 67. Lá, apesar de todas as limitações de uma escuderia em declínio, conseguiu dar as primeiras mostras de sua genialidade ao brigar de igual para igual e, muitas vezes, superar na pista o já consagrado Graham Hill, seu companheiro nas duas primeiras temporadas.

Stewart provou ser um cara diferenciado já no primeiro ano de série: subiu ao pódio em metade das dez etapas oficiais realizadas e encerrou a campanha num meritoso terceiro lugar, logo atrás de Hill e do fenômeno Jim Clark. No GP da Itália de 65, que completa 50 anos neste sábado (12), o escocês foi além. Derrotou Clark, Hill e o então atual campeão, John Surtees, em uma batalha absolutamente insana para conquistar o primeiro de seus 27 triunfos na F1.

A primeira vitória de qualquer piloto é um marco divisório em sua vida. Para mim, vencer aquele GP da Itália, correndo contra os melhores do mundo, em meu primeiro ano na categoria, foi algo que nunca vou esquecer”, afirmou, em 1998.

O grande diferencial deste para qualquer outro páreo é que, naquela tarde de domingo em Monza, foram necessárias 40 (sim, quarenta) trocas de líder até que Jackie, ao final da volta 76, recebesse a bandeirada como vencedor. Se você não acredita, o Projeto Motor preparou uma lista mostrando como os quatro grandes ases do momento se revezaram na ponta naquele dia. Confira abaixo:

Volta 1: Jim Clark
Volta 3: Graham Hill
Volta 4: Jim Clark
Volta 5: Graham Hill
Volta 6: Jackie Stewart
Volta 7: Jim Clark
Volta 8: Jackie Stewart
Volta 10: Jim Clark
Volta 11: Jackie Stewart
Volta 15: John Surtees
Volta 16: Jackie Stewart
Volta 18: Jim Clark
Volta 19: Jackie Stewart
Volta 21: Jim Clark
Volta 22: Jackie Stewart
Volta 25: Graham Hill
Volta 27: Jim Clark
Volta 28: Graham Hill
Volta 29: Jackie Stewart
Volta 33: Jim Clark
Volta 37: Jackie Stewart
Volta 38: Jim Clark
Volta 39: Jackie Stewart
Volta 40: Graham Hill
Volta 41: Jackie Stewart
Volta 44: Jim Clark
Volta 45: Graham Hill
Volta 46: Jim Clark
Volta 47: Jackie Stewart
Volta 50: Graham Hill
Volta 51: Jim Clark
Volta 52: Jackie Stewart
Volta 53: Jim Clark
Volta 55: Graham Hill
Volta 57: Jim Clark
Volta 58: Jackie Stewart
Volta 70: Graham Hill
Volta 72: Jackie Stewart
Volta 73: Graham Hill
Volta 74: Jackie Stewart

Repare que, até o 58º giro, nenhum deles durou mais do que quatro passagens consecutivas na dianteira. Stewart e Clark assumiram a ponta 14 vezes cada, contra 11 de Hill e uma de Surtees. De qualquer forma, o novato foi quem esteve mais tempo na frente, por um total de 43 voltas. Mas, afinal, por que isso aconteceu, especialmente em uma estação dominada com tranquilidade pelo escocês da Lotus?

Stewart em seu BRM P216 #32
Stewart em seu BRM P261 #32

Há uma explicação tangível: o traçado de 5.750 metros de Monza, àquela época, ainda era indubitavelmente o mais veloz do campeonato. Embora a parte oval tenha sido limada em 1961, o restante da pista continuava muito rápido e, ao contrário de hoje, sem nenhuma chicane de segurança para quebrar a velocidade. Isso significa que, mesmo correndo com charutinhos desprovidos de aerofólios, pneus lisos ou qualquer tipo de refinamento aerodinâmico, os ases conseguiam facilmente completar mais de 70% da volta com o pé cravado no acelerador, algo que minimizava a ação do piloto e dava muito mais relevância à força do motor e ao efeito do vácuo.

Tudo estava muito nivelado naquele 12 de setembro; esta imagem mostra Clark, Stewart, Hill e Gurney rasgando juntos a clássica Parabolica
Tudo estava muito nivelado naquele 12 de setembro; esta imagem mostra Clark, Stewart, Hill e Gurney rasgando juntos a Parabolica

Ademais, a trágica morte de Alan Stacey e Chris Bristow no GP da Bélgica de 1960, uma espécie de “1º de maio de 94” daquela geração, levou a F1 a promover mudanças sensíveis em seu regulamento técnico, visando a restringir a velocidade dos bólidos. Uma delas foi a adoção de motores extremamente compactos, de 1,5 litro, algo que praticamente padronizou a potência de todos os propulsores. Para se ter uma ideia, em 65 tanto o 12-cilindros opostos usado na Ferrari 1512 de Surtees quanto o V8 que empurrava o BRM P261 de Stewart e Hill geravam os mesmos 220 cv. O Climax do Lotus 33 de Clark não ficava muito atrás: 213 cv.

Por conseguinte, num cenário em que tudo estava muito nivelado, ninguém conseguia abrir muita vantagem. Surtees, que largara em segundo, teve problemas de embreagem logo na partida e caiu para 13º, enquanto os outros três rapidamente se desgarraram do resto do pelotão e passaram a trocar ultrapassagens de forma quase maluca. A cada nova aparição pela reta dos boxes, a torcida simplesmente não sabia quem surgiria como líder.

O duelo final contra o companheiro Graham Hill
O duelo final contra Hill

O único campeão mundial de F1 e motovelocidade da história se recuperou com maestria e encostou na briga, chegando a pontear o 15º giro. Entrementes, a falha na embreagem se agravou de vez e ele ficou para trás novamente, abandonando na volta 34. Clark, Hill e Stewart seguiram em batalha insana até que o “fazendeiro voador” encarasse um problema na bomba de combustível, na 63ª passagem, e também tivesse de encerrar o GP mais cedo. Restaram na briga as duas BRM, que passaram a protagonizar um duelo doméstico, palmo a palmo, pela vitória.

Com uma postura bastante madura para um iniciante, Jackie aguentou a pressão e liderou 16 das 19 voltas finais, cedendo pouco espaço para a ação do companheiro. Na antepenúltima passagem, Hill chegou a se recolocar como ponteiro, mas acabou sentindo a intensidade da disputa e escapou da pista na Parabolica, deixando caminho livre para o triunfo do colega. Os dois chegaram a ter uma leve discussão ao fim do evento. O inglês acusou o escocês de ter corrido com um motor configurado para atingir rotações mais altas. Durante o GP da Itália deste ano, Stewart foi homenageado por aquela conquista e, numa entrevista à TV britânica Sky Sports, o filho de Graham, Damon, lembrou do episódio. Veja a resposta:

Não, o seu pai é que foi um pouco sujo. Ele cometeu um erro na Parabolica, escapou, foi para a brita e Jackie não foi para a brita”, ironizou.

Assista a entrevista na íntegra no vídeo abaixo (em inglês):

A merecida coroação no pódio
A merecida coroação no pódio

De qualquer forma, nunca foi preciso lutar tanto, trocar tanto de posição com seus concorrentes para se vencer na F1. O detentor deste recorde não poderia ser alguém diferente: Jackie Stewart. Um novato que botou banca logo para cima de Clark, Hill e Surtees para conquistar sua primeira vitória na F1 não poderia mesmo ser um piloto comum.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.