Hamilton se junta a campeões que fizeram título da F1 parecer fácil

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No GP dos Estados Unidos, Lewis Hamilton conquistou a 43ª vitória de sua carreira e, de quebra, garantiu, com três provas de antecipação, o tricampeonato mundial de F1. Mesmo que se trate de sua terceira taça, sendo a segunda consecutiva, o título representou um fato inédito para a trajetória do piloto inglês: foi a primeira vez em que venceu um campeonato na categoria antes da prova final do calendário.

Seus dois outros títulos, em 2008 e 2014, haviam sido obtidos nas provas decisivas da temporada. O primeiro deles foi inesquecível para a torcida brasileira, que viu o então piloto da McLaren levar a melhor no duelo contra Felipe Massa nos metros finais da corrida em Interlagos.

O bicampeonato no ano passado foi bem menos dramático, mas os altos e baixos que Hamilton teve na campanha, mais algumas falhas mecânicas ao longo do percurso, contribuíram para que a disputa chegasse em aberto em Abu Dhabi.

Em 2015, o inglês apresentou uma pilotagem madura e quase sem erros, e o confiável Mercedes W06 permitiu que a conquista viesse na 16ª de 19 corridas no ano, ou seja, com 84% da temporada disputada – o 17º melhor aproveitamento em 66 anos de F1.

Ascari foi o primeiro a conquistar o título da F1 de forma antecipada
Ascari foi o primeiro a conquistar o título da F1 de forma antecipada

Como todos podem imaginar, títulos conquistados de forma antecipada não são novidade na história da categoria. A primeira vez que isso aconteceu foi logo no terceiro campeonato disputado, em 1952, quando Alberto Ascari venceu quatro das primeiras seis corridas do ano e liquidou a fatura contra Giuseppe Farina e Piero Taruffi. Isso se repetiu com bastante frequência com o passar dos anos, sendo que 38 campeonatos na história foram definidos antes da última corrida (representando 57% do total).

Obviamente, existem casos e casos de campeonatos decididos por antecipação. Por exemplo, Ayrton Senna conquistou todos seus três títulos antes da prova de encerramento do campeonato, mas nem por isso se trataram de conquistas fáceis ou com pouca resistência dos oponentes – pelo contrário. O mesmo se aplica, citando casos mais recentes, ao tri de Michael Schumacher ou o primeiro título de Fernando Alonso na F1, que foram sacramentados antecipadamente mesmo tendo havido certa disputa ao longo do ano.

Conquista de Mansell em 92 aconteceu na 11ª de 16 corridas daquele ano
Conquista de Mansell em 92 aconteceu na 11ª de 16 corridas daquele ano

Mas também houve campeonatos em que de fato não houve equilíbrio algum na luta pela primeira posição na tabela. Em 1957, Juan Manuel Fangio venceu quatro das primeiras seis corridas do ano, sendo que a terceira, as 500 Milhas de Indianápolis, não contou com os pilotos da F1 apesar de valer pontos para o Mundial. Na Alemanha, o Maestro fez uma das melhores apresentações já vistas na categoria e selou o título com 75% do campeonato disputado.

Oito anos depois, Jim Clark fez um campeonato que beirou a perfeição para selar o bicampeonato mundial. Naquele ano, o escocês triunfou nas seis primeiras provas em que competiu – ele ficou de fora do GP de Mônaco, pois disputou (e venceu) as 500 Milhas de Indianápolis no mesmo fim de semana. A definição veio em Nurburgring, com 70% da temporada realizada.

Na transição para os 70, o também escocês Jackie Stewart deixou sua marca ao obter todos seus títulos com antecipação confortável. Isso aconteceu em 1969, 1971 (em ambas com 72% do campeonato disputado) e 1973 (86%).

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Entretanto, as campanhas mais dominantes de toda a história da F1 aconteceram dos anos 90 para cá. No ano de 92, Nigel Mansell tirou bom proveito com competência da Williams FW14B “de outro planeta” e foi arrasador, o que resultou em nove vitórias em 16 corridas. O título veio na Hungria, a 11ª etapa, ou 68% do campeonato completado.

Título de Schumacher em 2002 foi o de maior antecipação na história da F1
Título de Schumacher em 2002 foi o de maior antecipação na história da F1

O número só foi batido até hoje por Michael Schumacher e sua temporada irrepreensível em 2002. Naquele ano, o alemão subiu em todos os pódios do campeonato e confirmou o penta com apenas 64% da campanha realizada. Foi a única vez na história da F1 moderna em que o título foi definido no mês de julho.

Depois disso, a categoria teve mais seis campeonatos decididos antes da corrida final: em 2004, também com Schumacher (77% da temporada disputada), 2005, com Alonso (89%), 2009, com Jenson Button (94%), 2011 (78%, o melhor índice da década atual) e 2013 (84%), ambas com Sebastian Vettel.

Mesmo que vários outros pilotos já tenham conquistado títulos de maneira antecipada, Hamilton precisava se juntar ao time para espantar velhos fantasmas. Antes considerado afobado e propenso a erros quando sob pressão, como na fatídica temporada de 2007, ou em 2011, o inglês corou sua maturidade na campanha do tri e fez a conquista parecer fácil. Mesmo levando em conta seu equipamento superior, Hamilton mostrou controle emocional, consistência, agressividade e velocidade para se destacar, assim ficando ainda mais perto de se tornar um dos grandes de toda a história da F1.

Confira a análise do GP dos Estados Unidos de 2015 na edição #12 do Debate Motor:

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.