Hawthorn e Collins x Musso: a trágica rivalidade na Ferrari de 1958

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A F1 promoveu durante os seus 70 anos diversos embates entre pilotos bastante talentosos. Alguns deles se tornaram grandes rivalidades dentro e até mesmo fora da pista. Uma dessas histórias terminou de uma forma trágica, com a morte de três grandes talentos da Ferrari: Mike Hawthorn, Peter Collins e Luigi Musso.

Seria leviano colocar na conta da disputa entre esses grandes talentos que competiram juntos pela Ferrari em 1958 a morte do trio em um espaço de seis meses. Mas é impossível simplesmente ignorar a escalada da guerra entre eles, principalmente para o fim de Musso.

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Tudo aconteceu sob olhar de Enzo Ferrari, que, segundo relatos da época, via a rivalidade crescente entre seus pilotos como uma forma de motivação. Sendo a escuderia campeã, não existia problema. Assim, ele empurrava seus comandados até que em algum momento tivesse que fazer a escolha por um deles para ser o líder na briga pelo título contra algum concorrente.

A Ferrari acabou com o título de pilotos, com Hawthorn, mas sem nenhuma de suas estrelas para 1959. Collins e Musso morreram na pista durante a temporada e o campeão inglês perdeu a vida alguns meses depois, em um acidente de carro em uma estrada, já após ter anunciado de forma repentina a aposentadoria.

Os ingleses da Ferrari

Para entender a rivalidade entre os pilotos da Ferrari em 1958, é preciso antes compreender todo o cenário não só dos pilotos, mas como de funcionava a F1. O campeonato mundial existia somente há oito anos, estava em ascensão, mas não necessariamente era visto como a coisa mais importante para os pilotos. Muitos deles, principalmente os que ainda eram na geração que correu antes da II Guerra, se preocupavam mais com os resultados em cada GP, que era na verdade os que rendiam os grandes prêmios em dinheiro.

Peter Collins era um desses. Em 1956, ele mostrou que era um “jogador de equipe”, quando cedeu seu carro durante o GP da Itália, etapa final do campeonato, a Juan Manuel Fangio, que tinha sofrido um problema. Na época, os pilotos poderiam fazer provas em duplas e os pontos seriam divididos.

Ingleses da Ferrari em 1957 e 58, Hawthorn e Collins
Ingleses da Ferrari em 1957 e 58, Hawthorn e Collins

Nas mãos do argentino nas voltas finais, a Ferrari de número 26 terminou na segunda posição, o que sacramentou o quarto título mundial de Fangio, batendo Stirling Moss. O mais incrível é que a ação tirou qualquer chance de Collins ser campeão, já que ele ainda tinha chance de ficar com a taça. Já contamos essa história em detalhes aqui no Projeto Motor.

Mike Hawthorn já tinha competido na Ferrari entre 1953 e 55. Ele voltou à equipe em 57. Durante esta temporada de retorno, ele criou uma grande amizade com Collins.

E de novo, é preciso aqui uma contextualização. Mesmo já mais de 10 anos depois da II Guerra, o mundo ainda tinha cicatrizes enormes do confronto. E o um teórico espírito nacionalista muitas vezes unia as pessoas. Ingleses, com hábitos parecidos, a união entre Collins e Hawthorn dentro de um time italiano, tinha diversas motivações.

Enzo Ferrari e Peter Collins
Enzo Ferrari e Peter Collins

Os dois se tornaram quase que inseparáveis, sempre aproveitando a vida boêmia de bares e festas. Acontecerem até casos em que Hawthorn abandonou corridas por estar de ressaca.

Por um tempo, Collins foi o favorito de Enzo Ferrari, principalmente pela manobra que ajudou no título de Fangio, mas perdeu quase toda sua moral com o Comendador quando ele se casou com a atriz americana Louise King. Os dois se mudaram para viver em um barco em Mônaco e o fato dela ser divorciada incomodava o dirigente.

O italiano

Luigi Musso era um romano nascido em família rica, sofisticado, mas, acima de tudo, preguiçoso. Com o dinheiro da família, assim como fez seus rivais ingleses, resolveu partir para uma carreira no automobilismo durante os anos 50.

Ele era rápido, mas se envolvia com certa frequência em acidentes. Sua vida pessoal também não era das mais tranquilas. Com dois filhos, se separou da esposa em um tempo em que o divórcio ainda não era legalizado na Itália e precisava de uma anulação na igreja. Isso tudo para viver com a corredora Maria Teresa de Filippis, com quem passou a viajar por toda Europa para competir.

Os dois ficaram juntos por três anos. “Costumávamos apostar em nossas corridas e uma vez apostamos um relógio de ouro em que bateria por último em uma prova de subida de montanha. Luigi bateu primeiro, então, fiquei com o relógio. Ele era um cara ótimo e ajudou muito em minha carreira”, relembrou De Filippis em uma entrevista para a revista inglesa Motorsport, em 1998.

Musso aumentou seus gastos com as corridas após o divórcio e chegou a importar carros dos Estados Unidos para competir, o que lhe trouxe problemas financeiros. O novo relacionamento do italiano seria com uma jovem muito mais nova do que ele, Fiamma Breschi. Desta vez, por quase toda a década de 50, até sua morte. A moça ficaria mais conhecida décadas depois por ser amante de Enzo Ferrari, que se declarou em diversas cartas após a morte do piloto.

Companheiros de Ferrari, Musso e Collins
Companheiros de Ferrari, Musso e Collins

Em 1955, com a morte de Alberto Ascari, Musso apareceu como possível herdeiro do posto de herói nacional. Para melhorar, ele foi contratado pela Ferrari para 56, vindo da Maserati. Sua primeira grande rivalidade seria com o compatriota Eugenio Castellotti, que tinha se juntado à escuderia do cavalo rampante na temporada anterior.

Ambos sabiam que disputariam o mesmo espaço no coração dos torcedores e de Enzo Ferrari. A rivalidade ainda era acirrada por questões locais, já que um era de Roma e outro de Milão. Por isso, a divisão acontecia até mesmo na imprensa.

No começo de 1957, Eugenio Castellotti conduzia um teste pela equipe no autódromo de Modena quando sofreu um acidente fatal. Musso, então, passou a ser o único italiano do time, que ainda tinha uma dedicação extra ao líder, Juan Manuel Fangio. Com a aposentadora do argentino no final do ano, no entanto, o espaço de capitão da esquadra ficaria em aberto.

Itália contra Inglaterra? Não para Ferrari

Enzo Ferrari sempre deixou claro em seus muitos anos de liderança na escuderia que não se importava muito com qual piloto vencesse as corridas e campeonatos, desde que ele estivesse a bordo de uma Ferrari. E a máxima valia também para a nacionalidade dos competidores.

Musso acreditou em algum momento que por ser italiano, com chances de conquistar o mundial, deveria ter alguma preferência dentro do time. O Comendador, no entanto, não pensava assim. Para o desespero do romano, ele começou a perceber que Hawthorn e Collins ganhavam espaço dentro do time e se protegiam.

“Os ingleses tinham um acordo”, contou Fiamma Breschi, no documentário A vida secreta de Enzo Ferrari. “Qualquer deles que vencesse, eles dividiriam as premiações igualmente. Eram os dois contra Luigi, que não fazia parte do acordo. A força vem do número, e eles se uniram contra ele”, continuou a antiga namorada de Musso.

Para piorar a pressão, o italiano ainda estava com dívidas de apostas se acumulando. Nas duas primeiras corridas de 58, na Argentina e Mônaco, ele até conseguiu dois segundos lugares que lhe colocaram na liderança do campeonato. Mas a necessidade de prêmios maiores das corridas, o fez logo cometer erros. Ele ficou duas provas sem marcar pontos e viu Hawthorn lhe ultrapassar na classificação geral, enquanto Stirling Moss, de Vanwall, tomava a ponta.

O que sobrou da Ferrari de Musso após o seu acidente fatal em Reims

O GP da França, em Reims, era o que distribuía a maior premiação. E Musso precisava muito do dinheiro. A prova começou e Hawthorn assumiu a liderança, com o italiano em segundo, seguido por Collins, terceiro. Tentando tomar a ponta, na décima volta, Musso perdeu o controle de sua Ferrari a cerca de 240 km/h. O carro capotou e foi parar em uma plantação de milho. O piloto morreu na hora.

A tragédia inglesa

Hawthorn e Collins sabiam do incômodo que causavam em Musso e não gostavam das reclamações do italiano. Quando ele morreu, não fizeram muita questão também de mostrar qualquer tipo de tristeza ou luto. Mal sabiam eles, que as tragédias com carros da Ferrari ainda não tinham terminado naquela temporada.

“Eu odiava os dois”, confessou Fiamma Breschi. “Primeiro porque eu sabia de certas coisas que não eram corretas, e também porque quando voltei do hospital [em que estava o corpo do Musso]e cheguei ao hotel, eu os vi na esquina do hotel rindo e jogando futebol com uma lata vazia de cerveja. Quando eles morreram também, foi libertador para mim. Caso contrário, eu teria sentimentos horríveis por eles para sempre. Desta forma, eu encontrei uma sensação de paz”, seguiu.

Duas etapas depois da morte de Musso, cerca de um mês depois, Collins sofreu um grave acidente em Nurburgring, lutando pela liderança com Tony Brooks e Hawthorn. Tentando uma manobra arriscada, ele saiu um pouco do traçado e a roda de seu carro travou em uma vala. A Ferrari capotou imediatamente e o inglês foi arremessado em uma árvore. Ele ainda foi levado de helicóptero para um hospital em Bonn, mas não resistiu aos ferimentos.

A morte de Collins devastou Hawthorn. Mesmo assim, com mais três segundos lugares consecutivos, ele conquistou o título no final da temporada, batendo Stirling Moss por apenas um ponto, e se tornou o primeiro inglês campeão do mundo.

Imediatamente, ele anunciou sua aposentadoria do automobilismo, que na verdade já estava decidida desde a morte de Collins. Além da perda do amigo, ele estava sofrendo de uma doença nos rins, o que possivelmente lhe obrigaria a parar de qualquer jeito.

Só que se afastar das pistas não adiantou. Em 22 de janeiro de 1959, apenas três meses depois da aposentadoria, Hawthorn sofreu um acidente em uma rodovia inglesa com um Jaguar modificado, pouco após ultrapassar a Mercedes de Rob Walker, dono da equipe Walker de F1.

As causas exatas do acidente nunca foram devidamente esclarecidas, apesar de Walker, décadas depois, em 1988, ter admitido em uma entrevista para a revista “AutoCar” que os dois estavam tirando um racha.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.