Hockenheim, da floresta clássica à mutilação irreversível | Circuitos Mutantes #5

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Hockenheim atualmente ocupa uma posição insólita no imaginário dos fãs de F1 e automobilismo em geral. Mesmo que seja um local clássico do esporte a motor, com corridas lendárias e episódios marcantes, o local atualmente lembra pouco as características que o deixaram tão famoso.

Afinal, a pista era conhecida por seu desafio técnico único, com a mescla de longas retas floresta adentro com o trecho sinuoso do Estádio. No entanto, a versão moderna da pista ficou atrás e deu espaço para um traçado mais sinuoso – que, por mais que seja mais adequado às exigências do automobilismo moderno, não traz exatamente nenhum desafio diferente.

Hockenheim passou por mudanças importantes em suas décadas de existência, e pouco a pouco se tornou um local clássico do automobilismo. Entenda como o local se desenvolveu desde sua fundação, na década de 1930, até a versão que conhecemos hoje.

Extensão: 12,045 km

O circuito de Hockenheim nasceu pela iniciativa de Ernst Christ, um auxiliar de cronometrista que desejava ver uma pista de corridas em sua terra natal. A ideia recebeu a bênção do então prefeito da cidade, Philipp Klein, o que proporcionou que o traçado se tornasse realidade.

A primeira versão da pista tinha um formato triangular (algo que não era raro naquela altura do esporte a motor), indo floresta adentro no sentido anti-horário. Na primeira corrida realizada no local, em 1932, numa competição de motos, a superfície sequer era pavimentada. Muita coisa mudaria dali em diante.

Extensão: 7,692 km

A pista sofreu uma considerável redução em 1938 e já passaria a ter algumas características de sua versão mais clássica. Em vez de penetrar a floresta e continuar com trechos em linha reta, o circuito foi cortado para se unir à então outra parte do triângulo com uma curva mais suave à esquerda, em formato ovalado. Nascia a Ostkurve, que permaneceu como ponto fixo da pista nas décadas seguintes (mesmo que, à época, o local fosse percorrido em sentido contrário ao que aconteceria posteriormente).

De qualquer forma, não foi um período dos mais fáceis para o circuito. Durante a Segunda Guerra Mundial, o local sofreu sérios danos, o que exigiu obras de reparação.

Extensão: 6,769 km

O processo de adequações continuava com a modernização do esporte a motor e até mesmo o desenvolvimento das redondezas. A criação de estradas próximas ao local fez com que a administração do circuito pensasse em uma alternativa que reduzisse um pouco sua área de ocupação, e, de quebra, fosse propício para a visibilidade dos fãs.

Assim, foi criado o trecho do Estádio, concebido pelo próprio fundador da pista, Ernst Christ, com o acabamento de John Hugenholtz – responsável, por exemplo, por criar traçados como Suzuka e Zolder.

No entanto, a versão trouxe consigo uma outra mudança importante: a pista passaria a ser percorrida no sentido horário, alterando o perfil de pontos remanescentes como a Ostkurve.

Foi nesta versão do traçado que Hockenheim viveu um de seus episódios mais tristes: a morte de Jim Clark, em 1968, após choque com as árvores durante uma corrida de F2.

Extensão: 6.802 km

Hockenheim fez sua estreia na F1 na temporada de 1970, quando Nurburgring passava por obras. Para isso, a pista também teve de passar por novas adequações, especialmente com barreiras de proteção para impedir que os carros se chocassem com as árvores com facilidade em caso de escapadas.

Mas, quanto ao traçado, a alteração mais impactante foi a instalação de chicanes nas longas retas. Mesmo assim, Hockenheim permanecia uma pista de alta velocidade, sendo que o trecho do Estádio era o único que destoava dos pontos restantes.

Após o acidente de Niki Lauda em Nurburgring, 1976, Hockenheim passaria a ser a sede fixa do GP da Alemanha. Uma outra alteração foi realizada em 1982, com uma leve chicane que reduzia a velocidade de entrada da Ostkurve – ponto próximo ao local em que Patrick Depailler faleceu em 1980. Foi exatamente ali que, já na edição de 82, Nelson Piquet foi tirado da prova por Eliseo Salazar e distribuiu sopapos no chileno.

O trecho próximo à Ostkurve foi alterado novamente para as edições do GP da Alemanha de 1990 e 1991, deixando-o ainda mais lento, mas, a grosso modo, a característica geral da pista permanecia a mesma.

Extensão: 6,825 km

Chegamos à última versão do chamado “traçado clássico” de Hockenheim. A chicane da Ostkurve ficou ainda mais lenta depois do assustador acidente de Érik Comas em 1991. Algo semelhante aconteceu com as outras chicanes restantes no traçado depois das tragédias da F1 em 1994.

No entanto, mesmo sendo consideravelmente mais lenta do que era em seus primórdios, Hockenheim ainda se mantinha como uma das pistas mais velozes de todo o calendário da F1. Ela representava um desafio único para equipes e pilotos, já que era preciso combinar as altas velocidades das retas com o trecho sinuoso do Estádio, exigindo um equilíbrio que Monza, por exemplo, não requer.

Porém, Hockenheim sentia a necessidade de dar um passo além, cortar os laços com o passado e se adequar às exigências do automobilismo moderno. Em outras palavras: desta versão em diante, a pista nunca mais seria a mesma.

Extensão: 4,574 km

Hockenheim passou por uma obra intensa para a edição de 2002 do GP da Alemanha. O traçado seria consideravelmente reduzido, de 6,8 para 4,5 km, eliminando totalmente o trecho de entrada na floresta.

A intenção era facilitar a visibilidade do público nas arquibancadas (aumentando a capacidade do autódromo de 83 para 120 mil espectadores), proporcionar uma melhor dinâmica para as transmissões de TV e aumentar possibilidades de ultrapassagens. Então, logo após a primeira curva, haveria uma nova tomada à direita que levaria ao complexo novo, formado por curvas mais convencionais, um hairpin, até retornar novamente ao Estádio.

Por mais que o foco principal das mudanças ficasse na construção do novo complexo, a primeira curva do traçado também passou por uma alteração: sua tomada foi suavizada para deixá-la mais veloz do que em sua versão clássica.

Para conseguir completar as obras em seu miolo, foi necessário remover uma área extensa ocupada por árvores no local. Em troca, a pista concordou em plantar novas árvores nos setores antigamente ocupados pela pista longa. Em resumo, a versão antiga de Hockenheim já é ocupada pela floresta, o que impossibilita de imediato que o velho traçado seja resgatado.

As obras custaram cerca de 62 milhões de euros e foram encabeçadas por Hermann Tilke, engenheiro alemão que construiu diversas das pistas mais modernas do calendário da F1. A pista segue a mesma desde então – e desde então também proporciona a saudade de fãs mundo afora.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.